Ressonâncias poéticas da lalíngua na infância

Ressonâncias poéticas da lalíngua na infância

Cristina Drummond (EBP/AMP)

 

Quando pensamos em como interpretar queremos saber que uso da palavra a psicanálise recorre para atingir o que há de mais real em nós. A relação singular de cada um com a palavra inconsciente delimita uma topologia da poética.

Em seu Tempo de Concluir[1], seminário de 77/78, Lacan diz que “temos necessidade do equívoco, (ele) é a definição da análise, porque tal como a palavra o implica, o equívoco imediatamente se verte para o sexo”. Freud nos ensinou que as palavras para a psicanálise, têm espírito: as palavras ou os ditos espirituosos trazem a marca de um dos modos do inconsciente falar. O chiste é a equivocidade da linguagem e ele nos dá “o modelo da justa interpretação analítica”[2]. Lacan ainda nessa aula de seu seminário diz que uma ideia tem um corpo que a palavra representa. E a palavra tem a propriedade curiosa de fazer a coisa: “fait la chose”. Para transmitir essa elaboração, Lacan diz que precisou equivocar e escrever: “fait la chose/ fêle la chose”, literalmente, racha a coisa.

O equívoco é efeito da não relação sexual já que o sexo é um dizer e que a relação sexual é um conjunto vazio. E o que chamamos de interpretação, diz Lacan em sua conferência “O fenômeno lacaniano[3], é que há palavras que suportam e outras não, há dizeres que operam e há dizeres sem efeitos. Ele nos lembra de que o dizer que opera nem sempre tem um sentido e que talvez este sem sentido seja o mais operante. Esthela Solano nos diz que Lacan “praticava a psicanálise reduzindo a sessão à emissão de um som, de uma sonoridade, fora do sentido”[4]. Ele visava desta maneira os ecos do dizer, fazendo ressoar os traços de lalíngua no corpo. O equívoco como índice da palavra inconsciente tem um lugar central para pensarmos a interpretação e seus efeitos, orientados pelo que Laurent[5] chamou de uma topologia da poética.

Então, como uma interpretação opera sobre o gozo? Para responder a essa questão Lacan se vale do poeta Francis Ponge e do neologismo que este inventou para qualificar seu método particular. A qual réson, pergunta Lacan, “escrevam r.é.s.o.n”[6] é preciso recorrer para centrar o real que a interrogação lógica nos faz recorrer?

O método criativo de Ponge[7] se apoia sobre dois mecanismos. O primeiro consiste em colocar no centro de suas preocupações o objeto tal como ele se encontra na língua francesa, no espírito francês. Ele dá muita importância à espessura semântica das palavras, à sua etimologia, à sua história, ao som e ao seu aspecto visual. O segundo mecanismo consiste em tornar presente, na materialidade do texto, a particularidade essencial desse objeto. Trata-se de uma retórica pelo objeto e pelo poema. É esta impregnação da língua que Ponge chama de réson, “o concerto de vocábulos ou de sons significativos”. Réson se situa entre razão e res que designa em latim o objeto na realidade. Ponge inventa uma forma poética que não quer se fixar, e que traz uma tensão constante entre a unicidade de cada vocábulo e a equivocidade do sentido, entre a inscrição de cada palavra e sua espessura semântica, sonora e visual. O poema se apresenta de um lado sob uma forma escrita, fixada e de outro ele é vibração, estremecimento, tremor. Trata-se de dar lugar à emergência na língua de um objeto textual de um gênero novo que porta o vazio, visando o que a faz vibrar nela mesma e apontando o “quando uma nomeação ocorreu pela primeira vez”[8]. Trata-se de franquear o muro da ideia preconcebida, tirar a palavra do sonambulismo, criar um acontecimento de língua, tal como diz Pierre Malengreau.

A palavra tem efeitos de sentido, de gozo, mas sobretudo do que Lacan chama de efeitos de não-relação[9]. A experiência analítica coloca em jogo o vazio que está no cerne da língua e faz soar algo distinto do sentido.

A questão da ressonância, que atravessa todo o ensino de Lacan, é prolongada e ao mesmo tempo subvertida pelo termo réson. Ela se prolonga na medida em que reenvia aos efeitos de sentido que se obtém com a ajuda do significante, tal como na poesia clássica os significantes são usados com novos usos. Isto já está em função e campo da palavra e da linguagem[10], quando Lacan convida os analistas a pensar a interpretação a partir da conexão dos significantes entre si.

Mas a subversão ocorre porque o sentido apazigua, mas não leva muito longe. Lacan se volta para a materialidade das palavras, trazendo o peso que a realidade de uma letra, uma palavra ou uma frase têm como meio de abordar algo de real numa análise, peso que vem de sua capacidade de introduzir algo para além do sentido. Assim, além de apontar para os falsos entendimentos e aliviar as leituras que nos aprisionaram, a interpretação analítica visa deslocar os programas de gozo. Por isso Lacan nos diz que as intervenções do analista devem ser da mesma ordem que as intervenções parentais[11] que nos determinaram, e devem visar o encontro contingente entre um dito ou um não dito e o corpo, fazendo aparecer a causalidade mais singular do falasser.

Trata-se de buscar uma palavra que não seja apenas a retomada da história de cada um e que provoque o desejo de nomear ou de simplesmente dizer, bem dizer, o que não teve lugar seja pelo silêncio seja pela descrença no Outro.

Em seus testemunhos alguns AE nos relatam como puderam localizar essa relação íntima com a palavra. É frequente que ao final de sua experiência possam nomear seu gozo a partir de uma equivocidade e, de maneira singular, extrair algo vivo da palavra.

Araceli Fuentes localiza a fala que foi escutada e não entendida do outro. Após a morte de seu pai ela busca uma segunda análise.  Logo na primeira sessão surge a frase que marcara sua vida: “ah se sua mãe a visse!”. Também menciona a frase que seu primo tinha o costume de dizer: “Que sorte teve a menina com dona Maria!”. Dona Maria era a mulher com quem seu pai se casara. Essa frase lhe dizia não apenas que estava bem ter uma segunda mãe como que era uma sorte ter perdido a primeira. A transferência a fazia sonhar, inclusive com sua analista examinando sua garganta e dizendo, tal como Freud a Irma, o nome de sua doença: Lupus. Segundo ela, sua análise não foi fácil, uma verdadeira travessia no deserto, pois ela partia de um real mudo que não se prestava a nenhum tipo de simbolização.

Guy Poblome[12] nos ensina como depois da decifração de seu sintoma ele pode tocar pela palavra os pontos de cristalização do vivo na língua. Ele recupera da fala materna o gérmen de sua fantasia. Na adolescência ele lhe perguntou porque ela havia tido tantos filhos e ela respondeu: é verdade, eu poderia ter utilizado uma agulha de tricô para me desembaraçar da criança em cima de um vaso sanitário. O sujeito ficou identificado ao dejeto, como objeto evacuado, rejeito do Outro. Foi preciso seguir e fazer equivocar em seu nome próprio, o que estava morto nele e ter então a abertura para escrever em seu corpo e na língua algo de vivo. O duplo mortal, o irmão que morrera antes de seu nascimento, aparece no final do tratamento. O significante agulha, sozinho, retirado da fala materna, reitera como índice do real do gozo fora de sentido, numa proliferação. O gui de aguille/agulha começa a ressoar como pura sonoridade de outra maneira. Hei guy, bem vindo ao mundo dos vivos, transformou a agulha mortal num aguilhão do desejo. Esse equívoco do significante agulha não como trocadilho, mas como equívoco da própria língua, lhe abre a possibilidade de romper com seu programa de gozo.

Inconsciente poeta

Aharon Appelfeld foi um escritor judeu que nos ensina muito sobre a relação da criança com a palavra, o silêncio e a escrita. Para ele, que viveu desde cedo sem casa, “a infância é a pátria mais importante da nossa vida”. Nascido em Czernowitz que fazia naquele tempo parte da Romênia, ele presenciou o assassinato de sua mãe e de sua avó aos 8 anos quando sua cidade foi invadida pelos nazistas. Vai para um campo de trabalhos forçados com o pai que o carregou por dois meses nos ombros e por isso ele pode sobreviver. Seu pai é levado para o trabalho todos os dias e ele entende que tem que fugir dali. E conseguiu escapar. Sobreviveu à guerra da maneira mais improvável, escondendo-se em florestas, junto com um bando de ladrões de cavalos, que o usavam para seus roubos, colocando-o dentro dos estábulos por passagens estreitas, nas quais não haveria espaço para um adulto. Ele passa alguns anos na floresta em companhia de ladrões, marginais, prostitutas. Terminada a guerra, aos quase 14 anos, foi levado para um campo de refugiados e, em 1946, para o que era então o embrião do Estado Judeu. Vindo de um lar de língua alemã, perdeu a língua-mãe durante os anos de errância e, em Israel, ele vai estudar o hebraico, que chamou de sua “língua-madrasta”, “língua materna adotiva”, língua na qual ele escreve mais de quarenta livros. Até aquele momento ele não havia frequentado a escola. E ele aprende o hebraico fazendo cópias da bíblia, ligando a leitura e a escrita a partir da música. As línguas que ele conhecia não lhe contavam nada e ele semeou essa nova língua no interior dele mesmo. O hebraico, mais do que uma língua, o reconectou com seus avós e a escrita lhe permitiu se interessar e amar as pessoas.

Ele diz em uma entrevista: “Não conhecia viva alma quando cheguei aqui. Não conhecia a língua, não conhecia o lugar, a ideologia não era algo que me agradava. Subitamente, uma noite, me sentia muito mal, e resolvi fazer um registro para mim mesmo, no qual escrevi: meu pai chamava-se Michael, minha mãe chamava-se Bunia, meu avô chamava-se Meir, nasci em Czernowitz, na Rua Masaryk, fiz um longo registro, assim, e então eu sabia que eu não era um órfão. Sabia que tinha uma casa, uma cidade, uma rua. Quem nasceu em Israel, tinha pais, tinha avós, tinha ido a um jardim de infância e a uma escola. Eu cheguei aqui sem nada – sem cultura, sem nada. A escrita me devolveu meus pais, minha cidade, meu rio, minhas árvores. Me devolveu tudo o que me foi arrancado. Mas minha memória não é uma memória histórica. É uma memória associativa. Não faço reconstruções, não tenho com que fazer reconstruções. Durante os anos da guerra, convivi com criminosos de todos os tipos. E aprendi a olhar com muita atenção para tudo. Para ver se não seria assassinado, para ver se não descobririam que apenas um simples olhar, mas um olhar que está ligado ao pensamento. O verbo hebraico Lehitbonen, olhar atentamente, está associado a Biná, a inteligência, o pensamento”.

