A interpretação como leitura do sintoma

A interpretação como leitura do sintoma

Maria Josefina Sota Fuentes 

A interpretação como saber ler visa a reduzir o sintoma à sua fórmula inicial, isto é, ao encontro material de um significante com o corpo, quer dizer, ao choque puro da linguagem sobre o corpo. Então, certamente, para tratar o sintoma, é preciso passar pela dialética móvel do desejo, mas é preciso também se desprender das miragens da verdade que esse deciframento lhes traz e visar, ‘para além’ da fixidez do gozo, a opacidade do real.

(Miller, J.-A. Ler um sintoma. Opção Lacaniana, n. 70. São Paulo: Eolia, junho de 2015, p. 21.)

Nesta citação, Miller define a interpretação analítica de forma muito precisa, servindo-se das mudanças de paradigmas operadas na década de 70 no ensino de Lacan, tendo já advertido que há tempos a psicanálise se encontra na era “pós-interpretativa” [1]. E que, caso queiramos manter o termo “interpretação” para situar a prática do analista, será necessário tomar “a interpretação pelo avesso”.

O próprio fundador da psicanálise, Freud que a inaugura como a ciência da intepretação dos sonhos por excelência, estendendo a ação interpretativa do analista ao sintoma, adentrou na era “pós-interpretativa”. Passados os anos dourados dos primórdios da psicanálise, quando a abertura de um inconsciente dócil às interpretações triunfantes do analista incidia sobre sintomas que desapareciam milagrosamente em meses ou em uma caminhada nas montanhas, a prática analítica encontrou suas resistências. Se em 1917 Freud afirma que os sintomas têm um sentido de verdade e carregam uma mensagem cifrada pelo trabalho do inconsciente, passível de ser decifrada pela intepretação, em 1919 terá de acrescentar que o sintoma não se resume ao Sinn, ao sentido. Nos “Caminhos da formação do sintoma”, Freud procura a Bedeutung, a referência, os vestígios de uma satisfação enigmática e substitutiva da pulsão genital (inexistente), ligada às primeiras experiências traumáticas da “realidade sexual”. E em 1920 será preciso admitir, com o postulado da pulsão de morte, que a necessária e paradoxal satisfação do sintoma não se dissipa. Haverá sempre restos sintomáticos e o risco de a reação terapêutica negativa erguer-se como defesa frente ao furor sanandi do analista.

Portanto, convém destacar que interpretar “corretamente”[2] um sintoma não significa eliminá-lo (como pretendem as psicoterapias ou outras práticas normativas), mas localizar sua Bedeutung, as marcas primordiais que incidiram sobre o corpo do ser falante. É o que Lacan indica na Conferência em Genebra sobre o sintoma proferida em 1975, na porta de entrada do Seminário sobre o sinthoma. Nela, Lacan está menos interessado no aspecto simbólico do sintoma – já definido como um sentido aprisionado, ou uma metáfora determinada pelo discurso do Outro, ligada ao significante enigmático do trauma sexual e o termo que a ele vem substituir na cadeia significante. “O sintoma só é interpretado na ordem significante”[3], afirmava Lacan.

Porém Lacan nunca fez da interpretação um conceito fundamental na psicanálise por uma razão simples – explica Miller[4]. Pois a interpretação é o próprio inconsciente. Em outras palavras, o inconsciente estruturado como uma linguagem já é uma interpretação sobre o real opaco do sintoma. O inconsciente intérprete cifra e decifra, interpreta e paradoxalmente quer ser interpretado, pois a característica enigmática do significante apela à interpretação, convoca um S2 que responda pelo sentido ausente. É o que dá fundamento à regra da associação livre e à instalação da transferência como Sujeito suposto Saber. E quando o analista interpreta agregando sentido, fazendo alusão, pontuando, não faz outra coisa senão redobrar o trabalho do grande mestre da interpretação que é o próprio inconsciente. Não será necessário chegar à psicose para notar o caráter delirante que advém de tal modelo de intepretação, que agrega ao real do sintoma fora do sentido, o estatuto de uma verdade a ser decifrada na talking cure.

Para consolidar a prática analítica em outras bases, contrária à paixão interpretativa e com a qual os analistas se defenderam sistematicamente contra o real da experiência analítica, foi necessário a Lacan orientar-se precisamente pelo Oriente. De sua viagem ao Japão, um litoral se delineou no divórcio entre o significante, articulável à cadeia significante e passível de engendrar sentido, e a letra em sua opacidade real, que apenas traduz em sua materialidade a mudez da Coisa.

Com essa nova orientação, Lacan define então o sintoma não mais como uma formação determinada pelo discurso do Outro, mas advindo do real da letra[5] que fixa um modo de satisfação por onde o gozo se infiltra. E, a fim de especificar a maneira como o corpo se deixa agarrar pelo discurso, como se dá o choque inaugural e traumático entre as palavras e os corpos, na sequência, Lacan define o sintoma como um moterialisme[6], a matéria da palavra desprovida de sentido com letra que se inscreve no corpo. É onde reside a “tomada do inconsciente”, então reformulado em novas bases.

