A interpretação como leitura do sintoma

A interpretação como leitura do sintoma

Maria Josefina Sota Fuentes 

A interpretação como saber ler visa a reduzir o sintoma à sua fórmula inicial, isto é, ao encontro material de um significante com o corpo, quer dizer, ao choque puro da linguagem sobre o corpo. Então, certamente, para tratar o sintoma, é preciso passar pela dialética móvel do desejo, mas é preciso também se desprender das miragens da verdade que esse deciframento lhes traz e visar, ‘para além’ da fixidez do gozo, a opacidade do real.

(Miller, J.-A. Ler um sintoma. Opção Lacaniana, n. 70. São Paulo: Eolia, junho de 2015, p. 21.)

Nesta citação, Miller define a interpretação analítica de forma muito precisa, servindo-se das mudanças de paradigmas operadas na década de 70 no ensino de Lacan, tendo já advertido que há tempos a psicanálise se encontra na era “pós-interpretativa” [1]. E que, caso queiramos manter o termo “interpretação” para situar a prática do analista, será necessário tomar “a interpretação pelo avesso”.

O próprio fundador da psicanálise, Freud que a inaugura como a ciência da intepretação dos sonhos por excelência, estendendo a ação interpretativa do analista ao sintoma, adentrou na era “pós-interpretativa”. Passados os anos dourados dos primórdios da psicanálise, quando a abertura de um inconsciente dócil às interpretações triunfantes do analista incidia sobre sintomas que desapareciam milagrosamente em meses ou em uma caminhada nas montanhas, a prática analítica encontrou suas resistências. Se em 1917 Freud afirma que os sintomas têm um sentido de verdade e carregam uma mensagem cifrada pelo trabalho do inconsciente, passível de ser decifrada pela intepretação, em 1919 terá de acrescentar que o sintoma não se resume ao Sinn, ao sentido. Nos “Caminhos da formação do sintoma”, Freud procura a Bedeutung, a referência, os vestígios de uma satisfação enigmática e substitutiva da pulsão genital (inexistente), ligada às primeiras experiências traumáticas da “realidade sexual”. E em 1920 será preciso admitir, com o postulado da pulsão de morte, que a necessária e paradoxal satisfação do sintoma não se dissipa. Haverá sempre restos sintomáticos e o risco de a reação terapêutica negativa erguer-se como defesa frente ao furor sanandi do analista.

Portanto, convém destacar que interpretar “corretamente”[2] um sintoma não significa eliminá-lo (como pretendem as psicoterapias ou outras práticas normativas), mas localizar sua Bedeutung, as marcas primordiais que incidiram sobre o corpo do ser falante. É o que Lacan indica na Conferência em Genebra sobre o sintoma proferida em 1975, na porta de entrada do Seminário sobre o sinthoma. Nela, Lacan está menos interessado no aspecto simbólico do sintoma – já definido como um sentido aprisionado, ou uma metáfora determinada pelo discurso do Outro, ligada ao significante enigmático do trauma sexual e o termo que a ele vem substituir na cadeia significante. “O sintoma só é interpretado na ordem significante”[3], afirmava Lacan.

Porém Lacan nunca fez da interpretação um conceito fundamental na psicanálise por uma razão simples – explica Miller[4]. Pois a interpretação é o próprio inconsciente. Em outras palavras, o inconsciente estruturado como uma linguagem já é uma interpretação sobre o real opaco do sintoma. O inconsciente intérprete cifra e decifra, interpreta e paradoxalmente quer ser interpretado, pois a característica enigmática do significante apela à interpretação, convoca um S2 que responda pelo sentido ausente. É o que dá fundamento à regra da associação livre e à instalação da transferência como Sujeito suposto Saber. E quando o analista interpreta agregando sentido, fazendo alusão, pontuando, não faz outra coisa senão redobrar o trabalho do grande mestre da interpretação que é o próprio inconsciente. Não será necessário chegar à psicose para notar o caráter delirante que advém de tal modelo de intepretação, que agrega ao real do sintoma fora do sentido, o estatuto de uma verdade a ser decifrada na talking cure.

Para consolidar a prática analítica em outras bases, contrária à paixão interpretativa e com a qual os analistas se defenderam sistematicamente contra o real da experiência analítica, foi necessário a Lacan orientar-se precisamente pelo Oriente. De sua viagem ao Japão, um litoral se delineou no divórcio entre o significante, articulável à cadeia significante e passível de engendrar sentido, e a letra em sua opacidade real, que apenas traduz em sua materialidade a mudez da Coisa.

Com essa nova orientação, Lacan define então o sintoma não mais como uma formação determinada pelo discurso do Outro, mas advindo do real da letra[5] que fixa um modo de satisfação por onde o gozo se infiltra. E, a fim de especificar a maneira como o corpo se deixa agarrar pelo discurso, como se dá o choque inaugural e traumático entre as palavras e os corpos, na sequência, Lacan define o sintoma como um moterialisme[6], a matéria da palavra desprovida de sentido com letra que se inscreve no corpo. É onde reside a “tomada do inconsciente”, então reformulado em novas bases.

Nenhum determinismo fatal atribuído ao Outro como causa do sintoma que não seja delirante. Pois não há uma comunicação entre o que os pais transmitem e aquilo que chega à criança, senão o abismo de uma relação impossível entre um dizer que ficou esquecido nos ditos parentais e aquilo que a criança escuta, e o que dessas palavras, como um meteorito, ravina as terras do real do seu corpo e se sedimenta como letra. Assim, a matéria do que Lacan chamou de lalíngua, esse mar de equívocos próprio da linguagem, marca casualmente o corpo onde se fixa a letra e um modo de gozo, a partir do qual cada um fabrica seu sintoma, tece suas ficções e ergue seu mundo.