Assim ele entendeu que era órfão e que podia escrever aquilo que ele não conseguia falar. Ele diz que aprendeu que a palavra tem fraquezas e que o silêncio é a verdadeira expressão. Isso ele aprendeu com os refugiados que lhe transmitiram isso. A maior parte dos livros da Shoah são de história e as pessoas não queriam falar do que se passava dentro delas.

É comovente seu relato do encontro com seu pai 15 anos depois da última vez que haviam se visto. Ele estava em Israel e todos os meses ia conferir o nome das novas pessoas que chegavam. Ele não sabia se seu pai havia sobrevivido. Um dia ele leu o nome do pai nessa lista dos recém-chegados a Israel e foi buscá-lo numa zona rural. Ele não o reconheceu, mas seu pai sim, o reconheceu. E ao vê-lo, o pai ficou siderado e se calou. Uma cena marcada pelo silêncio e pela falta de palavras.

Ele nos relata a importância da musicalidade das palavras e o vemos em um documentário, já idoso, lendo o que escreveu, cantarolando[13]. Essa musicalidade, que o faz encontrar a boa palavra, busca recuperar a voz de sua mãe que lhe lia estórias na hora de ir dormir. Em sua escrita ele se orienta pela formulação de que na arte o silêncio é mais importante do que a palavra. O silêncio é a verdadeira expressão.

Ele conta ainda nessa entrevista: “Meu principal interesse é a palavra hebraica, sua musicalidade. Uma palavra tem conteúdo, mas tem uma música e eu sigo esta música”. Ele diz que sem música ele não pode escrever. Desde o início da vida a criança está imersa na linguagem, lhe dirigem palavras que a embalam ou as percutem.

Éric Laurent nos diz que na leitura, a dimensão de ficção, de acreditar no que vai ser contado é fundamental. Ele pensa que é preciso ligar uma criança a essa dimensão de crença e que é algo da ordem do teatro e não do desenvolvimento neuronal. Com o livro acreditamos numa dimensão nova. E é dessa relação com o livro, a ficção e a voz que lê que Appelfeld nos dá um lindo testemunho.

Em seu trabalho de escrita, é como se ele criasse sua língua familiar, o de que ele foi fundamentalmente alijado. Escrever em hebraico é também sua maneira de introduzir um pouco de distância em relação aos acontecimentos de sua infância e facilita o registro da ficção. E assim ele nos demonstra como somos seres de palavra e é na linguagem que moramos e por ela somos tecidos e engendrados. Sua arte nos apresenta um saber fazer com o singular e a resposta da criança que ele pode enfim escrever.

E seu caminho nos faz retornar à via que Miller nos indica como orientador para nossa prática: devemos restituir e dar lugar ao saber autêntico da criança.

 


[1] Lacan J, Le moment de conclure, aula de 15 de novembro de 1977, inédito.
[2] Lacan J, “O fenômeno lacaniano”. Opção lacaniana, n.68-69. São Paulo: Eoloa, dezembro 2014, p. 22.
[3] Idem, p.15.
[4] Solano E, “Sublimation et escabeau”. Quarto n.123, La réson du rêve, novembro 2019, p.28.
[5] Laurent E, “L’interprétation: de l’écoute à l’écrit.  La cause du désir n.108. Paris: Navarin, julho 2021, p.59.
[6] Lacan J, Estou falando com as paredes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2011, p.85.
[7] Cf Malengreau P, “La leçon de Francis Ponge”. Quarto n.123, La réson du rêve, novembro 2019, p. 133-138
[8] Malengreau P. “Ce n’est pas avec des idées qu’on fait une psycanalyse”. Em: La cause du désir n.106, Créer l’élangues, Paris: Navarin Ed., 2020, p.19.
[9] Lacan J. “Présentation de R.S.I.”, n.2, março 15, p.88.
[10] Lacan J. “Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise”. Em: Escritos, Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed., 1998, p 238-324.
[11] Lacan J. “Conférences et entretiens dans les universités nord-américaines”. Scilicet, n. 6/7, 1976, p.46.
[12] Cf. Poblome G. “Hey Guylle”. Em: La Cause du Desir, n.107, março de 2021. Ed. Navarin, p. 100-103 e Annoncer la “Bonne Nouvelle” in: Mental n.43, junho de 2021, p. 173-178.
[13] Aharon Appelfeld, A voz dos esquecidos, documentário disponível no Youtube


O trauma de lalíngua e a interpretação

O trauma de lalíngua e a interpretação[1] 

Hebe Tizio (ELP/AMP)

 

O trauma e o desamparo originário 

A psicanálise explicou durante muito tempo o chamado trauma do nascimento pela separação do corpo materno. Lacan redefiniu esse momento, uma vez que a referida separação implica que o sujeito é absorvido pelo simbólico. Isso significa que ele se confronta com palavras cuja materialidade se mostra excessiva diante desse desamparo primário e que, por isso, marcam traumaticamente o ser vivente.

Freud[2] utilizou a palavra Hilflosigkeit para designar o desamparo originário, no qual o sujeito depende do Outro para satisfazer suas necessidades primárias. Considerava que esse desamparo deixava marcas indeléveis e se expressava como angústia automática toda vez que uma situação traumática se fazia presente.

Na leitura lacaniana, a Hilflosigkeit diz respeito à desproteção diante do gozo, mas não apenas em relação ao pulsional, como também em relação ao simbólico. Remete, além disso, à falta de proporção entre significante e significado, ao fato de que a palavra não diz o real, à fuga do sentido…

Lacan assinala que: “Ante a presença primitiva do desejo do Outro como obscuro e opaco, o sujeito encontra-se sem recursos, hilflos. A Hilflosigkeit — emprego o termo de Freud — diz-se em francês détresse, desamparo do sujeito. Ali se encontra o fundamento do que, na análise, foi explorado, experimentado e situado como a experiência traumática.”[3]

Para Freud, a angústia se produz como um sinal no eu, com base na Hilflosigkeit[4]. Lacan acrescenta que basta um elemento para defini-la plenamente e é o ponto em que o sujeito se vê castrado, confrontado com o Outro, com maiúscula.

Na Hilflosigkeit, o sujeito está transbordado por uma situação que irrompe e à qual não pode se enfrentar. Entre aquilo que perturba e a fuga, Freud situa a Erwartung, expectativa, que põe em evidência que a angústia é o modo radical sob o qual se mantém a relação com o desejo[5]. A angústia seria tanto expectativa do trauma quanto repetição minguante do mesmo[6].

O traumatismo primário relaciona-se com o encontro com A barrado, que se lê como não há relação sexual. Essa afirmação é secundária em relação ao Há do Um, que traz a questão do gozo em primeiro plano. Diante desse ponto, o simbólico fracassa, pois não alcança a tratá-lo pela via da representação[7]. A resposta ao traumático do real não vem do lado da representação, mas do sintoma.

O traumático das palavras é que elas fazem furo, dando lugar ao inassimilável. Inassimilável porque não entra na cadeia associativa, por isso, o inassimilável é aquilo que se repete. Não faz laço, não se elabora.

Algumas palavras tornam-se traumáticas ao acaso, e tocam um sujeito desprotegido, absorvido pelo simbólico. Desproteção, então, diante do furo da foraclusão generalizada, onde nada resta além da invenção. Diante do furo do real[8]troumatisme, inventa-se um “truque” para preenchê-lo. A invenção torna-se necessária, e cada um inventa o que pode; é isso que se enoda.

Essa marca orienta o funcionamento do ser falante, e é sob transferência analítica que a invenção construída em torno do furo pode ser revisitada. 

Lalíngua

Lalíngua é a integral dos equívocos que nela persistem, como precisa Lacan em O Aturdito[9], e civiliza o gozo, permitindo que o corpo goze dos objetos, do objeto a como núcleo elaborável do gozo, mas que somente depende da existência do nó, das três consistências dos toros que o constituem[10].

Para Lacan, lalíngua mostra, já em sua própria grafia, ao obturar o intervalo de separação, que se trata de algo anterior à sua organização sintática e gramatical.

Lalíngua não se situa no registro da comunicação, mas no gozo. O inconsciente é feito de lalíngua; é um saber-fazer com ela[11]. Lalíngua produz efeitos porque “apresenta toda sorte de afetos que restam enigmáticos”.

“Esses afetos são o que resulta da presença de alíngua no que, de saber, ela articula coisas que vão muito mais longe do que aquilo que o ser falante suporta de saber enunciado.”

A linguagem permanece como um recorte sobre lalíngua, ao passo que esta mostra que o significante serve para o gozo. Algo acontece ao corpo por efeito de lalíngua, o corpo fica afetado, marcado. O inconsciente é um saber-fazer com lalíngua e, por isso, está sujeito ao equívoco.

Freud imaginava que o núcleo traumático era o verdadeiro, mas Lacan assinalou que ele não tinha existência, pois a única coisa que existe é a aprendizagem de lalíngua[12]. Trata-se, em certa medida, de um paradoxo já que ela humaniza, mas, ao mesmo tempo, deixa uma profunda desarmonia diante da qual opera a invenção, que se aferra ainda mais a lalíngua, já que dela não se pode sair.