Nenhum determinismo fatal atribuído ao Outro como causa do sintoma que não seja delirante. Pois não há uma comunicação entre o que os pais transmitem e aquilo que chega à criança, senão o abismo de uma relação impossível entre um dizer que ficou esquecido nos ditos parentais e aquilo que a criança escuta, e o que dessas palavras, como um meteorito, ravina as terras do real do seu corpo e se sedimenta como letra. Assim, a matéria do que Lacan chamou de lalíngua, esse mar de equívocos próprio da linguagem, marca casualmente o corpo onde se fixa a letra e um modo de gozo, a partir do qual cada um fabrica seu sintoma, tece suas ficções e ergue seu mundo.

Portanto, quando importam menos as razões da miséria do sintoma, é possível conceber o alcance de uma intepretação analítica tomada pelo seu avesso, contrária à elucubração do inconsciente estruturado como uma linguagem. Trata-se, como afirma Miller, da interpretação como um “saber ler que visa reduzir o sintoma à sua fórmula inicial”. Isto é, um “saber ler” que implica não somente o sintoma como um resto da operação analítica do qual falava Freud, mas como um real primordial produzido no choque da lalíngua com o corpo, o sinthoma que finalmente é concebido como uma escritura ilegível separada do campo da fala e da linguagem, que não se deixa absorver pela trama do discurso nem pelo sentido comum.

A paradoxal leitura do ilegível implicaria ler o que foi definitivamente escrito nas profundezas do inconsciente?

Em se tratando da escrita, tal como Lacan a desenvolve nos anos 70’, é preciso considerar que a letra que se materializa no sinthoma jamais poderá ser lida integralmente. Não se trata de uma letra morta eternizada no mármore de uma lápide. Laurent[7] indica que a letra é mais um furo por onde o gozo se infiltra, um fragmento da língua incomunicável que se deposita sem jamais ser inscrita na língua comum, do que qualquer impressão que transmita sua mensagem.

Deste modo, ler um sintoma implica sobretudo afinar o ato de leitura à ética do bem-dizer, a arte que o analista ensina ao analisante ao longo da análise[8], que consiste em dizer o indizível de forma cada vez mais justa, cada vez melhor, até ficar satisfeito com isso!

Assim, reconduzir o sujeito aos significantes elementares com os quais ele delirou em sua neurose, incluindo a neurose de transferência, permite que o trabalho de leitura do sintoma se entrelace ao trabalho de escrita do próprio inconsciente que, no puro equívoco da lalíngua, esfolia continuamente as miragens da verdade.

Se podemos afrouxar os nós cegos e fazer outros arranjos, ampliar um vazio fértil para fazer reverberar outras leituras, outras palavras, e bem-dizer o real do sinthoma sempre em causa, é porque ler já é escrever uma vida, sempre em aberto.

 


[1] Miller, J.-A. “A interpretação pelo avesso”. Opção lacaniana, n.15, São Paulo, Eólia, 1966, pp. 96-99.
[2] Lacan, J. “Conferência em Genebra sobre o sintoma”. Opção lacaniana, n. 23, São Paulo, Eólia, 1998, pág. 10.
[3] Lacan, J. “Do sujeito enfim em questão”. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, pág. 235.
[4] Miller, J.-A. “A interpretação pelo avesso”. Op. cit., pág. 97.
[5] Lacan, J. O Seminário, livro 22: RSI. Inédito. Aula de 21/01/1975.
[6] Lacan, J. “Conferência em Genebra sobre o sintoma”. Op. cit., pág. 11.
[7]Laurent, É. “Lecturas del síntoma”. http://www.psicoanalisisinedito.com.
[8] Miller, J.-A. “Ler um sintoma”. Opção lacaniana, n.70, São Paulo, Eólia, 2015, pág.12.


Finezas e sutilezas

Finezas e sutilezas

Maria do Carmo Dias Batista 

“A orientação para o singular não quer dizer não decifrarmos o inconsciente. Ela quer dizer que essa exploração encontra sempre necessariamente um obstáculo, que essa decifração se interrompe no fora do sentido do gozo e que, ao lado do inconsciente, onde isso fala – e fala a cada um porque o inconsciente é sempre sentido comum – há o singular do sinthoma, onde isso não fala a ninguém. Razão pela qual Lacan o qualifica de acontecimento de corpo.”

Jacques-Alain Miller[1]

O fragmento acima encontra-se na sexta aula do curso de 2008-2009 de Jacques-Alain Miller, Choses de finesse em psychanalyse, de 17 de dezembro de 2008. Em português, extratos do curso estão publicados no livro Perspectivas dos Escritos e Outros Escritos de Lacan, com o nome “Coisas de fineza em psicanálise”. Na tradução ao espanhol, recebeu o título de Sutilezas analíticas.[2]

O curso trata, sobretudo, do psicanalista. Miller toma dois guias: a sutileza do ato falho de Freud[3], sutileza de admitir, em 1938, seu egoísmo recalcado em generosidade “não-quero” [… dar o presente; é para mim!] e o espírito de fineza de Pascal, antônimo do espírito da geometria, ou seja, o contrário do matema. Miller quer esclarecer o final do último ensino de Lacan, tomando a teoria dos nós como “tentativa de flexibilizar o matema […], de torná-lo capaz de capturar as coisas de fineza”.[4]