Portanto, quando importam menos as razões da miséria do sintoma, é possível conceber o alcance de uma intepretação analítica tomada pelo seu avesso, contrária à elucubração do inconsciente estruturado como uma linguagem. Trata-se, como afirma Miller, da interpretação como um “saber ler que visa reduzir o sintoma à sua fórmula inicial”. Isto é, um “saber ler” que implica não somente o sintoma como um resto da operação analítica do qual falava Freud, mas como um real primordial produzido no choque da lalíngua com o corpo, o sinthoma que finalmente é concebido como uma escritura ilegível separada do campo da fala e da linguagem, que não se deixa absorver pela trama do discurso nem pelo sentido comum.

A paradoxal leitura do ilegível implicaria ler o que foi definitivamente escrito nas profundezas do inconsciente?

Em se tratando da escrita, tal como Lacan a desenvolve nos anos 70’, é preciso considerar que a letra que se materializa no sinthoma jamais poderá ser lida integralmente. Não se trata de uma letra morta eternizada no mármore de uma lápide. Laurent[7] indica que a letra é mais um furo por onde o gozo se infiltra, um fragmento da língua incomunicável que se deposita sem jamais ser inscrita na língua comum, do que qualquer impressão que transmita sua mensagem.

Deste modo, ler um sintoma implica sobretudo afinar o ato de leitura à ética do bem-dizer, a arte que o analista ensina ao analisante ao longo da análise[8], que consiste em dizer o indizível de forma cada vez mais justa, cada vez melhor, até ficar satisfeito com isso!

Assim, reconduzir o sujeito aos significantes elementares com os quais ele delirou em sua neurose, incluindo a neurose de transferência, permite que o trabalho de leitura do sintoma se entrelace ao trabalho de escrita do próprio inconsciente que, no puro equívoco da lalíngua, esfolia continuamente as miragens da verdade.

Se podemos afrouxar os nós cegos e fazer outros arranjos, ampliar um vazio fértil para fazer reverberar outras leituras, outras palavras, e bem-dizer o real do sinthoma sempre em causa, é porque ler já é escrever uma vida, sempre em aberto.

 


[1] Miller, J.-A. “A interpretação pelo avesso”. Opção lacaniana, n.15, São Paulo, Eólia, 1966, pp. 96-99.
[2] Lacan, J. “Conferência em Genebra sobre o sintoma”. Opção lacaniana, n. 23, São Paulo, Eólia, 1998, pág. 10.
[3] Lacan, J. “Do sujeito enfim em questão”. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, pág. 235.
[4] Miller, J.-A. “A interpretação pelo avesso”. Op. cit., pág. 97.
[5] Lacan, J. O Seminário, livro 22: RSI. Inédito. Aula de 21/01/1975.
[6] Lacan, J. “Conferência em Genebra sobre o sintoma”. Op. cit., pág. 11.
[7]Laurent, É. “Lecturas del síntoma”. http://www.psicoanalisisinedito.com.
[8] Miller, J.-A. “Ler um sintoma”. Opção lacaniana, n.70, São Paulo, Eólia, 2015, pág.12.


Finezas e sutilezas

Finezas e sutilezas

Maria do Carmo Dias Batista 

A orientação para o singular não quer dizer não decifrarmos o inconsciente. Ela quer dizer que essa exploração encontra sempre necessariamente um obstáculo, que essa decifração se interrompe no fora do sentido do gozo e que, ao lado do inconsciente, onde isso fala – e fala a cada um porque o inconsciente é sempre sentido comum – há o singular do sinthoma, onde isso não fala a ninguém. Razão pela qual Lacan o qualifica de acontecimento de corpo.

Jacques-Alain Miller[1]

O fragmento acima encontra-se na sexta aula do curso de 2008-2009 de Jacques-Alain Miller, Choses de finesse em psychanalyse, de 17 de dezembro de 2008. Em português, extratos do curso estão publicados no livro Perspectivas dos Escritos e Outros Escritos de Lacan, com o nome “Coisas de fineza em psicanálise”. Na tradução ao espanhol, recebeu o título de Sutilezas analíticas.[2]

O curso trata, sobretudo, do psicanalista. Miller toma dois guias: a sutileza do ato falho de Freud[3], sutileza de admitir, em 1938, seu egoísmo recalcado em generosidade “não-quero” [… dar o presente; é para mim!] e o espírito de fineza de Pascal, antônimo do espírito da geometria, ou seja, o contrário do matema. Miller quer esclarecer o final do último ensino de Lacan, tomando a teoria dos nós como “tentativa de flexibilizar o matema […], de torná-lo capaz de capturar as coisas de fineza”.[4]

Fineza e sutileza são adjetivos certeiros para falar da posição do analista na decifração (ou não) do inconsciente e de seu obstáculo, o gozo, bem como para falar do sinthoma como acontecimento de corpo. Os dois pontos estão articulados no fragmento, pois o inconsciente faz nó com o sinthoma, conforme Lacan na conferência “Joyce, o sinthoma”.[5]

Há uma separação radical entre o inconsciente-saber-sintoma-interpretável e o acontecimento-sinthoma, excluído do saber, porém não do inconsciente (real). A fineza do analista consistiria em diferenciar qual terreno clínico está em jogo, pois, “a orientação para o singular não quer dizer não decifrarmos o inconsciente. [Porém,] a decifração se interrompe no fora do sentido do gozo […] e, ao lado do inconsciente, há o singular do sinthoma”.[6]

Difícil conceber acontecimento e sinthoma sem a interposição do corpo. Especialmente o sinthoma, cuja etimologia indica, desde os primórdios da medicina, índices, sinais e acontecimentos no corpo. Em Joyce, há o corpo tomado como casca de fruta madura depois de uma surra, estranheza, corpo fora do corpo… sem dúvida um acontecimento que demonstra a externalidade do escritor em relação a seu corpo.[7]

Em “Corpo, carne, cadáver”[8], Miller esmiuça três acepções do corpo em psicanálise: o do estádio do espelho, imaginário, corpo propriamente dito. Depois, há o corpo do gozo, Miller o denomina “carne” e o vincula ao real. Finalmente, o corpo simbolizado, o corpse, designado por “cadáver” e articulado ao simbólico.