É importante observar as defesas construídas diante do traumático de lalíngua. Por um lado, a tela do fantasma funciona como um véu que encobre sua função na repetição. É o que Lacan assinala no Seminário XI em relação à sua invenção: “O lugar do real, que vai do trauma à fantasia — na medida em que a fantasia nunca é senão a tela que dissimula algo de absolutamente primeiro, de determinante na função da repetição —aí está o que precisamos demarcar agora.”[13]

O fantasma é definido como a sugestão do imaginário pelo simbólico, ao passo que o simbólico está associado ao real pelo fantasma. Em 1977[14], Lacan assinala que o fantasma dá matéria à poesia, já que é um argumento que toca o corpo, que o sugestiona. A poesia implica uma relação direta do significante com o corpo, remetendo à pulsão como um “eco de um dizer no corpo”[15].

Outra invenção é o sintoma, já que ele vai justamente ali onde a relação sexual não pode ser escrita. A existência funda-se a partir do furo da estrutura e, a partir daí, escreve-se o sintoma[16]. A falha do simbólico produz efeito de sintoma no real.

Mais interessante, porém, é pensar essa questão pelo lado do nó. O ponto de partida são os registros desenodados, o corpo fragmentado, a linguagem anterior à sintaxe…, que requerem um enodamento capaz de organizar um funcionamento defensivo em relação ao traumático inicial de lalíngua. De que instrumento o sujeito se serve para essa tarefa? Dos três registros e do sinthoma como quarto elemento que enoda; mas isso deve ser examinado caso a caso. O nó é um tratamento de lalíngua pelo entrelaçamento dos registros, que deixam os furos necessários para novas invenções.

Lalíngua aponta para a palavra tomada materialmente, isto é, foneticamente. Os esforços de Lacan para formular a questão da interpretação conduzem às suas últimas elaborações, assentadas sobre os efeitos do trauma causados por lalíngua e sobre a defesa subjetiva tecida com o mesmo material. Daí que a interpretação se aproxime de falar essa lalíngua para furar o sentido fixado.

A interpretação

Lacan abordou a questão da interpretação ao longo de todo o seu ensino, elaborando as modificações que acompanharam seus próprios avanços.

Num primeiro momento, o predomínio do simbólico marca a questão da interpretação. Em “Função e campo…”[17], trata-se da interpretação pela simbolização, de uma “ressonância semântica”; trata-se de uma operação do significante sobre o próprio significante. Posteriormente, Lacan introduzirá o objeto a, que aparece como heterogêneo ao significante.

Lacan assinala que existem regras da interpretação, mas que isso não é uma questão própria da psicanálise. As regras da interpretação são formuladas por outros discursos, como é o caso da religião.

O sintagma “saber ler”, que Lacan sempre colocou em evidência, remete à questão da interpretação. Freud[18], em A interpretação dos sonhos, toma partido pelas duas teorias da leitura formalizadas em torno do Livro: a leitura literal e a simbólica.

No Seminário XVII[19], Lacan faz referência ao Midrash como exemplo de “saber ler”, já que faz o texto responder às interrogações que lhe são colocadas.

É nesse ponto que aparecem a citação e o enigma. O enigma é uma enunciação que não corresponde a nenhum enunciado; é um mi-dire, (meio-dizer), e cabe ao ouvinte formular o enunciado. A referência a Édipo e à Quimera se faz presente para apontar que formular esse enunciado não é sem consequências. A citação, por sua vez, é um enunciado que deve referir-se ao nome de um Outro para fazer surgir a enunciação.

A interpretação é definida como um saber enquanto verdade, e o enigma e a citação são dois registros que participam do mi-dire e constituem o medium da interpretação.

Se, na exegese hebraica, o enigma é tomado do texto, na experiência analítica ele é tomado da trama discursiva do analisante. O mesmo ocorre com a citação, que requer situar o contexto e convoca o autor.

A verdade, tributária do mi-dire, tanto no Midrash quanto no discurso analítico, possui, entretanto, um estatuto diferente. Para o discurso religioso, A Verdade existe, contudo, devido à fragilidade humana, ela só pode ser reencontrada parcialmente, permanecendo apenas do lado da mística cabalística a possibilidade de um acesso pleno.

No Midrash trata-se de uma leitura ao pé da letra, que põe em jogo a materialidade significante para fazer surgir um plus de significação. As leis da interpretação põem em jogo a homofonia, a gramática e a lógica, questão que nos remete ao Lacan de O Aturdito.

Com isso, Lacan marca claramente que não se trata de alienar o analisante aos significantes do Outro, mas de fazer surgir algo que não está explicitado no “texto” — um plus—, o saber ou a enunciação latentes.

Do lado da exegese cristã, a monumental obra de Henri de Lubac[20]Exégèse Médiévale, esclarece que o sentido, na Idade Média, estrutura-se de acordo com a teoria tradicional do triplo ou quádruplo sentido.

A interpretação alegórica suprime as contradições entre os dois Testamentos. O problema que se coloca é que a interpretação alegórica não se legitima por si mesma, daí a necessidade da Igreja como garante. Trata-se da fé e da obediência à autoridade infalível da Igreja.

A exegese católica abre, por meio da interpretação, a dimensão da recuperação de um sentido oculto na letra. A primazia do Espírito sobre o significante seria sua expressão, e o significante tornar-se-ia o meio de uma possível revelação de algo que lhe é anterior.

A Escritura conteria a palavra de Deus e, portanto, seria inesgotável; por isso, a interpretação constituiria uma tarefa infinita. 

A interpretação borromeana

Uma mudança fundamental ocorre no último ensino de Lacan: já não se trata da lógica, mas de lalíngua. A disjunção entre o real e o sentido passa ao primeiro plano, colocando uma série de questões no que diz respeito à interpretação.

Como assinala Miller, a noção de algoritmo é destruída pela afirmação de que só se pode mentir sobre o real, de que há uma inadequação entre o significante e o gozo[21]. Como a interpretação afeta o sintoma? Se permanecemos no registro da comunicação, não há saída. Por isso, Lacan remete à poesia, na qual o significante produz tanto efeito de sentido quanto efeito de furo.

O ponto de dificuldade é que se inventa sentido para tamponar o furo traumático. Trata-se de uma interpretação que permanece cristalizada. Então, o que fazer com a interpretação analítica? Sobrepor um novo sentido, caminhando para sua infinitização, ou tentar furar essa fixação…

Miller[22] trabalha o par efeito de sentido – efeito de furo em relação à interpretação. O efeito de sentido remete à palavra, entre o imaginário e o simbólico; o furo é sem sentido e situa-se entre o simbólico e o real. A interpretação se sustentaria na função do furo, “seria uma espécie de forçamento pelo qual um psicanalista pode fazer soar outra coisa que não o sentido[23].

Lacan[24] assinala que, com a ajuda da escrita poética, se poderia alcançar a dimensão do que seria a interpretação, na medida em que ela faria funcionar “outra coisa” pela via da ressonância.

Embora Lacan fale de ressonância do início ao fim de seu ensino, há uma mudança: trata-se da passagem da ressonância semântica para a ressonância produzida pelo furo.

A poesia funda-se sobre a ambiguidade do duplo sentido e constitui uma violência feita à língua, mais precisamente ao uso cristalizado da língua. Por isso, não se trata do efeito de sentido da poesia, mas de seu efeito de furo. Uma interpretação justa extingue um sintoma porque esvazia um sentido, o que especifica a verdade como poética, isto é, furada, meio-dita.

Lalíngua encontra-se fora da gramática, da sintaxe… e se abre a todos os equívocos. Por isso, a interpretação como equívoco procura aproximar-se do funcionamento de lalíngua, porque é isso que o inconsciente, feito dessa matéria, “entende”.

Como assinalou Miller, a lei da palavra é o reconhecimento; a lei do significante é o equívoco, isto é, a arbitrariedade do sentido, porque faz surgir o múltiplo[25].

Lacan situa três pontos nodais onde os equívocos se concentram. Trata-se da homofonia, da gramática e da lógica[26].

Lalíngua aponta para a palavra tomada materialmente, isto é, foneticamente[27]. No que se diz há o som, e isso concerne ao inconsciente, já que permite sua entrada no discurso. O sonoro deve consonar com aquilo que é do inconsciente[28]. Por isso, ao interpretar, produz-se com o sintoma uma circularidade. Sintoma e inconsciente: vis sans fin, circularidade; há um furo, a Urverdrängung, porque há o nó e um real que permanece no fundo[29].

No Seminário XXIV[30], Lacan cita o livro A escrita poética chinesa[31], de François Cheng, como referência para compreender o que poderia ser a interpretação analítica. Ali fala do forçamento necessário para fazer ressoar outra coisa que não o sentido, já que este tampona.

Não se trata, sem dúvida, de fazer poesia, mas de inspirar-se em algo da ordem da poesia para fazer funcionar outra coisa, onde som e sentido se unem estreitamente. Vale lembrar que os poetas chineses recitam seus poemas de maneira cantada…

Cheng[32] escreve sobre duas leis da estética chinesa: a do “sopro rítmico” e a oposição “vazio-plenitude”.

O “sopro rítmico”: segundo a tradição, uma obra autêntica deve mergulhar o homem na corrente vital.

“Daí a importância concedida ao ritmo, importância tal que o ritmo possui valor sintático e, em certos casos, ainda substitui qualquer outra forma de sintaxe.”

A oposição “vazio-plenitude”: o uso das palavras plenas (verbos e substantivos) e das palavras vazias (pronomes pessoais, preposições etc.), pela via da omissão das palavras vazias e do uso destas como palavras plenas, produz uma “oposição interna na língua e um desarranjo na natureza dos signos. Disso resulta uma linguagem depurada, mas livre; desnaturada, mas soberana, que o poeta molda para seu próprio uso.”

Cheng[33] esclarece que o Tao designa o vazio original de onde emana o sopro primordial, que é o Um. O Um divide-se em dois sopros vitais, o Yin e o Yang. No coração dos dois intercala-se o Três, que é o vazio médio. Esse vazio médio é uma entidade dinâmica que permite que os dois interajam e se transformem mutuamente. Se ele falta, Yin e Yang não podem funcionar, o que demonstra a importância do terceiro, que, de fato, faz existir o dois.

O vazio[34] é, assim, um elemento dinâmico e operante; é o lugar das transformações e possui uma função ativa. É o estado supremo da origem e o elemento central no mecanismo do mundo das coisas.