Fineza e sutileza são adjetivos certeiros para falar da posição do analista na decifração (ou não) do inconsciente e de seu obstáculo, o gozo, bem como para falar do sinthoma como acontecimento de corpo. Os dois pontos estão articulados no fragmento, pois o inconsciente faz nó com o sinthoma, conforme Lacan na conferência “Joyce, o sinthoma”.[5]

Há uma separação radical entre o inconsciente-saber-sintoma-interpretável e o acontecimento-sinthoma, excluído do saber, porém não do inconsciente (real). A fineza do analista consistiria em diferenciar qual terreno clínico está em jogo, pois, “a orientação para o singular não quer dizer não decifrarmos o inconsciente. [Porém,] a decifração se interrompe no fora do sentido do gozo […] e, ao lado do inconsciente, há o singular do sinthoma”.[6]

Difícil conceber acontecimento e sinthoma sem a interposição do corpo. Especialmente o sinthoma, cuja etimologia indica, desde os primórdios da medicina, índices, sinais e acontecimentos no corpo. Em Joyce, há o corpo tomado como casca de fruta madura depois de uma surra, estranheza, corpo fora do corpo… sem dúvida um acontecimento que demonstra a externalidade do escritor em relação a seu corpo.[7]

Em “Corpo, carne, cadáver”[8], Miller esmiuça três acepções do corpo em psicanálise: o do estádio do espelho, imaginário, corpo propriamente dito. Depois, há o corpo do gozo, Miller o denomina “carne” e o vincula ao real. Finalmente, o corpo simbolizado, o corpse, designado por “cadáver” e articulado ao simbólico.

O singular do sinthoma “onde isso não fala a ninguém”, como está no fragmento, será relativo ao gozo, à carne, ao acontecimento de corpo-carne, “aquele cuja consistência é de gozo”[9]. Mas, o sinthoma se repete e, nesse movimento, rotiniza o excesso de gozo.

A repetição coloca na ordem do dia os restos de trauma (de real) transformados em sinthoma. E, também, no “pós-analítico”, é a repetição a advertir o sujeito da âncora constituída pelo sinthoma.

Pensar o inconsciente a partir do gozo é uma das apostas do último ensino de Lacan. A sutileza do analista consiste em ser, ele próprio, um sinthoma. Diz Miller sobre o analista na continuação do fragmento: “dar-se ares de acontecimento de corpo, de semblante de traumatismo. E terá muito a sacrificar para fazer jus a ser, ou a ser considerado, um naco de real”.[10]

Entre finezas e sutilezas do analista, resta articular, dos desdobramentos do fragmento na mesma lição, a “natureza de defesa do inconsciente”[11], ou seja, na interpretação, para além da decifração e do sentido, trata-se de atrapalhar, de desmontar a defesa inconsciente.

Se o inconsciente é a própria defesa contra o real, a interpretação visa a perturbá-la, quer dizer, fazer ressoar, na interpretação, o nó do corpo com a lalíngua. De alguma maneira, impactar o corpo com a língua.[12]

 

Equívocos, homofonias, gramáticas, sons, gestos… uma espécie de corpo a corpo entre a interpretação e seu impacto no analisando.

Em suma, ter a sutileza de escutar os barulhos da língua.

 


[1] MILLER, J.-A. Perspectivas dos Escritos e Outros Escritos de Lacan. Entre desejo e gozo. Rio de Janeiro: Zahar, 2011, p. 97.
[2] MILLER, J.-A. Sutilezas analíticas. Buenos Aires: Paidós, 2011, p. 9.
[3] FREUD, S. “A sutileza de um ato falho” [1938]. In.: Obras completas. São Paulo: Companhia das Letras, Vol. XVIII, 2010, p. 475.
[4] MILLER, J.-A. Perspectivas. op. cit. p. 28.
[5] LACAN, J. “Joyce, o sinthoma”. In.: O Seminário – livro 23. O sinthoma. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Zahar, 2007, p. 163.
[6] MILLER, J.-A. Perspectivas. op. cit. p. 97.
[7] SILVA, R. F. et al. Bleuler, Freud, Lacan, Miller. Belo Horizonte: Scriptum (no prelo).
[8] MILLER, J.-A. “Corpo, carne, cadáver”. In.: BATISTA, M. C. D.; LAIA, S. (orgs.). A psicose ordinária: A Convenção de Antibes. Belo Horizonte: Scriptum Livros, 2012, p. 337.
[9] MILLER, J.-A. Perspectivas dos Escritos e Outros Escritos de Lacan. op. cit., p. 97.
[10] Idem, p. 97-98.
[11] Idem, p. 97.
[12] SEYNHAEVE, B. “Não sem os corpos (1)”. In.: Almanaque on-line do Instituto de Psicanálise e Saúde Mental de Minas Gerais. Belo Horizonte, número 27, 19 de julho de 2021.


Barulhos da língua na psicose

Barulhos da língua na psicose

Iordan Gurgel

Há uma passagem de Jacques-Alain Miller, em ‘Como começam as análises’, que merece uma leitura atenta para evitar os próprios “barulhos do mal-entendido” que ela pode suscitar.