O singular do sinthoma “onde isso não fala a ninguém”, como está no fragmento, será relativo ao gozo, à carne, ao acontecimento de corpo-carne, “aquele cuja consistência é de gozo”[9]. Mas, o sinthoma se repete e, nesse movimento, rotiniza o excesso de gozo.

A repetição coloca na ordem do dia os restos de trauma (de real) transformados em sinthoma. E, também, no “pós-analítico”, é a repetição a advertir o sujeito da âncora constituída pelo sinthoma.

Pensar o inconsciente a partir do gozo é uma das apostas do último ensino de Lacan. A sutileza do analista consiste em ser, ele próprio, um sinthoma. Diz Miller sobre o analista na continuação do fragmento: “dar-se ares de acontecimento de corpo, de semblante de traumatismo. E terá muito a sacrificar para fazer jus a ser, ou a ser considerado, um naco de real”.[10]

Entre finezas e sutilezas do analista, resta articular, dos desdobramentos do fragmento na mesma lição, a “natureza de defesa do inconsciente”[11], ou seja, na interpretação, para além da decifração e do sentido, trata-se de atrapalhar, de desmontar a defesa inconsciente.

Se o inconsciente é a própria defesa contra o real, a interpretação visa a perturbá-la, quer dizer, fazer ressoar, na interpretação, o nó do corpo com a lalíngua. De alguma maneira, impactar o corpo com a língua.[12]

 

Equívocos, homofonias, gramáticas, sons, gestos… uma espécie de corpo a corpo entre a interpretação e seu impacto no analisando.

Em suma, ter a sutileza de escutar os barulhos da língua.

 


[1] MILLER, J.-A. Perspectivas dos Escritos e Outros Escritos de Lacan. Entre desejo e gozo. Rio de Janeiro: Zahar, 2011, p. 97.
[2] MILLER, J.-A. Sutilezas analíticas. Buenos Aires: Paidós, 2011, p. 9.
[3] FREUD, S. “A sutileza de um ato falho” [1938]. In.: Obras completas. São Paulo: Companhia das Letras, Vol. XVIII, 2010, p. 475.
[4] MILLER, J.-A. Perspectivas. op. cit. p. 28.
[5] LACAN, J. “Joyce, o sinthoma”. In.: O Seminário – livro 23. O sinthoma. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Zahar, 2007, p. 163.
[6] MILLER, J.-A. Perspectivas. op. cit. p. 97.
[7] SILVA, R. F. et al. Bleuler, Freud, Lacan, Miller. Belo Horizonte: Scriptum (no prelo).
[8] MILLER, J.-A. “Corpo, carne, cadáver”. In.: BATISTA, M. C. D.; LAIA, S. (orgs.). A psicose ordinária: A Convenção de Antibes. Belo Horizonte: Scriptum Livros, 2012, p. 337.
[9] MILLER, J.-A. Perspectivas dos Escritos e Outros Escritos de Lacan. op. cit., p. 97.
[10] Idem, p. 97-98.
[11] Idem, p. 97.
[12] SEYNHAEVE, B. “Não sem os corpos (1)”. In.: Almanaque on-line do Instituto de Psicanálise e Saúde Mental de Minas Gerais. Belo Horizonte, número 27, 19 de julho de 2021.


Barulhos da língua na psicose

Barulhos da língua na psicose

Iordan Gurgel

Há uma passagem de Jacques-Alain Miller, em ‘Como começam as análises’, que merece uma leitura atenta para evitar os próprios “barulhos do mal-entendido” que ela pode suscitar.

Não há nada de excessivo em postular um parentesco de estrutura entre a psicanálise e a psicose, no momento de seu início de desencadeamento. O próprio Lacan havia pensado fazer da análise uma paranoia dirigida. Nisto, o verdadeiro começo da análise é assimilável ao desencadeamento do delírio interpretativo. Não é à toa que, na psicose, falamos de interpretação. Pode-se ver, no sujeito neurótico em análise, aparecerem alguns fenômenos de margem que pertencem a uma espécie de delírio interpretativo.”

À primeira vista, essa formulação pode levar à impressão de que Miller estaria aproximando a análise da psicose ou mesmo afirmando que a análise produziria uma psicose. Não é essa, contudo, a sua tese.

O que Miller propõe é um parentesco estrutural entre o início da análise e o desencadeamento psicótico. Essa homologia não diz respeito aos seus desfechos, mas ao fenômeno inaugural comum aos dois processos: a irrupção de um significante que rompe a continuidade da experiência e impõe ao sujeito a pergunta: O que isto quer dizer?”

Essa leitura se apoia numa afirmação feita pouco antes pelo próprio Miller: “Estamos tão convictos de que esse significante quer dizer alguma coisa, que não sabemos o que ele quer dizer.”

Em ambos os casos, emerge um significante enigmático que exige interpretação. É precisamente esse ponto que aproxima estruturalmente o início da análise e o início do delírio: ambos começam quando um significante perde seu sentido habitual e adquire o estatuto de enigma, convocando uma intensa atividade interpretativa.

Entretanto, é justamente nesse ponto que aparece a diferença decisiva entre neurose e psicose.