Como assinala Laurent[35], o uso correto do vazio médio constitui uma espécie de versão do litoral que separa duas coisas que não dispõem de nenhum meio para unir-se nem para passar de uma à outra. Ele inscreve o litoral como borda de todo saber possível. Daí a necessidade de transformá-lo em um vazio operante. Abre-se, assim, a possibilidade de sustentar o real e o sentido a partir do lugar do analista.

A referência à poesia em relação à interpretação borromeana introduz uma dúvida sobre o sentido. Isso leva Lacan a tomar como ponto de partida a conexão entre S1 e S2, e propõe modificá-la para precisar o efeito poético. Com efeito, S2 deve ser entendido não como sucessor de S1, mas como remetendo a uma duplicidade de sentido, qualificando esse efeito como imaginariamente simbólico. De certo modo, trata-se de uma forma de escrever o equívoco[36]. O simbolicamente imaginário corresponde ao uso corrente da língua, sem violência; trata-se do sentido.

Miller assinala que, no modelo poético que Lacan propõe para esta interpretação que denomina borromeana, trata-se da eliminação de um sentido e de sua substituição por uma significação que é uma palavra vazia, isto é, um efeito de furo.

“A interpretação é, propriamente, o forçamento pelo qual, a partir de um sentido sempre comum, pode ressoar uma significação que é apenas vazio, vazio somente sob a condição de nos dedicarmos a ela.”[37]

 

Tradução: Paula Nathalie Nocquet

[1] Texto publicado originalmente na Revista El Psicoanálisis, n. 38. Barcelona: ELP, novembro de 2021.
[2] Freud, S. Inibição, sintoma e angústia (1926-2026). Obras incompletas de Sigmund Freud. Tradução Pedro Heliodoro e Maria Rita Salzano Moraes. Belo Horizonte: Autêntica, 2026.
[3] Lacan, J. O Seminário, livro 6: o desejo e sua interpretação. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2016, p.26.
[4] Ibid. p. 27.
[5] Lacan, J. O seminário, livro 8: a transferência (1960-1961). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1992. p.353
[6] Freud, S. Inibição, sintoma e angústia (1926-2026). Obras incompletas de Sigmund Freud. Tradução Pedro Heliodoro e Maria Rita Salzano Moraes. Belo Horizonte: Autêntica, 2026.
[7] Laurent, E. O trauma ao avesso. In: Papéis de psicanálise, vol. 1, n. 1. Instituto de psicanálise e
saúde mental de Minas Gerais, abril de 2004.
[8] Lacan, J. O seminário livro 21. Os não-tolos erram. Aula 19 de fevereiro de 1971, inédito.
[9] Lacan, J. “O Aturdito”. Em: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, p.492
[10] Lacan, J. A Terceira. Em: A terceira; Teoria da lalíngua/Jacques Lacan e Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2022.
[11] Lacan, J.  O Seminário: Livro 20: mais, ainda (1972-1973). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985, p.190
[12] Lacan, J. O Seminário 24: L’insu que sait de l’une-bevue s’aile a mourre. Aula 19 de abril de 1977. Inédito.
[13] Lacan, J. O Seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985, p. 61.
[14] Lacan, J. O seminário 25: Momento de concluir. Aula de 20 de dezembro de 1977. Inédito.
[15] Miller, J.-A. El ultimísimo Lacan. Buenos Aires: Paidós, 2006, p.132.
[16] Lacan, J. O Seminário, livro 23: O sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.
[17] Lacan, J. Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise (1953). Em: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
[18] Freud, S. A interpretação do sonho. Obras incompletas de Sigmund Freud. Belo Horizonte: Autêntica, 2025.
[19] Lacan, J. O seminário, Livro 17: o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.,1992.
[20] Lubac, Henri de. Exégèse médiévale, les quatre sens de l’écriture. Paris: Aubier, 1979.
[21] Miller, J.-A. El ultimísimo Lacan. Buenos Aires: Paidós, 2006, p.162
[22] Ibid. p.167.
[23] Lacan, J. O Seminário, livro 24: L’insu que sait de l’une-bevue s’aile a mourre. Aula 19 de abril de 1977. Inédito.
[24] Ibid.
[25] Miller, J.-A. La fuga del sentido. Buenos Aires: Paidós, 2012.
[26] Lacan, J. “O Aturdito”. Em: Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003, p. 493
[27] Miller, J.-A. El ultimísimo Lacan. Buenos Aires: Paidós, 2006, op.cit.
[28] Lacan, J. “Conferences et entretiens”. Scilicet, 6/7. Paris: Seuil. 1976. p. 50.
[29] Ibid., p.5
[30] Lacan, J. O Seminário, livro 24: L’insu que sait de l’une-bevue s’aile a mourre. Aula 19 de abril de 1977. Inédito.
[31] Cheng, F. La escritura poética china. Valencia: Pre-Textos, 2007.
[32] Ibid. p.26-27.
[33] Cheng, F.  Lacan e o pensamento chinês. Derivas analíticas. Belo Horizonte: EBP-MG, n.5, p. 0-0, nov. 2016. DIsponível em: https://revistaderivasanaliticas.com.br/index.php/chines
[34] Cheng, F. Vacío y plenitud. Siruela, Madrid 1993. pp. 39 y 44. Cheng, François. O sorriso de Jacques Lacan. Correio. São Paulo: EBP, n.85, p. 9-19, abr. 2021.
[35] Laurent, E. A carta roubada e o voo sobre a letra. Correio, Revista da Escola Brasileira de Psicanálise, São Paulo, n. 65, 2010, p. 61-93.
[36] Miller, J.-A. El ultimísimo Lacan. Buenos Aires: Paidós, 2006, p.175
[37] Ibid. p.180


O ato analítico, um ato sem medida

O ato analítico, um ato sem medida

Oscar Ventura (ELP/AMP) 

Uma anedota

Resgato como introdução uma anedota, contada a nós por aquele cara cativante que foi Serge Cottet. Parece ser que em uma das lições do seminário XIV ─ não sabemos exatamente qual, mas podemos inferir que se trata de algumas das lições nas quais Lacan tratava, a partir das matemáticas, da lógica e da geometria, de dar conta da incomensurabilidade do gozo ─ “um analista disse algo que desagradou sobremaneira ao Dr. Lacan […] O referido analista disse ‘na próxima vez que eu fizer amor, não tenho que me esquecer da regra de calcular’.”[1] Esse desenganado da falta de relação sexual, tal como Serge Cottet o qualifica, dava conta de um não querer saber nada daquilo que funda um sintoma como tal, do enigma do sexo que só pode ser captado em sua incomensurabilidade, em sua ausência de medida e de proporção, onde nenhuma regra de calcular pode delimitar a medida adequada do que se põe em jogo, porque justamente não há forma possível de medir uma ausência.

Da medida à contingência

Essa breve lembrança serve, então, para colocar em perspectiva que, no que diz respeito ao ato analítico, tudo aquilo que seja da ordem da medida, do cálculo na transferência, em suma, de um saber que pudesse ser antecipado, não representaria mais do que a vã esperança de pretender conectar o que é a disjunção estrutural que existe entre o saber e o gozo. Se há uma lógica do ato analítico, ela só pode ser formalizada retroativamente pela própria contingência daquilo que a experiência de uma análise pode escrever para além do relato do analisante, daquilo que não está escrito para ser lido.

Lacan disse: “A contingência, eu a encarnei no para de não se escrever. Pois aí não há outra coisa senão encontro, o encontro, no parceiro, dos sintomas, dos afetos, de tudo que em cada um marca o traço do seu exílio, não como sujeito, mas como falante, do seu exílio da relação sexual”[2]. E é nesse território das pegas de um exílio onde o ato analítico tem a possibilidade de emergir, já não sendo solidário do sujeito do inconsciente, senão do parlêtre a quem em um momento qualquer que seja da experiência, se apagam as pegadas com as quais pretendia oferecer um nome à substância gozante que o atravessa como fundamento último de sua existência.

O exílio das pegadas

As pegadas de um exílio. Detenhamo-nos um pouco nelas. Se do que se trata no devir do tratamento concerne a uma redução progressiva do sentido, é lícito dizer que as pegadas que constroem a historicização, que formam parte de uma memória sempre incerta e que fazem de suporte ao relato do sujeito no tempo do tratamento, se esta está, podemos dizer assim, orientada pelo real, essas pegadas perdem consistência. As formas com as quais o analista intervém na transferência, suas interpretações, suas escansões, suas pontuações, seus cortes… são o testemunho de que em última instância o inconsciente estruturado como uma linguagem é um aparato de gozo. E todas essas manobras na transferência estariam destinadas a reduzir esse aparato que não deixa de gozar do sentido que desdobra. Esse desdobramento não mostra mais que a impotência de pretender alcançar uma satisfação que falha o tempo todo, aquilo que procura, enquanto tal, não existe. Trata-se de orientar o sujeito não no plano da busca infinita, mas sim na contingência que pode surpreendê-lo em uma satisfação inédita, que já não se suporta no semblante, senão no corpo que a suporta.

O corpo e a ressonância

Nessa direção, pegada e repetição são um binômio que se articula. O que chamamos de pegadas nesse sentido são solidárias da repetição. Isto tem uma raiz e uma genealogia freudiana muito precisa; o limite da rememoração é a repetição. E a coisa interessante reside justamente em pensar que tipo de escrita pode advir para além do que o inconsciente interpreta por si mesmo. Ou, dito de outra maneira, o inconsciente é o que se lê, o que se interpreta. Mas o que é da ordem do gozo não admite leitura alguma, o gozo em última instância pode se encarnar em uma letra que não está para ser lida, senão que é solidária de uma ressonância no corpo da qual emerge.

E esse território sem pegadas para ler, implica um momento muito fundamental da experiência. Podemos tentar dizer isso de uma maneira simplificada, rápida; é quando, por exemplo, nas vicissitudes de um tratamento se produz uma cessação da demanda, um stop da metonímia, quando alguém deixa de falar para o Outro, inclusive quando se instala a certeza de que não há mais o que dizer… E é nesse momento que provavelmente algo diferente pode se escrever na transferência. Algo que requer um ato que ofereça a possibilidade de fazer mutar o gozo, de lhe permitir uma declinação que não se encapsule na pura pulsão de morte, que possa advir uma Outra satisfação que não seja a ruína do sujeito.