“Não há nada de excessivo em postular um parentesco de estrutura entre a psicanálise e a psicose, no momento de seu início de desencadeamento. O próprio Lacan havia pensado fazer da análise uma paranoia dirigida. Nisto, o verdadeiro começo da análise é assimilável ao desencadeamento do delírio interpretativo. Não é à toa que, na psicose, falamos de interpretação. Pode-se ver, no sujeito neurótico em análise, aparecerem alguns fenômenos de margem que pertencem a uma espécie de delírio interpretativo.”

À primeira vista, essa formulação pode levar à impressão de que Miller estaria aproximando a análise da psicose ou mesmo afirmando que a análise produziria uma psicose. Não é essa, contudo, a sua tese.

O que Miller propõe é um parentesco estrutural entre o início da análise e o desencadeamento psicótico. Essa homologia não diz respeito aos seus desfechos, mas ao fenômeno inaugural comum aos dois processos: a irrupção de um significante que rompe a continuidade da experiência e impõe ao sujeito a pergunta: “O que isto quer dizer?”

Essa leitura se apoia numa afirmação feita pouco antes pelo próprio Miller: “Estamos tão convictos de que esse significante quer dizer alguma coisa, que não sabemos o que ele quer dizer.”

Em ambos os casos, emerge um significante enigmático que exige interpretação. É precisamente esse ponto que aproxima estruturalmente o início da análise e o início do delírio: ambos começam quando um significante perde seu sentido habitual e adquire o estatuto de enigma, convocando uma intensa atividade interpretativa.

Entretanto, é justamente nesse ponto que aparece a diferença decisiva entre neurose e psicose.

Na psicose, a interpretação tende à produção de uma certeza. O delírio procura fechar o enigma, estabilizando-o numa significação definitiva. Na análise, ao contrário, a interpretação é sustentada pela transferência e orientada pelo dispositivo analítico. O enigma permanece aberto, podendo ser trabalhado pela cadeia significante até encontrar seu limite na operação do ato analítico, em vez de se cristalizar numa certeza.

Pode-se dizer, então, que o delírio constitui uma solução de certeza, enquanto a análise é uma experiência sustentada pela suposição de saber e pela ausência de garantia última do sentido.

É nesse contexto que Miller recupera uma conhecida formulação de Lacan: a análise como uma “paranoia dirigida”[1]. A expressão, frequentemente tomada de modo equivocado, não designa uma paranoia clínica produzida pela análise. Ela indica que o dispositivo analítico organiza deliberadamente um movimento interpretativo.

O paranoico parte da convicção de que tudo significa alguma coisa. Na análise, algo semelhante ocorre, embora sob uma lógica inteiramente diversa: o analisante passa a interrogar lapsos, sonhos, atos falhos, sintomas e esquecimentos, supondo que ali há um saber a ser decifrado. Nesse sentido, a análise promove uma “paranoia dirigida“, isto é, uma orientação do trabalho interpretativo em direção ao inconsciente, sob a regulação da transferência e do desejo do analista.

Essa aproximação entre o início da análise e o desencadeamento psicótico constitui uma das formulações mais radicais de Miller sobre o primeiro ensino de Lacan. Ao mesmo tempo, ela antecipa desenvolvimentos posteriores de seu ensino, especialmente a elaboração da psicose ordinária, na medida em que destaca a função central do significante enigmático tanto no desencadeamento psicótico quanto na entrada em análise.

Convém lembrar, por fim, que o próprio Lacan irá relativizar a fórmula da “paranoia dirigida“. A partir do Seminário 11, e de maneira ainda mais decisiva em seu último ensino, o eixo da experiência analítica desloca-se da interpretação para o real do gozo e para o sintoma. A interpretação deixa de visar prioritariamente a produção de sentido e passa a operar sobretudo sobre a materialidade de lalíngua, seus equívocos e seus efeitos de gozo. Assim, se a análise pode começar sob o signo do enigma e da interpretação, ela tende a conduzir o sujeito para além da busca de significações, em direção ao encontro com o modo singular de gozar inscrito em seu sintoma.

 


[1] Conforme Lacan em: ‘A agressividade em psicanálise’ (Escritos (JZE, RJ, 1998), p. 112:…“a maiêutica analítica adota um rodeio que equivale, em suma, a induzir no sujeito uma paranoia induzida”.

 


Barulhos da interpretação na clínica com crianças

Barulhos da interpretação na clínica com crianças

Analícea Calmon

“Na clínica das crianças há efetivamente o sujeito que não respeita o código, não passa pelo código. Nesse momento somos confrontados com seus gritos, suas jaculações. O problema que encontramos aqui é a captura. Como capturar algo do sujeito nesse “código”? O analista se encontra na posição de validar o código do Outro, validar as regras e, digamos que aí, “interpretar a criança” é da ordem da captura”

(Miller, J.-A. Interpretar a Criança. Opção Lacaniana, nº 72. São Paulo: Edições Eólia. 2016, p.13-19)

O fragmento acima fala de um barulho que pode ser escutado entre o código e a captura, na clínica com crianças. O próprio título do texto de onde foi extraído este fragmento, gramaticalmente, provoca um ruído, visto que interpretar é um verbo transitivo que requer um objeto. Neste caso quem está ocupando o lugar de objeto é a criança. E o sujeito que pratica a ação de interpretar, quem é? O analista? Ou a própria criança? Este é um ruído que se faz presente. na parte final do fragmento acima destacado.