Na psicose, a interpretação tende à produção de uma certeza. O delírio procura fechar o enigma, estabilizando-o numa significação definitiva. Na análise, ao contrário, a interpretação é sustentada pela transferência e orientada pelo dispositivo analítico. O enigma permanece aberto, podendo ser trabalhado pela cadeia significante até encontrar seu limite na operação do ato analítico, em vez de se cristalizar numa certeza.

Pode-se dizer, então, que o delírio constitui uma solução de certeza, enquanto a análise é uma experiência sustentada pela suposição de saber e pela ausência de garantia última do sentido.

É nesse contexto que Miller recupera uma conhecida formulação de Lacan: a análise como uma “paranoia dirigida”[1]. A expressão, frequentemente tomada de modo equivocado, não designa uma paranoia clínica produzida pela análise. Ela indica que o dispositivo analítico organiza deliberadamente um movimento interpretativo.

O paranoico parte da convicção de que tudo significa alguma coisa. Na análise, algo semelhante ocorre, embora sob uma lógica inteiramente diversa: o analisante passa a interrogar lapsos, sonhos, atos falhos, sintomas e esquecimentos, supondo que ali há um saber a ser decifrado. Nesse sentido, a análise promove uma “paranoia dirigida“, isto é, uma orientação do trabalho interpretativo em direção ao inconsciente, sob a regulação da transferência e do desejo do analista.

Essa aproximação entre o início da análise e o desencadeamento psicótico constitui uma das formulações mais radicais de Miller sobre o primeiro ensino de Lacan. Ao mesmo tempo, ela antecipa desenvolvimentos posteriores de seu ensino, especialmente a elaboração da psicose ordinária, na medida em que destaca a função central do significante enigmático tanto no desencadeamento psicótico quanto na entrada em análise.

Convém lembrar, por fim, que o próprio Lacan irá relativizar a fórmula da “paranoia dirigida“. A partir do Seminário 11, e de maneira ainda mais decisiva em seu último ensino, o eixo da experiência analítica desloca-se da interpretação para o real do gozo e para o sintoma. A interpretação deixa de visar prioritariamente a produção de sentido e passa a operar sobretudo sobre a materialidade de lalíngua, seus equívocos e seus efeitos de gozo. Assim, se a análise pode começar sob o signo do enigma e da interpretação, ela tende a conduzir o sujeito para além da busca de significações, em direção ao encontro com o modo singular de gozar inscrito em seu sintoma.

 


[1] Conforme Lacan em: ‘A agressividade em psicanálise’ (Escritos (JZE, RJ, 1998), p. 112:…“a maiêutica analítica adota um rodeio que equivale, em suma, a induzir no sujeito uma paranoia induzida”.

 


Barulhos da interpretação na clínica com crianças

Barulhos da interpretação na clínica com crianças

Analícea Calmon

“Na clínica das crianças há efetivamente o sujeito que não respeita o código, não passa pelo código. Nesse momento somos confrontados com seus gritos, suas jaculações. O problema que encontramos aqui é a captura. Como capturar algo do sujeito nesse “código”? O analista se encontra na posição de validar o código do Outro, validar as regras e, digamos que aí, “interpretar a criança” é da ordem da captura”

(Miller, J.-A. Interpretar a Criança. Opção Lacaniana, nº 72. São Paulo: Edições Eólia. 2016, p.13-19)

O fragmento acima fala de um barulho que pode ser escutado entre o código e a captura, na clínica com crianças. O próprio título do texto de onde foi extraído este fragmento, gramaticalmente, provoca um ruído, visto que interpretar é um verbo transitivo que requer um objeto. Neste caso quem está ocupando o lugar de objeto é a criança. E o sujeito que pratica a ação de interpretar, quem é? O analista? Ou a própria criança? Este é um ruído que se faz presente. na parte final do fragmento acima destacado.

Código, na linguagem corrente, significa um sistema de símbolos usados na comunicação. Captura, na linguagem corrente, significa ato de apreender e também obtenção de dados. Como entender os respectivos usos destes significantes na clínica psicanalítica, no que se refere a “interpretar a criança?”

Vale lembrar que, no seu último ensino, na perspectiva do Real, Lacan critica a noção de código, por remeter a símbolos e significados pré-estabelecidos. Tais símbolos e significados aparecem no seu primeiro ensino, referidos às noções de código e captura, como podemos ver no seu escrito Subversão do Sujeito e Dialética do Desejo, datado de 1960. “Mensagens de códigos e códigos de mensagens distinguir-se-ão como formas puras no sujeito […] que se contenta com esse Outro prévio.” (Lacan, J. 1960/1998, p. 821). E esse Outro, designado como lugar da fala, manifesta-se na captura imaginária, onde o disfarce se integra no jogo de aproximação e ruptura. E na perspectiva do simbólico, ainda nos anos 60, Lacan enuncia que o sujeito é capturado pelo significante

Considerando os dois significantes em questão, à luz dos 3 registros – R.S.I – destacamos, no início do texto de Miller, uma referência à posição do analista como instrumento, com a ressalva de que na análise das crianças o analista é menos instrumento, vez que é obrigado a tomar mais iniciativas do que com o adulto, o que significa validar as regras e o código do Outro e faz entender que interpretar a criança é algo da ordem da captura, não sem barulhos.


Referências:
Lacan, J. Subversão do Sujeito e Dialética do Desejo. Em: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
Lacan, J. O Seminário, Livro 11, Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1979.
Lacan J. O Seminário, Livro 20, Mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1982.