Mas, é claro, isto implica também uma lógica diferente da interpretação ou, mais precisamente, para dizer isso com mais propriedade, do ato como tal. E de que natureza é esse ato? Para onde ele aponta se já não aponta para o significante como tal, se já não é solidário do deciframento, se não se trata da razão? Podemos dizer que nele o que se escreve é da ordem da ressonância, do que no corpo responde como acontecimento de dizer. Mas o que é a ressonância? É algo que não chega a se dizer, mas que, no entanto, se escuta, algo da própria língua do sujeito que pode ser isolado, algo inclusive estrangeiro à linguagem, mas produzido pela própria linguagem, destilado pela linguagem. E é neste espaço onde o ato se impõe e seus efeitos, como diz Lacan, “são recebidos no âmbito do estímulo que ela [a interpretação] traz para a inventiva do sujeito”[3], para a poesia que sua própria língua pode imprimir.

A estranha materialidade do que se escuta

É possível materializar isso que não se diz, mas se escuta? Poderíamos pensar que pode ser um neologismo, o resto indizível de um sonho, um equívoco. Mas o fundamental é que, se isso se produz, se isso é escutado, seja lá o que for… o sujeito, nesse instante, nesse mesmo momento, fica só com sua língua privada, com o mais íntimo, sem analista, sem Outro, sem sujeito suposto saber, nem semblante de objeto. “O ato analítico está vinculado ao sujeito suposto saber, mas precisamente na sua falha”[4].

Como fazer isso ressoar? Não há uma fórmula, claro, porque o próprio analista é surpreendido no que escuta, impacta nele. Talvez, e somente como uma fórmula possível entre outras, se possa dizer que é a jaculação como ato, por exemplo, o que pode sancionar isso, essa perturbação do discurso, essa queda da cadeia, esse fracasso do sentido. Mas, claro, não podemos deslizar em direção a uma técnica, porque ela não existe. Em todo caso, é o corpo do analista que, de alguma maneira, responde ao impacto e serve de suporte a isso, fazendo ressoar que ali há algo cifrado, uma letra que não é significante e que já não admite nenhum S2, deixando o sujeito à mercê de sua própria relação com a língua. E, neste sentido, é, efetivamente, um momento de destituição do analista. O ato tem a propriedade, no momento mesmo de se produzir, de desalojar o analista da cena. E é o analista quem consente em não ser mais do que um objeto descartável, porque não reside nele mais do que o mérito de ser a testemunha do fracasso do saber que ele representa em cada ato que realiza. Aí reside a condição ética na qual funda sua prática.

 

Tradução: Nelson Matheus Silva
Revisão: Esperanza Izuel

 


[1] Cottet, S. “Lapsus del Acto Sexual: Ejaculatio Praecox”. Em: Acto e Interpretación. Buenos Aires: Manantial, 1984, p. 31.
[2] Lacan, J. O Seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar, 1985, p. 198.
[3]  Lacan, J. O Seminário, livro 15: o ato psicanalítico. Rio de Janeiro: Zahar, 2025, p.58.
[4] Miller, J.-A. Donc, La lógica de la cura. Paidós, Buenos Aires, 2011, p. 438.


MÚSICA AOS OUVIDOS

MÚSICA AOS OUVIDOS[1]

Fernanda Otoni Brisset (EBP/AMP)

Como extrair, da leitura cruzada entre Freud e Lacan do caso Hans, uma bússola que possa servir de orientação para a experiência analítica hoje, no trabalho de formação que a Escola oferece à sua comunidade? O que o caso Hans nos ensina hoje?

No Seminário 4, Lacan toma alguns casos clássicos para mostrar que a relação de objeto que dá título ao curso demonstra, na verdade, que a mola da relação do sujeito com o mundo é a falta de objeto[2]. Há um furo real irredutível com o qual cada um tem de se haver, seja como for: privado, frustrado ou castrado. Aquele Seminário é, assim, um mergulho de Lacan no funcionamento dessa mola.

Não por acaso, Hans ocupa grande parte do Seminário 4, um caso surpreendente por uma razão simples e rara: nele podemos acompanhar, passo a passo, a antessala da formação de um sintoma, sua instalação, funcionamento, desdobramentos e transformações rumo à sua resolução, sendo o único caso sobre o qual Lacan se detém para extrair uma lógica da cura, como destaca Jacques-Alain Miller.. Aula a aula, Lacan retorna a Freud, seguindo a matéria da língua que, na usina da linguagem, se desdobra, como aparelho de gozo, na montagem de uma “resolução curativa”, para retomar a expressão do próprio Lacan. Se o objeto, para Lacan, perdido está, o falo surge como um objeto extraído do mal-estar[3] em condições de conectar esse não há ao que na invenção de um mundo – um sintoma.

Em meio ao labirinto em que o próprio caso nos força entrar, puxarei alguns fios para lhes trazer uma primeira escansão desse retorno a Freud e Lacan.

Antessala da mordida

Hans “vivia feliz” imaginando ser o que a mãe deseja: ele se exibe e ela se encanta pelo pequeno exibicionista. Era vivamente interessado pelo seu faz-pipi, seu e dos outros seres vivos, especialmente os de gente grande. Seu interesse era teórico e prático: apalpa, manipula, examina e fantasia sua presença por todo lado. Em primeiro lugar, quis saber se sua mãe tinha um; ela diz que sim, mas não lhe mostrou. Sem ter acesso às provas, Hans deduz por comparação que, por ser grande, ela teria um faz pipi tão grande como o de um cavalo[4]. O significante cavalo entrou aí e dele irá se servir na montagem do que está por vir. Ele brinca com o faz-pipi, o seu e o dos outros. A brincadeira era de esconde-esconde, pois, como diz Lacan, o falo nunca estava ali onde se o procura, nunca ali onde se o encontra. Agora, trata-se de saber onde ele está, realmente[5]. Hans não media esforços para colocá-lo à prova em sua investigação obstinada. Só se fala de falo […] objeto central da organização de seu mundo e, concomitantemente, se engaja de corpo e alma na relação com a mãe, pela qual atesta à mãe que pode satisfazê-la, não somente como criança, mas também quanto ao seu desejo e, para dizer tudo, quanto àquilo que lhe falta[6]. Uma relação imaginária tapeadora, diz Lacan. Capturado pelo engodo que arma, ele é feliz!

O que então põe fim a essa relação tapeadora?

A mãe ameaça cortar o seu faz-pipi se dele não tirar a mão; ela o reprova no mesmo tempo em que ele prova a chegada indesejável daquele bebê, sua irmã, que nasce sem falar, sem dentes e cujo faz-pipi nem se vê. Não há relação entre o esperado e o apresentado. O que muda é que o seu próprio pênis começa a tornar-se alguma coisa completamente real[7], sofrendo a imiscuição de um gozo do qual não sabe nada. O falo desliza do imaginário ao real como uma equivalência instável, e é nesse plano que tudo oscila.

[…] o sujeito está suspenso entre um tempo em que ele não sabe mais onde está, em direção a um tempo onde ele será alguma coisa na qual jamais se poderá reencontrar. É isso aí, a angústia. […] Ela [a criança] é aprisionada em sua própria armadilha, vítima de seu próprio jogo, […], confrontada com a hiância imensa que existe entre satisfazer uma imagem e ter algo de real para apresentar[8].

A pulsão real no corpo desarma o jogo imaginário, coloca em xeque sua certeza de o ser falo da mãe. O que ele tem lhe parece algo miserável, e isto é decisivo, como anota Lacan. O real da existência, ora trop, ora trou, arranca o pequeno falante do paraíso do engodo, a falácia do jogo fálico se revela – e se vê sozinho com a inquietude de seu faz-pipi, quase nada. Ser tudo ou nada para a mãe é o centro de gravidade – seu próprio ser fica ameaçado –, um buraco para onde pode ser aspirado ou, para dizer com Lacan, devorado. O mundo feliz do faz de conta desaba, está no epicentro do trauma.

Urge construir uma saída …

Como resposta provisória, Hans inventa um “quarto escuro”, onde “desaparece” para fazer xixi. Esse banheiro fantasiado existe para “fazer xixi”: ali faz sem fazer, manipula a coisa obscura, sozinho, fabricando algo que “não existe”.

É o momento aberto a uma dimensão que permitiria a passagem do imaginário ao simbólico – anota Lacan – se sobre o fundo insondável do desejo materno situasse onde está o pai. Não o pai como pessoa gentil sempre presente, mas o pai real com as ferramentas do reino da lei, para salvar o pênis real da mira da gula materna, ao entrar em cena com o arsenal simbólico de substituições possíveis. A simples presença empírica do pai não basta para resgatar o sujeito de sua imersão na insuficiência fundamental do “não ser”.

E é daí que nosso pequeno investigador parte para a construção de uma defesa diante da suposta potência infinita e do opaco desejo materno. Lá onde o pai não responde plenamente à sua função – uma invenção se apresenta como suplência.

Hans inventa um sintoma fóbico – uma borda: a mordida de um cavalo.

Da mordida ao mecanismo – a presença do analista

No Seminário 4, Lacan formaliza as transformações da posição subjetiva de Hans em análise – tentando extrair a lógica da cura, a passagem do engodo em que o sujeito vivia feliz – como falo da mãe – à verificação, pelo absurdo, de um “não há” absoluto como operador do mecanismo que leva à resolução do impasse.