Código, na linguagem corrente, significa um sistema de símbolos usados na comunicação. Captura, na linguagem corrente, significa ato de apreender e também obtenção de dados. Como entender os respectivos usos destes significantes na clínica psicanalítica, no que se refere a “interpretar a criança?”

Vale lembrar que, no seu último ensino, na perspectiva do Real, Lacan critica a noção de código, por remeter a símbolos e significados pré-estabelecidos. Tais símbolos e significados aparecem no seu primeiro ensino, referidos às noções de código e captura, como podemos ver no seu escrito Subversão do Sujeito e Dialética do Desejo, datado de 1960. “Mensagens de códigos e códigos de mensagens distinguir-se-ão como formas puras no sujeito […] que se contenta com esse Outro prévio.” (Lacan, J. 1960/1998, p. 821). E esse Outro, designado como lugar da fala, manifesta-se na captura imaginária, onde o disfarce se integra no jogo de aproximação e ruptura. E na perspectiva do simbólico, ainda nos anos 60, Lacan enuncia que o sujeito é capturado pelo significante

Considerando os dois significantes em questão, à luz dos 3 registros – R.S.I – destacamos, no início do texto de Miller, uma referência à posição do analista como instrumento, com a ressalva de que na análise das crianças o analista é menos instrumento, vez que é obrigado a tomar mais iniciativas do que com o adulto, o que significa validar as regras e o código do Outro e faz entender que interpretar a criança é algo da ordem da captura, não sem barulhos.


Referências:
Lacan, J. Subversão do Sujeito e Dialética do Desejo. Em: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
Lacan, J. O Seminário, Livro 11, Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1979.
Lacan J. O Seminário, Livro 20, Mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1982.


A ressonância no corpo do ouvido, da boca e da voz

A ressonância no corpo do ouvido, da boca e da voz

Fátima Sarmento

No Seminário 23, Lacan afirma: “temos apenas o equívoco como arma contra o sinthoma [...] é unicamente pelo equívoco que a interpretação opera. É preciso que haja alguma coisa no significante que ressoe.”[1] Nesse mesmo Seminário, ele se vale dos nós para enodar o real, o corpo e o inconsciente, resultando daí um novo corpo – um corpo vazio que funciona como caixa de ressonância. Foi seguindo essa direção que ele chegou à sua última definição da pulsão: “as pulsões são, no corpo, o eco do fato de que há um dizer”[2].

Para Miller[3], Lacan utiliza-se da anatomia, mais especificamente da fisiologia, para mostrar que o circuito da palavra põe em função o ouvido, esse orifício que não se pode fechar, e põe também em função o buraco corporal da boca – a boca que beija a si mesma. Se o que importa é a ressonância no corpo do ouvido, da boca e da voz, fica evidente que a potência da palavra não depende de quem fala, mas de quem ouve.

Um exemplo clínico de Esthela Solano[4] está em conformidade com a ideia de que há um real que está antes do Outro e que corresponde a um choque inicial entre um significante e o corpo.

A analista recebe uma jovem cujo sofrimento passa pela homossexualidade feminina bastante enraizada, mas deixa claro que não quer mudar a sua escolha, quer apenas saber a razão de envolver-se com mulheres tão loucas. Sob transferência, a analisanda dá-se conta de que é sustentada por uma fantasia de ser sempre a que salva uma mulher. Por estar em análise, seu relato ultrapassa a série de mulheres, levando-a na direção de sua mãe. Assim, ela descobre a raiz da sua escolha homossexual em sua fantasia de salvar a mãe. Desde pequena, ela sempre ouviu que sua mãe quase morreu devido a uma doença infecciosa muito grave, sendo salva graças à penicilina. O nome dessa paciente termina com o som ...lina. Ela ouvia que a mãe fora salva graças à pênis...lina. Foi para esse lugar que ela se viu aspirada. A mãe inaugura a série das mulheres a serem salvas e a repetição foi reduzida a um S1 disparador.

O caso ensina que a psicanálise tem a chance de liberar, no sintoma, pelo viés do equívoco, o que ali se realiza como um gozo ignorado pelo próprio sujeito.


[1] LACAN, J. O seminário, livro 23: O sinthoma. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007. p. 18.
[2] Ibid., p. 18.
[3] MILLER, J.-A. El ultimíssimo Lacan. Buenos Aires: Paidós, 2013. p. 170.
[4] SOLANO SUAREZ, E. Detalhes e prudência diante das trapalhadas. O corpo e seus fenômenos. Correio, Revista da Escola Brasileira de Psicanálise, São Paulo, n. 56, p. 113-114 ago. 2006.

Operar em lalíngua

Operar em lalíngua

Virgínia Carvalho

Aprendemos com o argumento do XXVI Encontro Brasileiro que no coração da prática psicanalítica está a interpretação e que esta incide sobre o umbigo do falasser, fazendo surgir um “significante irredutível”[1]que o permita localizar, para além da significação, “a qual significante – não senso, irredutível, traumático – ele está, como sujeito, assujeitado”[2].