Fala a partir do silêncio

Fala a partir do silêncio 

Angelina Harari

“É isto que faz o analista: falar do silêncio. Quando ele fala, fala ou deveria falar a partir do silêncio. E, guardar o silêncio, mesmo quando fala. É o segredo da interpretação. Preservar o lugar do que não se diz, ou do que não pode se dizer. Atribuir menos sua fala à fala do outro do que com o que ela cala. Pois o sujeito do verbo silet poderia também ser a fala. A fala guarda o silêncio. E falha diante do gozo.”

Miller, J.-A. Silet: os paradoxos da pulsão, de Freud a Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005, p.11.

O contexto da citação acima são as preparatórias de eventos cujas temáticas foram: “Você não diz nada” (Escola da Causa Freudiana) e “Os Poderes da Palavra” (Campo Freudiano).

Usaremos o aforismo de Lacan “Não há relação sexual”, recentemente trabalhado em um Congresso da AMP (abril/2026), à guisa de introdução, para abordar o corte lacaniano como prática interpretativa do analista para fazer falar o silêncio, conforme nos orienta J-A Miller ao assinalar que o analista guarda o silêncio, ou seja, quando o analista interpreta com o corte da sessão, está preservando a fala, a partir do silêncio.

O estatuto do Um

Há-Um [Yad’lun] Lacan o profere (o lança) como uma jaculação e o repete: “(…) repito o que isto quer dizer, porque não é algo de uma sonoridade muito habitual. Há-Um [Yad’lun] tem jeito de vir não sei de onde, do Um, não é?”[1]. Esta jaculação do Seminário 19, é isso que articularei, qual o vínculo entre a jaculação Há-Um e o aforismo Não há relação sexual.

 

Em que os dois se completam?

Para J. Lacan o Um articula-se ao fato de que “ele não se pensa, nem mesmo sozinho (…). Quando o Um se articula destaca-se exatamente isto: não há dois. Eu lhes disse, isso é um dizer…o que se interpreta imediatamente por nós – não há relação sexual.”[2]

A interpretação é a palavra usada para falar de como se completam, como se articulam, os dois aforismos. E ao “não há dois” virá se acrescentar “há o corpo”[3]. Logo, o Um supõe uma articulação com o corpo. E segundo a orientação lacaniana, o corpo aparece como o Outro do significante, ou seja, o corpo se apresenta no título Encore [Mais, Ainda, livro 20] como en corps e o Outro (com maiúscula) é o corpo, entende-se como “já se dirigir em direção ao registro do real”[4].

E J. Lacan, em seu último livro do Seminário (lição de 17 de janeiro de 1978) nos propõe um neologismo “Os trumains” para nos falar do ser humano, do ser humano perfurado, mostrando o simbólico em sua inadequação: “o significante é responsável pela não-relação sexual nos seres humanos”. Podemos aí identificar que: “o modelo do ato analítico no ultimíssimo ensino e na prática derradeira de Lacan é o corte”[5].

Seguindo esse fio, temos que a interpretação é ler de outra maneira: “o sujeito suposto saber ler de outra maneira, com a condição de ligar a outra maneira à sigla S(Ⱥ)”[6]

O Um e as entrevistas preliminares

O ato analítico, o corte, o ler de outro modo, os trumains, ou como se joga o jogo nos começos de uma análise? Quando alguém vem nos ver pela primeira vez, para Lacan, isto se compensará (no discurso do mestre) “(…) no dia em que isso for, o discurso analítico”[7]. E ele continua com o que ressalta no assunto das entrevistas preliminares: “É o confronto de corpos. É justamente porque isso parte desse encontro de corpos que não será mais questão disso a partir do momento em que se entra no discurso analítico”[8].

Terminarei a leitura com uma vinheta ocorrida em um controle/supervisão: deixar o analisante falar muito, não fazendo o corte da sessão, é um jeito de o analista falar muito, mesmo que ele fique em silêncio absoluto. Portanto, a meu ver, somente a prática interpretativa do corte implica a fala do analista que fala a partir do silêncio.

 


[1] Lacan, J. (2012[1971-72]). O Seminário, livro 19: …ou pior. RJ: Jorge Zahar, p.132.
[2] Idem, ibidem, p.177.
[3] Miller, J.-A. [2010-2011]. Curso de Orientação Lacaniana: “O Um sozinho” [ou “O ser e o Um”). lição de 18/05/2011.
[4] Idem, ibidem.
[5] Miller, J-A. Curso de Orientação Lacaniana: “O ultimíssimo Lacan”, lição de 2 de maio de 2007. Versão estabelecida por Pascale Fari, publicado no site do XIIº Congresso AMP. Disponível online. URL: O tema | Textos de orientação | Congreso AMP 2020
[6] Idem, ibidem.
[7] Lacan, J. (2012[1971-72]). Op.cit., p.228.
[8] Idem, ibidem.


Jaculatória, palavra que fere …

Jaculatória, palavra que fere …

Jésus Santiago

 

O discurso em questão não faz cadeia […] Desde então, trata-se de saber se o efeito de sentido em seu real tem a ver com o emprego das palavras ou com sua jaculação […] Acreditava-se que eram as palavras que tinham peso. Mas à medida que tivemos o trabalho de isolar a categoria do significante, acabamos vendo que a jaculação comporta um sentido isolável .

Lacan, J. Seminário XXII, RSI (1974-1975). Séance du 11 février 1975. Ornicar? Paris, n. 4, p. 97.

Retomar a jaculatória como horizonte para renovar a prática interpretativa implica uma reinvenção que se pretenda à altura do sintoma como acontecimento de corpo. Tal como reinventada no ensino de Lacan, a jaculação constitui — como sugere Éric Laurent — um filão fecundo para pensar a interpretação enquanto acontecimento[1]. Elevar o ato interpretativo a essa dignidade exige, primordialmente, distinguir a fala do dizer. Em Les non-dupes errent, Lacan adverte: nem toda fala é um dizer; do contrário, qualquer locução seria um acontecimento e as falas vãs não seria faladas. O dizer, diversamente, é da ordem do acontecimento[2]. Se a interpretação permanece como pilar da psicanálise, é porque sua operatividade reside no alcance das palavras. Neste momento do ensino, a interpretação postula-se como um instrumento que rompe com o vazio do falatório para atingir o dizer capaz de confrontar o insuportável do sintoma — única maneira de abrir uma porta ao real.