Lacan em “A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud”, sublinha que “Hans desenvolve, sob forma mítica, todas as permutações possíveis de um número limitado de significantes”[9]. Da chuvarada de significantes que o banha, alguns ficam detidos com alta voltagem pulsional, cuja força faz girar a usina da linguagem. O cavalo é um desses significantes que já estava na usina aguardando para entrar em cena. Verificamos, como indica Miller, que de fato há um número limitado de significantes essenciais – aqueles que marcam o corpo, com incidência libidinal – e são esses que giram, combinam-se, retornam em outras configurações. A análise segue seu trabalho com esse giro, até que se produza uma mudança, um ponto de basta, uma resolução do impasse que se resolve numa forma de amarração, uma nova amarração, uma trama que satisfaz, não como dedução linear, mas efeito da dinâmica libidinal que revira os elementos na estrutura. Ou seja, esses giros permitem ler o mesmo de outra maneira quando são ordenados de outra forma.

É o que vamos ler ao seguir o trabalho de Hans em sua usina linguageira.

Hans acorda pensando que a mãe foi embora e ele não a teria para fazer dengo. No passeio ao parque, naquele dia, enuncia: “Tenho medo do cavalo me morder”. É o enunciado inaugural, dirá Freud.  O sintoma fóbico entra na cena montado a cavalo e faz a passagem da angústia difusa deflagrada na antessala da mordida para uma forma em que o perigo se desloca para fora: é o cavalo que morde e é com ele que Hans passa a negociar. Ele condensa, ao mesmo tempo, o risco de ser engolido pela potência materna e a transposição desse risco para fora de si, num objeto externo, perigoso, mas delimitado – o cavalo –, esse objeto extraído do mal-estar, bela expressão de Lacan. O cavalo na estrutura lógica do sintoma fóbico funciona como objeto-sentinela, sinal de angústia que cria limiares, redesenha interior e exterior, limita deslocamentos, torna o mundo habitável, lá onde o pai não responde ao seu chamado.

A presença de um pai que fala, que escuta, que anota, não é suficiente para estar à altura de sua função. O pai de Hans se endereça a Freud pois, na verdade, ele também não tem como responder à pergunta “o que é um pai?”. E o caso aí já ensina que o analista em carne e osso não precisa estar presente para que a presença do analista opere.

É com a entrada do analista que o caso situa, com mais precisão, a função do pai, onde ele deve estar. A princípio, Freud orienta o pai a nomear o sintoma como uma bobagem e a dar sentido ao que lhe ocorre: “você gosta da mãe e quer ir para a cama com ela; por ter se interessado tanto pelo faz-pipi do cavalo, tem medo dele.” Introduz um pai que nomea e puxa o fio do simbólico. Hans bota a mão nele, entregando-se ao jogo das associações.

Hans vai ao encontro de Freud e, forçado a dizer algo a mais, aparece um detalhe que não se conecta a nada: a mancha preta em volta da boca do cavalo. O “professor Freud”, mais uma vez, mete o pai no complexo para abordar o real que aflige a criança:

Eu lhe revelei que ele temia o pai, justamente por gostar tanto de sua mãe. Ele devia acreditar por isso que o pai não gostava dele, mas isso não é verdade, pois o pai gosta mesmo muito dele e que ele podia confessar tudo ao pai, sem temor. Que muito tempo antes dele nascer, Freud já havia ficado sabendo que chegaria um pequeno Hans que amaria tanto a sua mãe, a ponto de precisar temer o pai[10].

Freud outorga ao pai o lugar da função de ordenador significante, conjugando lei e amor. Hans pergunta se o professor fala com Deus para saber das coisas. Supor em Freud um saber sobre o que se passa com ele, um saber sobre o real, o faz galgar outro lugar. O que se verificará a seguir é impressionante: o inconsciente transferencial se desperta e produz sonhos, fantasias e desenhos que se deslocam em uma sequência associativa incessante. Ele as endereça ao professor, se deixa levar pela espiral da linguagem e melhora consideravelmente.

Suporta melhor os cavalos, classifica-os. O medo generalizado se especifica: cavalos que mordem. Entra em jogo uma série de conexões simbólicas, substitutivas… Quando parece que a coisa está solta, Hans recomenda ao pai ir falar com o Professor, pois ele deve saber. Ele parece saber que as peças soltas podem encontrar um novo modo de se enroscar na trama. Hans se serve da transferência como um dispositivo conector. para enlaçar o que se apresenta disjunto: o gozo e o sentido. A coisa remexe o tecido na estrutura do corpo falante, muda de lugar, permuta, transforma enquanto se desloca. Sob transferência, investiga novas questões. Um jogo intenso de deslocamentos, permutações, deslizamentos significantes que animam a usina linguageira a todo vapor.

É quando o cavalo que morde se desloca para o cavalo de carga… e Hans se entrega a uma espécie de romance fantástico para responder “de onde vêm os bebês”… chegou numa caixa, num carro, em cima de cavalos…  diferencia, sequencia, faz permutações até deslizar a coisa para os ouvidos… cavalo trotando, cavalo que cai… o que o leva mais longe em seu circuito associativo e informa que pegou a bobagem quando viu um cavalo cair e fazer assim com as pernas… e faz barulho com os pés. Lá onde a palavra não alcança, sob transferência, força um giro a mais que perfura a cena para dar passagem à substância sonora por um novo orifício.

Que barulho é esse? A língua do som.

O pai conta que esteve no consultório de Freud e Hans fica curioso para saber o que conversaram, mas nem espera o pai responder e entrega que mexe os pés “quando fica uma fera ou então quando tem que fazer lumft[11].Algo que só se pode ouvir, não faz parte do que se diz, do que se vê, mas do que se ouve, mas está por ali, por “cair”.

Sigamos nossa pesquisa: a palavra lumpf é um som mais do que uma palavra. Hans aí, quando o pai evoca o analista, força suas associações a se deslocar para investigar o que ouve, o que se passa pelos seus ouvidos. Entre o som e o significante passa toda uma experiência… Insistia em observar sua mãe cagando e nomeava o barulho que faz o cocô ao cair do corpo materno: lumpf! O objeto não está lá, mas sua perda deixa uma marca que ressoa assim: lumpf. Ele alça ao dizer o som do objeto perdido… uma queda que ressoa… o som testemunha sua perda. Ele inventa com os ouvidos um significante novo que guarda o som de um resto que cai – lumpf. Ouvir se mostra um lugar libidinal privilegiado para este ser falante. Ele se interessa pela diferença do barulho que faz quando homens e mulheres urinam… ele ouve a relação que não há entre os sexos. Diz que “um barulho grande lembra o lumpf, já um pequeno lembra xixi”[12]. Lumpf se torna um significante ordenador, palavra que ressoa o que se passa naquilo que se ouve:

[…] a queda do cavalo que faz um estrondo (faz lumpf); o ressoar das patas do cavalo ao trotar (lumpf); a criança que cai da mãe no parto – e que, em alemão, é niederkommem (literalmente, cair, vir abaixo) – também é nomeada por ele de lumpf. Com a invenção da palavra Lumpf, ele faz uma série de diferenciações para ler o que se passa no seu mundo barulhento: forte, suave, rápido, lento etc.[13]

Como esse elemento sonoro se articula à trama do seu enredo fantástico?

Lumpf é o nome do que não se escreve – substância sonora. Em seu trabalho, Hans é um criador, um artífice do som e faz de lalíngua matéria prima do seu savoir-faire. Hans parte para o campo ficcional – um imaginário radical que dá a impressão, dirá Lacan, de estar zombando de todos –, mas, em verdade, é um imaginário que atua freneticamente para ordenar as peças soltas, para organizar o mundo simbólico em torno de um real que só se pode imaginar. Ao seguir a língua do som, ele faz das suas criações linguageiras um suporte para escoar o real do gozo que não se liga a nada. Ele fabrica o falo, não mais imaginário, mas como uma ferramenta que lhe permita entrar na dimensão do semblante.

Do faz-pipi ao fazer do falo.

Lembramos que em “A significação do falo”, um ano depois de seu Seminário 4, o falo resulta da ação metafórica do pai sobre o desejo da mãe, localizando um limite para o gozo materno. No caso Hans que, na ausência de um pai real efetivo em sua função, foi montado a cavalo que nosso pequeno se instala nessa outra ditmension – o inconsciente – para inventar formas de se defender desse gozo devorado e responder aos impasses de sua existência. O significante fóbico – cavalo – funciona como um limite provisório – um suplente –  na ausência de uma solução mais efetiva.

Na década de 1970, no Seminário 18, De um discurso que não fosse semblante, Lacan propõe que o simbólico já não tem tanto o mesmo valor. Naquele momento, Lacan já havia formalizado o fato de que tem algo no gozo impossível de apreender, seja pelo simbólico ou pelo imaginário. Tem algo amorfo que resta irredutível, inimaginável e indizível e que não cessa de não se escrever. O gozo só cria obstáculos. Então como ele participa na manufatura dos laços do corpo falante? Afinal, nós fazemos amor…?[14] Lacan responde ser com o falo que é, muito propriamente, o gozo sexual como coordenado com um semblante, solidário a um semblante[15]. Entretanto, se algo do gozo se passa ao discurso, através da usina da linguagem, sobra um resto que não se liga a nada, do qual nada pode ser dito, que segue como uma mancha irredutível e que ressoa como um barulho que cai.  Afinal, dirá Lacan, a estrutura é tal que o homem em si, do modo como ele funciona, é castrado[16].

No caso de Hans, o pai real, em sua presença vacilante, encontra no dispositivo analítico – a intervenção de Freud – um modo de operar como nomeador, introduzindo diferenças, construindo ferramentas simbólicas, redistribuindo lugares, dando consistência lógica ao “não há”. E a cura chega quando constrói de forma articulada uma ficção sobre a castração – Não vou citar, pois todos leram – entra o encanador, lhe desparafusa e lhe dá um faz-pipi novo em folha. Quando o sujeito acede ao falo simbólico como dispositivo conector, a fobia cede. O que era fixação deve tornar-se destacável. A ameaça de perda se converte em operação de troca. O falo torna-se mobilizável. O “não há” pode ser assumido.

Porque ao real nunca se acede, só se pode imaginar com as verdades mentirosas cuja montagem é obra da articulação do falo em sua função de semblante. Para tanto, é necessário que “o menino assuma o falo como significante”, ou seja, tomá-lo como um conector para operar uma sofisticada operação de enodar os três registros – uma ordenação lógica. O não há deixa de ser vivido como um déficit e passa a ser a mola da criação de uma solução inédita.