Tal indicação se deve ao fato de que, como pontua Lacan, lalíngua “serve para coisas diferentes da comunicação”[3], já que “aonde isso fala, isso goza”[4]. Para Miller, “dizer ‘lalíngua’ em uma só palavra é justamente designar lalíngua pelo som, lalíngua suposta, aquela anterior ao significante mestre, aquela que a análise parece liberar e desencadear”[5]. É o “depósito, a coletânea de vestígio dos outros ‘sujeitos’”, o modo como cada um inscreveu seu gozo pelos significantes.

A linguagem “é feita de lalíngua”[6], ou seja, ela é uma elucubração de saber sobre lalíngua. Nessa perspectiva, o inconsciente, que é intérprete - como vimos no último encontro preparatório, é um “saber-fazer com lalíngua”[7], “um saber que se articula a partir de lalíngua”[8].

Por essa razão, Lacan pode colocar, na interpretação, o acento sobre o significante, sobre “o jogo com a equivocidade”[9]. Ele chega a dizer que “é em lalíngua que a interpretação opera”[10], pois ela deve visar o essencial no jogo de palavras para não alimentar o sentido do sintoma. A interpretação deve sempre ser “o ready-made de Marcel Duchamp”[11], o que nos lembra a ideia proposta por Miller do analista como uma “instalação portátil”[12].

Considerar essa poética da interpretação não equivale a ficarmos apenas buscando os barulhinhos e grunhidos irreconhecíveis no caso, como muito bem nos indicou Henri Kaufmanner no Preparatório. O que seria, então, operar em lalíngua? Como nos servirmos dessa orientação tão precisa de Lacan em nossa prática cotidiana? E na psicanálise aplicada? Como podemos pensar essa operatividade da interpretação, a partir de lalíngua?

 


[1] LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Versão brasileira de M. D. Magno. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 237.

[2]Ibidem, p. 237.

[3] Idem. O seminário, livro 20: mais, ainda (1972-1973). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Versão brasileira de M. D. Magno. Rio de Janeiro: Zahar, 1985, p.188.

[4] Ibidem, p.156.

[5] MILLER, Jacques-Alain. Teoria de lalíngua. In: LACAN, Jacques; MILLER, Jacques-Alain. A terceira / Teoria de lalíngua. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 2023, p.105.

[6] Vamos usar a tradução escolhida no livro onde está publicada “A terceira”, por considerar que em português, anteposição do artigo “a”, introduziria uma contação de negação que não existe no termo em francês (Miller, 2022, p. 95).

[7]  LACAN, Jacques. O seminário, livro 20: mais, ainda (1972-1973). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Versão brasileira de M. D. Magno. Rio de Janeiro: Zahar, 1985, p. 190)

[8]  LACAN, Jacques; MILLER, Jacques-Alain. A terceira / Teoria de lalíngua. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 2023, p. 33.

[9] Ibidem.

[10] Ibidem.

[11] Ibidem, p.42.

[12] MILLER, Jacques-Alain. A fábrica de psicanalistas. Organização de Ana Lydia Santiago. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2024. (Coleção Opção Lacaniana, n. 18).


Entrevistas preliminares entre lalíngua, gozo e transferência.

Entrevistas preliminares entre lalíngua, gozo e transferência.

Claudia Regina Santa Silva

Na escuta do discurso do sujeito, como o analista pode seguir os sinais de lalíngua, ou o seu fenômeno essencial- o gozo-, uma vez que o acessível no trabalho analítico só é possível pela linguagem?

Podemos pensar no fazer do analista incidindo sobre o gozo já no início de um tratamento, ou seja, já nas entrevistas preliminares?

Na vertente de seu último ensino, Lacan vai dizer que todo sujeito é feliz no nível do inconsciente, já que a pulsão “sempre funciona como convém” . Se o sujeito é feliz no funcionamento da pulsão, o que o leva a uma análise, já que nesta será inevitável percorrer o caminho ao encontro de um impossível que o real vem introduzir?

Sabemos que o sujeito em um início de tratamento quer buscar o alivio de seu sofrimento, ou mesmo rearranjar algo que não está mais tão arranjado como antes. Mas ao encontrar-se com o discurso analítico, encontra outra coisa. Depara-se com o próprio gozo, e ao encontra-lo será necessário decidir o que fazer com ele. Esse trabalho não é simples e por isso a transferência parece ter papel fundamental nesse processo. No início é com o suporte da transferência que o sujeito atravessa momentos chaves na análise, e no fim, será necessário desbastá-la, para se separar do analista e do gozo de falar.

Miller no texto O monologo da aparola, apresenta uma torção da interpretação enigma para a interpretação que aponta para o impossível, ou seja, contraria ao princípio do prazer. Podemos pensar que essa lógica pode estar presente nas entrevistas preliminares? Ou seja, o analista pode utilizar-se tanto da interpretação enigma como a que aponta para o gozo? Como isso pode nos ajudar a pensar o início de um tratamento e o que pode engendrar a transferência, já pensando que lalíngua está lá desde o princípio, e com isso também a presença do gozo?

 


Da escuta à leitura[1]

Da escuta à leitura[1]

Esthela Solano-Suárez

Uma análise é uma experiência de fala à qual um falasser pode se arriscar. Ao se endereçar a um analista, ele espera receber uma resposta capaz de esclarecer o enigma daquilo que nele não funciona, escavando uma desarmonia no mais íntimo de si como pertencendo ao que lhe é mais estranho, não sem afetá-lo.