Portanto, a jaculação, enquanto dizer da ordem do acontecimento, emerge como meio apto a enlaçar a interpretação ao sintoma, este concebido como a reiteração do gozo do Um sobre o corpo. Para que a interpretação se sustente como jaculação, torna-se necessário transcender a função da fala, comumente voltada a gerar efeitos de sentido. Ir além dos efeitos de sentido — situados na junção do imaginário com o simbólico — implica reconhecer a jaculação como incompatível com um dizer esclarecedor ou com a tradução obtida pelo acréscimo de um significante-dois a um significante-um[3]. Assim, um ano após formular a interpretação como acontecimento, Lacan, no Seminário RSI, explicita a interpretação como jaculação: ‘O que apresentamos como o nó borromeano já vai contra a imagem de concatenação. O discurso em questão não faz cadeia […]. Desde então, trata-se de saber se o efeito de sentido em seu real tem a ver com o emprego de palavras ou com sua jaculação […]. Acreditava-se que eram palavras que tinham peso. Mas, à medida que tivemos o trabalho de isolar a categoria do significante, acabamos vendo que a jaculação comporta um sentido isolável[4].

Depreende-se que o caráter a-semântico da jaculação não se reduz à mera erradicação do sentido, mas à urgência de isolá-lo em seu efeito de real. Construir a interpretação como o que faz nó entre o dizer e o acontecimento de corpo é contrapor-se ao discurso que faz cadeia, o qual se sustenta sob o imaginário da concatenação. Tal perspectiva borromeana, reiterada nesta lição do R.S.I., posiciona a jaculação como a via privilegiada para extrair o real do efeito de sentido, operando, assim, um tratamento efetivo sobre as disrupções do gozo.

Laurent propõe que o enodamento entre o dizer e o acontecimento de corpo — próprio à jaculação — converge para a noção de vociferação, articulada por Miller na lição final de seu curso Todo mundo é louco[5]. O cerne dessa conceituação reside na ruptura com a equivalência entre a vociferação e o enunciado proposicional, este último tradicionalmente submetido à binaridade do verdadeiro ou falso. Diferente do fato proposicional, que se esgota em sua validade lógica, a vociferação e o enunciado poético operam para além desse critério. Embora ambas se fundamentem no par enunciado/enunciação, Miller define a vociferação pela suspensão dessa distinção, fazendo com que o enunciado e a enunciação se tornem indivisíveis no corpo falante.

É precisamente nesse ponto que a jaculação se equivale à vociferação: em ambas opera a suspensão da diferença entre enunciado e enunciação. A essa indivisibilidade soma-se o imperativo do corpo; vociferar exige um corpo em sua condição de falasser. Isso implica que tanto a vociferação quanto a jaculação convocam a voz como objeto (a) — aquele que mais tangencia a consistência lógica do real do gozo. Dentre as cinco formas episódicas do objeto, a voz é a que menos se deixa capturar pelo semblante do aparelho significante. Por situar-se na vertente do real, a voz na jaculação abre caminho à escritura e, consequentemente, à impressão, à rasura e à cunhagem da letra sobre o corpo.

A vociferação constitui a face renovada da jaculação, deslocando a interpretação para a vertente da ressonância do significante e franqueando a via do equívoco. Para a jaculação, o significante atua menos pela produção de sentido e mais pela sua ressonância como real, fazendo vibrar a voz além da significação. Através do objeto voz, a interpretação joga com a equivocidade dos significantes que agenciam o gozo, aproximando-se, assim, do estatuto da escritura. Apenas a escrita é capaz de circunscrever e isolar o real do efeito de sentido. Consequentemente, o inconsciente deixa de ser confundido com a revelação dos capítulos censurados da história do sujeito, transmutando-se em um texto que se lê e no qual a leitura equivoca, esvaziando o sentido ao dar ouvido aos ruídos de lalíngua. De fato, esse texto escrito do inconsciente, no que tange à linguagem, pode autonomizar-se[6] — a exemplo do rigor matemático — o escrito do inconsciente faz suplência ao sentido pelo rastro do som.

Para transmutar o inconsciente em um texto legível, é imperativo abdicar da premissa de que interpretar equivale a escutar significações preestabelecidas. A interpretação convoca, fundamentalmente, o ato da leitura em detrimento da escuta. Enquanto esta última se detém nas significações que despertam a compreensão — mantendo o gozo subjacente[7] —, a leitura opera em outra dimensão: nela, o significante ascende à condição de letra, desvinculado da tirania do sentido. Diferente da escuta, que busca isolar o significante a partir do significado, a leitura parte da materialidade do significante para, só então, dar lugar a possíveis significações. Essa defasagem evidencia que a passagem da escuta à leitura exige, necessariamente, o atravessamento pela escrita.

Em última instância, o uso da palavra só se efetiva como interpretação sob a égide da leitura. A própria condição de existência do inconsciente é o ler; nisso, ele guarda homogeneidade com o ato interpretativo, visto que ambos subsistem enquanto grafias da fala. Assim como a letra se oferece à leitura, o inconsciente — para o psicanalista — é o que se supõe ler. A jaculação, portanto, é a letra extraída da leitura que emana do inconsciente, da qual, rigorosamente, muito pouco se escuta. Não há escuta apartada da interpretação, de modo que a palavra, na experiência analítica, jamais é sacralizada[8]. Ao visar o real do efeito de sentido, a jaculação impõe-se como letra apofântica: fere o falasser para além da dicotomia entre verdadeiro e falso, prescindindo de qualquer demanda — sobretudo a de reconhecimento.