Da Usina à Ópera: um percurso lógico

Lacan segue Hans e sua usina linguageira, o transitório, a permutação. O caso se escreve como estrutura que segue constantes em movimento. No caso de Hans, foram tantas voltas, tantos circuitos, até encontrar uma solução que ordene o conjunto, apresentando-lhe uma saída absolutamente inédita do complexo labirinto onde estava enredado. É o mesmo banheiro, o mesmo faz-pipi, a mesma banheira, mas entra aí um encanador, e lá onde a coisa estava grudada, desparafusa, para enroscar um do mesmo, mas maior: esses giros permitem manter a estrutura de uma nova maneira.

Assim, vimos que o esforço de Hans foi para encontrar um mecanismo – o falo como semblante – com o qual operar, sem ter que ceder seu ser para saciá-lo, mesmo porque precocemente descobre que o desejo pode ser insaciável. Ele consente com o objeto que não há, e se não há, outro pode vir no lugar… não é mais tudo ou nada – o não todo participa como operador do mecanismo que gira em torno de um não há original.

Em resumo, o tratamento de Hans promove a passagem do falo imaginário ao falo simbólico. O momento da crise se situa na irrupção do falo como o real que verifica a inexistência da relação (entre a criança e a mãe) e na aparição da irmã – que desestabiliza a posição subjetiva. O sintoma fóbico surge como uma operação (substituições, permutaçoes e transformações) cuja função é fazer suplência ao pai real que não entra: é um tempo para compreender, no qual o pequeno investigador se dedica para construir um pequeno Nome-do-Pai, por vias tortas, para essa travessia. A mãe deixa de ser totalidade ameaçadora e entra num sistema manipulável. A potência opaca se reduz ao localizável. O ilimitado se torna delimitado. Em analise se verifica o giro decisivo quando Hans passa da mordida ao mecanismo, como evoca JAM. Esse é o gesto clínico fundamental que ganha atualidade: porque ele nos mostra, com precisão, como um sintoma pode funcionar como uma montagem que limita e diversifica.

É precisamente aqui que se abre o campo das questões que gostaria de dirigir à comunidade analítica. Se em Hans a lógica da cura se confunde, em grande parte, com a metáfora paterna, o que acontece quando o Nome‑do‑Pai se apresenta de forma mais vacilante, mais pulverizada, mais “sintomática” nas configurações contemporâneas? Em que medida ainda podemos contar com montagens fóbicas que assumam, por um tempo, a função de borda e de suplência, e como ler, caso a caso, quando essa suplência se cristaliza e quando ela se deixa trabalhar como “tempo para compreender”?

Ler hoje o Seminário 4 e o texto de Freud sobre Hans, não como “caso histórico”, mas como um caso único, orientados pela lógica da cura tal como a extrai JAM, é situar a direção do tratamento e o desejo do analista no coração da nossa prática. Se aí estamos,  na apresentação dos casos deveríamos encontrar uma forma de ordenar o vocabulário próprio de cada análise que conduzimos e fazer o esforço de ler as coordenadas do caso a partir de um detalhe operador – como a mordida em Hans – para bem seguir o singular da cura.  Lendo a atualidade do caso Hans, ainda hoje, o que fazemos, na direção da cura, quando não há mais a “cura por excelência” de um sintoma que se apaga com clareza, mas, antes, montagens múltiplas, soluções mais oblíquas, suplências que já nascem sob o signo de um Nome‑do‑Pai‑sintoma?

Como se conclui uma análise se o inconsciente, por estrutura, repete e não existe percurso que resta zero? O que Hans pode nos ensinar sobre o destino do que se repete na vida como ela é?

Glacy Gorski[17] no Enapol nos comentou que  Herbert Graf, o pequeno Hans, que em uma entrevista já adulto, revela o que soube fazer com as marcas da lalíngua. Freud diz que seu amor pela música surgiu ao mesmo tempo que a sua angústia, inclusive, a descrição detalhada da sua fobia por cavalos parece uma opereta. Sua história é cheia de barulhos: as carroças de todo tipo que cruzam a cidade, os cavalos que trotam com proeza, o ressoar do chicote, as carroças de carga que circulam com rapidez, grandes, barulhentas, pesadas; por fim, aquelas que caem mais e as que caem menos.  Na adolescência, Herbert disse ao diretor do colégio que queria ser diretor de ópera, sendo ridicularizado pelos colegas, pois essa profissão não existia. Herbert seguiu mesmo assim. Mais tarde, ele se faz diretor de ópera. Ele inventa, de fato, a profissão que tanto sonhara. Como já apontava Freud[18], temos, aí, algo tensional, irremovível e persistente: a “força constante da pulsão”[19].

Enfim, se nos deixarmos ensinar, caso a caso, pelo laboratório que é Hans, sem o transformar em norma, mas tomando‑o como operador lógico para ler outras trajetórias, outros giros, outras maneiras, sempre singulares, de um falante responder, com o que àquilo que não há, encontramos com a opera que se encena no teatro analítico e embalados pela língua da música de cada um, vamos verificando que  não há relação, não há objeto, não há Outro. Mas em um instante oportuno, o “não há” deixa de se apresentar como a boca da esfinge que devora ao se reduzir a um simples furo –  é quando, enfim, se dá passagem a um respiro que areja o mundo do corpo falante como música aos ouvidos!

 


[1] Texto apresentado em 21 de março de 2026, em Medellin, como  argumento  para a primeira escansão  do SEMINÁRIO DE FORMAÇÃO da NELcf.
[2] LACAN, J. O seminário, livro 4: A relação de objeto. (1956-1957) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução: Dulce Duque Estrada. Rio de Janeiro: Zahar, 1995. Capítulo II, p. 35.
[3]  Lacan, J., [1956-1957] El Seminario, Libro 4, La relación con el objeto, óp. cit., p. 397.
[4] FREUD, S. FREUD, S. Analise da Fobia de um garoto de 05 anos. In: FREUD, S. Histórias clínicas. Belo Horizonte editora Autentica, 2024. p. 178.
[5] LACAN, 1956-1957/1995, op. cit., p. 210.
[6] Ibid., p. 230.
[7] Ibid., p. 231.
[8] Ibid., p. 231-232.
[9] LACAN, J. A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud. (1957) In: LACAN, J. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. p. 523.
[10] FREUD, S. Analise da Fobia de um garoto de 05 anos. In: FREUD, S. Histórias clínicas. Belo Horizonte editora Autentica, 2024. p. 212.
[11] Ibid., p. 225.
[12] Ibid., p. 237.
[13] GORSKI, G. Texto apresentado no XII ENAPOL, setembro 2025, Belo Horizonte.
[14] LACAN, J. O seminário, livro 18: De um discurso que não fosse semblante. (1971) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução: Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 2009. p. 101.
[15] Ibid., p. 33.
[16] Ibid., p. 100.
[17] GORSKI, G. 2025 op. cit.
[18] FREUD, S. Pulsões e destinos da pulsão. (1915) Belo Horizonte: Autêntica, 2007.
[19] Ibid.


Enunciação

Enunciação[1]

Óscar Ventura (ELP/AMP)

O que falar quer dizer nos introduz com um golpe certeiro no território da enunciação, que é provavelmente aquilo mais misterioso e mais enigmático que se põe em jogo na experiência analítica, seu relevo e seus efeitos, na medida em que concernem à própria lógica da relação do sujeito com a palavra, presente do início ao fim da cura.

Lacan e a Linguística da Enunciação

Cabe destacar, para valer como referência, que a linguística se interessa pela questão da enunciação em um momento relativamente tardio, fundamentalmente nos desenvolvimentos da linguística francesa a partir de Émile Benveniste e da publicação, em 1966, e de sua segunda edição em 1974, dos Problemas de Linguística Geral[2], principalmente na seção intitulada O homem na língua, que inauguram o campo de estudo da enunciação na linguística contemporânea, a partir do tencionamento e contraste com a obra de Ferdinand de Saussure, sob o argumento de que ele não levava em consideração, como objeto de estudo, a dimensão do uso da palavra, isto é, o sujeito da enunciação como tal. As teorias linguísticas ganham relevância na medida em que pretendem formalizar a enunciação, situando os ditos e as estruturas gramaticais e sintáticas que permitiriam localizá-la em uma frase, por exemplo, a partir dos dêiticos, dos advérbios de enunciação, a exclamação. Em suma, as estruturas mais amplas da língua permitiriam uma localização da enunciação e uma universalização de sua gênese.

É necessário sublinhar que o interesse de Lacan em estabelecer uma lógica da enunciação precede as teses linguísticas dos anos 1960. Embora Lacan não deixe de levar em conta os postulados de Émile Benveniste e seja provavelmente por seu intermédio que tenha tomado conhecimento da teoria dos atos de fala (speech acts), de John L. Austin[3], e da filosofia analítica americana, estas reduzem o ato de falar a um pragmatismo, considerando-o, em última instância, como uma função performativa. E o que daí decorre implicaria sustentar que o sujeito sabe o que diz; e mais ainda, que manteria uma relação de domínio sobre aquilo que diz ao falar. Sem dúvida, Lacan se inscreve muito longe de qualquer tese pragmática da língua, bem como de qualquer concepção evolutiva da relação da criança com a linguagem que teria como corolário uma suposta maturidade ou etapa final no que se refere à relação do sujeito com a palavra.

Desde muito cedo, Lacan mostra que, se há algo que a experiência analítica verifica, é que a enunciação possui uma localização muito precisa para o sujeito que fala, e ela se localiza justamente aí; no não dito, a enunciação evoca uma ausência. Em diferentes momentos de seu ensino, Lacan sustenta sempre a enunciação sob o estatuto do enigma, como um impossível de dizer, estrangeira, em seu sentido mais puro, ao próprio enunciado. Lacan chega a afirmar que: “Um enigma, como seu nome indica, é uma enunciação da qual não se acha o enunciado.”[4]

Momentos da enunciação 

Podem-se indicar diferentes momentos do ensino de Lacan em que ele aborda a questão da enunciação. Do Seminário As Psicoses e De uma questão preliminar… até seu último ensino, há sempre uma constante: a enunciação é efeito de uma falha; em primeira instância, de uma falha no campo do desejo e, posteriormente, de uma falha radical em relação à disjunção que se estabelece entre o gozo e a palavra. Dito de outro modo, situada na lógica da economia psíquica, a enunciação é, de uma maneira ou de outra, efeito de uma perda de gozo.