O endereçamento a um analista inclui uma suposição, a qual é sustentada por uma crença. Crer que aquilo de que se sofre quer dizer alguma coisa, cujo sentido escapa, revela-se ser a premissa de uma verdadeira demanda de análise.

Portanto, uma demanda de sentido suscetível de esclarecer o que quer dizer a opacidade em jogo. Desde o início, surge o eixo em torno do qual se articula o lugar do sujeito suposto saber, cujo engodo consiste em acreditar que o analista é suposto poder fornecer um significante que viesse dar sentido ao significante enigmático do qual o falasser padece. Essa é a armadilha da demanda e aquilo que o analisante em potencial mais teme: que o analista possa crer que sua pessoa é convocada como aquele que sabe. Ocupar o lugar de um analista digno desse nome exige que ele não vista a roupa[2], o que faria dele apenas um fantoche ridículo.

Delimitar as coordenadas do que constitui a queixa do sujeito, correlacionada a um sofrimento, será essencial. Tato, prudência e gosto ao detalhe serão esperados no analista. Um interesse pela particularidade da situação que lhe é apresentada, sua preocupação com a precisão, fará surgir uma maneira de dizer na qual certos ditos ganharão relevo.

Do fluxo de palavras daquele que fala, o analista pode fazer ouvir, não as palavras, mas os significantes. Em especial, um significante que, por sua insistência, por sua consistência sonora, representa o sujeito e pode adquirir o valor de significante da transferência. A mudança ocorre no momento em que o analista introduz o analisante em uma outra diz-mensão, a do inconsciente, enquanto um saber que o sujeito pode decifrar[3].

Freud abriu esse caminho: inaugurando um discurso inédito, o discurso analítico, ele demonstrará que os sintomas, os sonhos, os lapsos, podem ser decifrados, revelando um sentido relativo ao saber inconsciente. O trabalho de ciframento do inconsciente, que se realiza nos sonhos, veicula uma satisfação do desejo produzindo, ao mesmo tempo, um “ganho de prazer”. O sentido do sintoma decifrado evidencia um saber-fazer do inconsciente com os significantes de lalíngua, sem deixar de realizar uma secreta satisfação pulsional.

A interpretação freudiana é da ordem do sentido, revelando uma verdade relativa ao sentido sexual.

A experiência freudiana esbarra na dificuldade do fim da análise; a constatação de um rochedo intransponível, do qual a castração é a chave, e a recusa da feminilidade o seu correlato. A constatação de “restos sintomáticos”, solicitando a retomada regular da análise, é coerente com a ideia de uma análise sem fim.

Jacques-Alain Miller considera que essa dificuldade decorre da modalidade de interpretação centrada no sentido. Na medida em que a experiência da fala é a da fuga do sentido e da falta do verdadeiro sobre o verdadeiro, o processo de deciframento não encontra seu ponto de finitude[4]. Ele observa que Freud, ao interpretar o sintoma no quadro da dialética edipiana, prolongando a metonímia do gozo, recobre de significação o significante do sintoma que opera fora-do-sentido. Ele contrapõe a isso a operação de Lacan que consiste em deslocar a interpretação do ternário edipiano para um ternário que não produz sentido: o enquadre borromeano[5].

A partir dessa perspectiva, é o próprio estatuto e funcionamento da interpretação que muda, passando da escuta do sentido à leitura do fora-do-sentido, acrescenta J.-A. Miller nesse texto.

Sigamos, portanto, essa nova perspectiva.

No enquadramento do nó borromeano que enoda três consistências – sendo o real, o simbólico e o imaginário –, sua disposição permite localizar que o sentido encontra seu lugar na interseção do imaginário e do simbólico. O sentido é aquilo que responde, no imaginário, ao simbólico. Se o imaginário se sustenta na consistência da imagem do corpo, Lacan conclui que há um parentesco entre a boa forma e o sentido; nesse caso, a consistência suposta ao simbólico está de acordo com essa imagem primordial[6]. Sabe-se que, para que haja nó, o imaginário e o simbólico não bastam; é necessário acrescentar-lhes o terceiro elemento, o real.

“O real [segundo Lacan] se funda por não ter sentido, por excluir o sentido ou, mais exatamente, por se decantar ao ser excluído dele”[7].

Na sua intenção de extrair a psicanálise do impasse freudiano, Lacan desloca a interpretação do sentido, que visava a verdade, em direção à existência de um real, a fim de fazer a operação analítica passar da impotência ao impossível. Para isso, ele se apoia na lógica, a qual Aristóteles dá o passo inaugural ao esvaziar os ditos de seu sentido. “Com isso, ele nos dá uma ideia da dimensão do real, [passando] pelo escrito”[8], indica Lacan.

A esse respeito, J.-A. Miller sublinha que “a linguagem, enquanto tal – nosso blábláblá habitual – não acede a nenhum real. Simplesmente, a linguagem supõe o ser a certas palavras”[9]. Em consequência, é necessário que a linguagem faça surgir “o real [como sendo] o produto fora-do-sentido de um discurso”[10]. Nesse caso, a lógica e o discurso matemático são capazes de produzir uma demonstração de impossibilidade. O real de Lacan, fora-do-sentido e sem lei, toca a impossibilidade da escrita da relação sexual entre os seres falantes.