 


[1]Laurent, E. A interpretação: da verdade ao acontecimento. Curinga, Belo Horizonte: EBP-MG, nº 50, p. 182.
[2]Lacan, J. Les non-dupes errent (1973-1974), séance du 18 décembre 1973, Paris, inédit. (Grifo nosso)
[3]Idem.
[4]Lacan, J. R.S.I. (1974-1975), séance du 11 février 1975, Ornicar?, Paris, 1975, nº 4, p. 97. (Grifo nosso)
[5]Laurent, E.  A interpretação: da verdade ao acontecimento., op. cit., p. 182.
[6]Miller, J.-A. “L’un est lettre”. La Cause du désir, mars 2021, nº 107, p. 29.
[7]Idem.
[8]Miller, J.-A. “Conversation d’actualité avec l’École espagnole du Champ freudien. La Cause du désir, août 2021, nº 108, p. 51.


O sino da interpretação

O sino da interpretação

Romildo do Rêgo Barros

Porque donde no hay significante no podemos estar seguros de que haya goce. De modo que hay que suponer que el significante no tiene simplemente efectos de significado, sino de goce. ¿Qué serían asimilables a qué? Podemos verlo con las campanas, cuando se produce una fisura. Cada vez que toquen el carillón, seguirán escuchando la fisura de la campana. Pues bien, el goce es la fisura de la campana. Si la interpretación se mide con el goce, entonces no se la solicita por sus efectos de sentido, sino de goce.

Miller, J.-A. Sutilezas analíticas. Los cursos psicoanalíticos de Jacques-Alain Miller. Buenos Aires: Paidós, 2011, p. 267

 

Freud utiliza a própria resistência do sujeito para fazer ressoar outra coisa. Ele não se perde nos meandros do gozo, mas tenta fazer vibrar as ressonâncias da fala. É a isso que Lacan chama sua técnica renovada da interpretação.

Miller, J.-A. Silet: os paradoxos da pulsão de Freud a Lacan. Rio de Janeiro: Zahar, 2005, p. 26.

Pode-se usar o termo resistência em muitos setores do saber e das práticas. Por exemplo, em engenharia, a resistência dos materiais é uma coisa importante.

O principal erro, me parece, nosso, de psicanalistas, é pensar que a resistência é um erro. Como se sujeito estivesse errado em resistir.

É o primeiro passo para não se entender nada do que ocorre.

Lacan propõe uma inversão decisiva. Ele diz que a resistência está do lado do analista. Mesmo nesse caso, podemos também cometer um erro em pensar que a resistência – que está sempre do lado do analista -, seja um erro, agora do analista.

É um defeito de raciocínio. Mais ou menos paralelo a pensar que a resistência do sujeito é um pecado, um defeito.

Então, se não é um pecado ou um defeito, o que será?

Podemos partir da ideia dos engenheiros e pensar que a resistência é um ponto preciso da fala. Existe sempre na fala, e até no discurso, um ponto que se manifesta como resistência.

Não há fala sem resistência. Então, creio que aí sim, se torna interessante pensar a resistência do lado do analista, porque é com relação ao ponto onde a resistência se manifesta no discurso analisante que cabe ao analista intervir. Alguma coisa que aparece na história, na fala do sujeito, e que chama à intervenção por parte do analista. Então aparece a resistência como alguma coisa que mostra. Nisso, embora não seja a mesma coisa, fica claro um certo paralelo com a noção lacaniana do acting out. A resistência seria a falta de reação do analista com relação a esse ponto, chamemos de um ponto de gozo, que pode levar a acting out, em que o sujeito atua este ponto de gozo.

No caso da resistência, estamos em um plano mais estrutural. Não há fala sem resistência. E cada vez que se manifesta resistência, é esse o lugar do analista como real, como interlocutor desse gozo.

Este ponto de real encarna um ponto de esgotamento do sentido.

Cabe então outro comentário. Há outro, digamos, defeito psicanalítico que é o de pensar que a intervenção do analista deve se articular ao momento em que o sentido começa a fraquejar. Ele viria, então, dar um reforço ao sentido.

Ao contrário, a função do analista é de apontar. Apontar aquilo que acontece como consequência no discurso quando o sentido fraqueja. É, digamos, uma função ligada ao real, ao gozo, ao esgotamento não só do sentido, como do desejo.

É que só existiria, se não fosse assim, só existiria interpretação como mais uma frase proposta pelo analista à frase que já foi dita pelo seu paciente, ou seja, seria uma análise sem fim.

Nesta passagem, Miller está propondo outro tipo de intervenção, em vez de apontar para o gozo, o ponto do gozo, ou o objeto condensador de gozo, tal como O São João de Leonardo da Vinci que Lacan indica, seria o caso, em algumas situações, de fazer vibrar.

Vale lembrar o que Freud faz quando vê seu analisante o vendo como Capitão Cruel, agente da tortura dos ratos. Freud não intervém pelo sentido, mesmo que ele possa dizer “Eu não tenho nenhuma vocação para tortura”, no sentido de “Eu não sou o Capitão Cruel”. Sabemos que ele parte para uma aparente doutrinação. Dá umas aulas de psicanálise. E Freud foi bastante criticado por isso.

Mas o que destaca Miller é que ele atua o capitão cruel quando dá aula. É diferente de dizer que é um engano. O que Miller está dizendo é que Freud está antecipando a Interpretação Lacaniana. Qual é a Interpretação Lacaniana?