É essa a orientação proposta por Lacan quando indica que, se “a análise […] é a resposta a um enigma”, nesse percurso “é preciso conservar a corda. […] corremos o risco de tartamudear, se não soubermos onde a corda termina, ou seja, no nó da não-relação sexual”[11].

Se o inconsciente é uma formação linguageira, e se a linguagem veicula o Um, o Um do significante, segue-se que, “do inconsciente, todo Um, na medida em que sustenta o significante de que o inconsciente consiste, é suscetível de se escrever por uma letra”[12]. Por essa via, o inconsciente adquire o estatuto de um escrito. Lacan acrescenta que a escrita da letra “é justamente aquilo que o sintoma opera de maneira selvagem”, de onde provém “o que não cessa de se escrever no sintoma”[13].

Daí a importância dessa referência à escrita para circunscrever a repetição.

Se o inconsciente e o sintoma são da ordem do escrito, o estatuto da interpretação muda ao passar “da escuta do sentido à leitura do fora-do-sentido”. Ler um sintoma “consiste em separar a fala do sentido veiculado por ela, a partir da escrita como fora-do-sentido, como Anzeichen, como letra”[14]. Isso consiste “em desmamar o sintoma do sentido”[15], pois “ao nutrir de sentido o sintoma, ou seja, o real, não fazemos senão dar-lhe continuidade de subsistência”[16].

Lacan indica que, se na prática analítica se opera a partir do sentido, ele não deixa de precisar que “por outro lado, o sentido, vocês só operam ao reduzi-lo”[17]. Reduzir o sentido visa produzir uma incidência sobre o real do gozo, esvaziando o sentido sexual que recobre sua opacidade. A interpretação passa então a apoiar-se naquilo que é legível no que se ouve nos ditos do analisante. Para isso, ela recorre ao que é fundamental no simbólico, a dimensão do equívoco, “a qual comporta a abolição do sentido”[18]. A legibilidade, como fundamento da interpretação do analista, orienta-se pela sonoridade do significante, afastando a finalidade da significação. A dimensão sonora, isolada pelo corte dos ditos, fará passar o dito ao dizer.

O dizer é um acontecimento, e faz acontecimento de corpo se a sonoridade do dito ressoa com os traços deixados por lalíngua no corpo. Nesse caso, o simbólico pode incidir sobre o real parasitário do gozo, tornando possível isolar um “gouço-sentido [j’ouis-sens]. É a mesma coisa [acrescenta Lacan] que ouvir um sentido”[19].

O legível, resultado de uma operação analítica fundada sobre o corte – operação que Lacan pensava elevar “à dignidade da cirurgia”[20] –, ao fazer irromper o fora-do-sentido que promove o equívoco, ao final do percurso, tropeçará no ilegível do sinthoma, e cujo gozo opaco, tendo sido circunscrito, assinala o mais singular de um falasser. Não sem que emerja a experiência de uma nova satisfação desprendida do pathos inicial.

 

Tradução: Gustavo Menezes

 

[1] Texto publicado originalmente no site da Journées de l’École de la Cause freudienne 53 – Interpréter, scander, ponctuer, couper de novembro de 2023.
[2] LACAN, J. Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003, p. 253-254.
[3] LACAN, J. O Seminário, livro 21: les non-dupes errent. Aula de 13 nov. 1973. Inédito.
[4] MILLER, J.-A. Un rêve de Lacan. Le Réel en mathématique. Paris: Le Seuil, 2004, p. 127.
[5] MILLER, J.-A. Ler um sintoma. In: A fábrica de psicanalistas. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2025, p. 253-262.
[6] LACAN, J. O Seminário, livro 22: R.S.I. Aula de 21 jan. 1975. Inédito.
[7] LACAN, J. (1975-1976). O Seminário, livro 23: o sinthoma. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Zahar, 2007, p. 62-63.
[8] LACAN, J. O Seminário, livro 21: les non-dupes errent. Aula de 12 fev. 1974. Inédito.
[9] MILLER, J.-A. Un rêve de Lacan. Op. cit., p. 127.
[10] Idem, p. 128.
[11] LACAN, J. (1975-1976). O Seminário, livro 23: o sinthoma. Op. cit., p. 70.
[12] LACAN, J. O Seminário, livro 22: R.S.I. Aula de 21 jan. 1975. Inédito.
[13] Idem.
[14] MILLER, J.-A. Ler um sintoma. Op. cit., p. 261.
[15] Idem.
[16] LACAN, J. (1974). A terceira. In: LACAN, J.; MILLER, J.-A. A terceira; Teoria de lalíngua. Rio de Janeiro: Zahar, 2022, p. 53.
[17] LACAN, J. O Seminário, livro 22: R.S.I. Aula de 10 dez. 1974. Inédito.
[18] LACAN, J. (1974). A terceira. Op. cit., p. 54.
[19] LACAN, J. (1975-1976). O Seminário, livro 23: o sinthoma. Op. cit., p. 71.
[20] LACAN, J. O Seminário, livro 25: o momento de concluir. Aula de 11 abr. 1978. Inédito.


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