Não é responder de lado, mas a partir do lugar em que está posto na transferência. Só que em vez de dizer que a transferência é um erro, você age do lugar do gozo. No lugar do gozo, você destitui a sequência fraseológica por fazer vibrar sua relação com o gozo. Aí desloca o Capitão Cruel. Não acredito que fosse a intenção de Freud, mas é uma interpretação excelente. Então, isso equivale a dizer que Freud dá corpo à ideia de que a resistência está sempre do lado do analista.

Miller compara a intervenção do analista ao badalo de um sino. Sino, no plano das ressonâncias, como manobra interpretativa, é só para fazer vibrar a fala. Não é para trazer os fiéis, que a missa vai começar. É para favorecer a experiência do gozo em ruptura com o sentido.

É uma metáfora fazer vibrar, mas eu acho que ele quer dizer com isso que você não pode fazer e pensar que é um corte, para rachar o simbólico, que já está estruturalmente.

Entendo que a ressonância exige um primeiro momento, que é o puro choque que no sino se dá pelo encontro do badalo com o corpo do sino. A ressonância é o que vai vir em consequência dessa aplicação de força na parede do sino com a vibração. A vibração vai existir até que a força do badalo desapareça, chegue a zero, aí termina.

O badalo é o encontro com esse ponto de gozo. O badalo é a presença do analista dando corpo a este ponto. Talvez isso tenha a ver com o acontecimento de corpo, como outra maneira de falar desse ponto do real da resistência.

Então, o que interessa é que as ressonâncias produzam uma mudança, uma certa mudança de posição da fantasia, ou outra possibilidade, que é quando já gastou tanto a fantasia que esse badalo, as ressonâncias, é o que você pode fazer.


Interpretação e construção

Interpretação e construção

Elisa Alvarenga

 En tiempos de Freud no se establecía una diferencia tan hermética entre la interpretación y la construcción. Freud concebía muy bien la interpretación como comunicación de una construcción al paciente, una construcción, es decir, una elaboración de saber hecha por el analista. Freud explicaba esta elaboración de saber al paciente. No tenía dificultad en establecer de este modo una continuidad entre interpretación y construcción, entre la elaboración de saber y su comunicación a los fines de un efecto de verdad. Podemos decir que en su tiempo, y en todo caso para él -es la referencia, tal vez mítica, que tenemos-, el saber tenía en sí mismo efectos de verdad.

Miller, J.-A. La fuga del sentido. Buenos Aires, Paidós, 2012,  p. 227.

Esta afirmação de Miller, no seu curso de 28 de fevereiro de 1996, em Paris, pode ser esclarecida por um Seminário realizado em Milão dois anos antes, publicado sob o título “Marginália de ‘Construções em análise’”[1]. Miller começa propondo que a construção é uma espécie de ser intermediário entre interpretação e teoria, para chegar à constatação surpreendente de que, em “Construções em análise”, Freud está diante da evidência de que há sempre um resto que fica fora da construção e que Lacan escreve S(Ⱥ). Algo fica sempre defasado entre o todo e os pedaços e é isso que torna necessária a construção.

Em Freud, a interpretação teria o ar de um fragmento de construção, um tijolo da construção, uma pequena pílula de saber, enquanto a construção seria o todo do saber. Interpretação e construção seriam homogêneas. Miller considera que a interpretação em Freud abre, toca um elemento, faz ressoar, enquanto a construção liga diversos elementos, fecha.

Já para Lacan, interpretação e construção são dois modos bem diferentes. Elas se opõem como saber e verdade: a construção é uma elaboração de saber, enquanto a interpretação tem alguma coisa do oráculo. A construção da qual Lacan fala é aquela do fantasma que se realiza pelo efeito da operação analítica.

Para Freud, o analisante deve se lembrar do que foi recalcado, enquanto o analista deve construir ali onde o analisante não se lembra. Ou seja, Freud faz da construção uma atividade do analista. Já Lacan reparte as coisas de outra maneira: ele põe do lado do analisante não apenas a rememoração, mas também a construção, e o que cabe ao analista é o ato, a autorização simbólica de proceder à tarefa analisante.

Freud examina também a verdade e a falsidade de uma construção. Não é um grande problema fazer uma construção errada, pois, pode-se fisgar “a carpa da verdade justamente com a isca da mentira”[2]. O que garante a verdade de uma construção não é o sim ou o não do paciente, mas o material inconsciente que surge após uma construção. A denegação vale como certificado de autenticidade, assim como a resposta “Eu nunca pensei isso”, sinal de que se tocou o inconsciente. Aqui, diz Miller, o inconsciente não mente, ele fala ao lado e não podemos sugestioná-lo. O significante mente, é semblante, mas o gozo não mente, porque está do lado do real.

Se há um declínio da interpretação, propõe Miller, não é simplesmente por um déficit do saber constituído na psicanálise, mas por uma impotência da verdade em relação ao gozo[3]. É aí que se torna necessária uma outra modalidade de interpretação que é a leitura, que neste momento do seu Curso, Miller chama de legibilidade do sexo, ou das pulsões parciais, que vai além da interpretação do desejo e coloca em cena o corpo vivo com seu gozo[4].

 


[1] Miller, J.-A. Marginália de “Construções em análise”. Opção Lacaniana n. 17. São Paulo, nov. 1996, p. 92-107.
[2] Freud, S. Construções em análise. Fundamentos da clínica psicanalítica. Belo Horizonte, Autêntica, 2016, p. 371. Freud se refere à fala de Polônio, personagem do Hamlet de Shakespeare, ato II, cena I.
[3] Miller, J.-A. La fuga del sentido, Buenos Aires, Paidós, 2012, p. 234.
[4] Ibidem, p. 241-242.


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