A partir da construção do grafo do desejo, Lacan apresenta uma formalização inédita da enunciação. Já na primeira lição do Seminário 5[5], ele produz a distinção entre enunciado e enunciação por meio da análise do Witz freudiano do familionário. E continua essa elaboração no Seminário 6[6], no transcurso de uma extensa sequência de lições que dão conta do deslocamento do sujeito do enunciado para o sujeito da enunciação. Há sucessivas reformulações do grafo até que ele encontre sua versão definitiva no escrito Subversão do sujeito e dialética do desejo... Lacan empenha-se em situar uma lógica da enunciação articulando os dois níveis do grafo. No primeiro andar encontra-se a dimensão do enunciado, solidária às formações do inconsciente, no qual o sujeito recebe do Outro sua própria mensagem de maneira invertida. Esse andar encarna o estatuto do Outro da linguagem e fixa a significação por meio do ponto de capitonê; é o Nome-do-Pai que facilitaria a significação. Todas as operações metafóricas e metonímicas localizam-se nesse nível.

Entretanto, nessa articulação, há que considerar que o Outro, como tal, é tributário de uma falta, a ausência que nele se aloja é a condição que permite a Lacan inscrever a enunciação no segundo andar do grafo. A condição para que a enunciação se estabeleça implica esse furo no Outro, a fuga no sistema das representações só pode alojar ali aquilo que no dizer, como tal, é inominável. Nesse sentido, a enunciação é o que faz  borda nesse espaço, onde não existe o significante que poderia dar conta daquilo que é o campo libidinal do sujeito. Esse inominável ganhará ainda maior consistência a partir do Seminário 10[7], quando Lacan faz emergir o objeto a, estrangeiro e heterogêneo ao sistema de representações do Outro. A passagem de um andar ao outro, do enunciado à enunciação, implica uma disjunção irreversível entre o sistema das representações do sujeito e seu tempo libidinal.

Num primeiro momento da formulação do grafo, a enunciação era veiculada pela determinação inconsciente e articulada à dialética do desejo. Contudo, à medida que o Outro se torna inconsistente, Lacan começa a elucidar a dimensão da enunciação articulada ao real.

Um real da enunciação 

Não poderíamos desconsiderar a reformulação conceitual que Lacan opera a partir de seu último ensino, a qual permite colocar em perspectiva a articulação da enunciação com o real e com o corpo. A partir do Seminário 20[8], Lacan institui um deslocamento que é radical para apreender um novo estatuto da enunciação. Trata-se daquele que vai do Outro da linguagem ao corpo como Outro, solidário também da passagem do inconsciente para a lalíngua.

Se o inconsciente estruturado como uma linguagem fica reduzido a um aparelho de gozo, a enunciação não pode mais que orientar-se a estabelecer o fracasso daquilo que, na linguagem, não cessa de não equivocar. E esse equívoco é tributário de uma reação que só se inscreve como uma irrupção no acontecimento de corpo. Talvez esse impacto seja o índice clínico mais preciso de que dispomos para dar conta de que a enunciação permanece enodada a um real próprio para cada um. Poderíamos dizer que o sintagma de Lacan, “o mistério do corpo falante”[9], poderia ressoar o mistério mesmo da enunciação: trata-se justamente de que, em última instância, não há forma do dizer que não implique as coordenadas da inexistência.

Se o ser da linguagem tem vida, é precisamente por causa da falha estrutural à qual a própria linguagem está submetida: “para a linguagem significa algo muito diferente do que chamamos simplesmente vida. O que significa morte para o suporte somático tem tanto lugar quanto vida nas pulsões que provêm do que acabo de chamar de vida da linguagem. As pulsões […] provêm da relação com o corpo […] além disso, o corpo tem furos. É inclusive o que, no dizer de Freud, teria de colocar o homem na via desses furos abstratos concernentes à enunciação do que quer que seja”[10].

É nessa via, na via a esse território dos furos pulsionais, que se encaminha o ato analítico. O corte, veiculado pelo próprio corpo do analista, concebido como a forma mais radical do ato, oferece a possibilidade de produzir mudanças no registro da enunciação e de ordenar de outra maneira a economia libidinal. Ele opera no nível do enunciado e objeta o sentido que o próprio enunciado pretende aprisionar.

A experiência clínica dá testemunho disso, na medida em que há sequências nas quais se podem isolar passagens que dão conta de um franqueamento e que produzem como efeito uma nova modulação da enunciação. Não são banais os momentos em que é possível precisar, por exemplo, a passagem de um sujeito da queixa ao sintoma, da culpabilidade à responsabilidade, de uma queda identificatória à assunção de um modo de gozo. E assim até o fim, até o próprio ponto da certeza de que “… o fundamental da língua consiste em que ao falar, se cria”[11]

Se a enunciação é o que faz laço de maneira autêntica, é porque seu registro só é concebível na medida em que o corpo é comovido por um dizer singular, que não se ampara em nenhuma representação nem em nenhum sentido. Inclusive sem um enunciado que a sustente.

 

Tradução: Juan Galigniana

 


[1] Este texto foi originalmente publicado na revista El Psicoanalisis, n. 43, Barcelona: ELP, março de 2023.
[2] Benveniste, É. Problemas de linguística geral I. São Paulo: Ed. Nacional, USP, 1976.
[3] Austin, J. L. How to do things with Words, Oxford University Press, traduction française: Quand dire c’est faire. Paris: Seuil, 1970.
[4] Lacan, J, O Seminário, livro 23, o sinthoma, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007, p. 65.
[5] Lacan, J. O Seminário, livro 5, As formações do  inconsciente, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.
[6] Lacan, J. O seminário, livro 6: o desejo e sua interpretação. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2016.
[7] Lacan, J. O Seminário, livro 10: a angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.
[8] Lacan, J. O Seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
[9] Ibid. p. 140.
[10] Lacan, J. O Seminário, livro 23, o sinthoma, op.cit., p. 144.
[11] Miller, J.-A. El ultimísimo Lacan. Buenos Aires: Paidós, 2014, p. 86.


A Palavra como Poder versus o Poder da Palavra

A Palavra como Poder versus o Poder da Palavra[1]

Clotilde Leguil (ECF/AMP) 

Será que o atual clima de desconfiança em relação à interpretação, o apego à performatividade de um “eu” que declara sua identidade, não revelam uma inquietude quanto à palavra e seus poderes? A interpretação do dito parece ser percebida como uma tomada de poder sobre o outro. O analista, ao interpretar a palavra, não estaria tomando poder sobre o paciente? Essa questão profunda está desde o início no cerne do ensino de Lacan. É também, sem nenhuma dúvida, uma das questões que serão esclarecidas pelas Jornadas da Escola da Causa Freudiana sobre “Interpretar”. Como, então, podemos conceber a interpretação, e até mesmo salvar a prática da interpretação no século XXI, de modo que ela não se torne uma tomada de poder sobre o paciente?

Interpretar versus tomar o poder

Em sua “Conferência em Genebra sobre o Sintoma”, de 1975, Lacan nos lembra que “o poder jamais repousa sobre a força pura e simples. O poder é sempre um poder ligado à palavra[2].” Ao reconhecer que o poder está sempre ligado à palavra, e não apenas à força, Lacan não ignora a possível deriva da experiência de análise em direção a um confronto imaginário entre o eu e o outro. Ele não ignora que a palavra possa exercer um poder de sugestão, de subjugação, de submissão. Portanto, ele não ignora o risco de um analista insuficientemente analisado buscar ocupar uma posição de domínio sobre o analisante. “Se se formam analistas, é para que haja sujeitos tais que neles o eu esteja ausente. […]” A análise deve visar à passagem de uma fala verdadeira, que junte o sujeito a um outro sujeito, do outro lado do muro da linguagem. É a relação derradeira de um sujeito a um Outro verdadeiro, ao Outro que dá resposta que não se espera, que define o ponto terminal da análise”[3], ele enfatizou já em 1955.

A experiência da psicanálise pressupõe, portanto, a capacidade de descobrir uma relação com a própria palavra e não se submeter à palavra de um Outro.

A interpretação, ao contrário de qualquer tentativa de tomar o poder sobre o outro por meio da palavra, deve carregar a palavra. Aqui reside a exigência ética, a do desejo do analista — não que ele acredite saber no lugar do analisante o que ele tem a dizer, mas que ele possa assumir um desejo de saber, o que pressupõe um consentimento à sua própria ignorância. Assim, “o inconsciente se fecha, com efeito, na medida em que o analista ‘deixa de ser portador da fala’, por já saber ou acreditar saber o que ela tem a dizer[4]”. O psicanalista que acredita saber de antemão o que a fala tem a dizer é, portanto, responsável pelo fechamento do inconsciente. O que Jacques-Alain Miller chamou de “uma renúncia autêntica ao desejo de poder”[5] é, portanto, uma condição da interpretação. Se o analista toma o poder sobre as palavras do paciente, isso se deve ao fato de que ele próprio ignora que é a palavra que já assumiu o poder e que é o verbo, enquanto inconsciente, que guia o destino do sujeito. A interpretação não visa se exercer como poder, mas encontrar o poder da palavra na medida em que ele é inaugural. No princípio era o poder da palavra. É essa renúncia ao desejo de poder que nos permite encontrar o imperativo do verbo. Mas essa renúncia é o efeito, no analista, de sua própria experiência de análise, de sua própria travessia das significações de seu destino, de seu consentimento com a falta e com a a perda.

Interpretar, abrir o caminho para um desapego.

O que tomou poder dentro de nós, mesmo antes de nascermos, é, portanto, a palavra. É por isso que a experiência da análise leva à redescoberta do imperativo do verbo, isto é, da dimensão imperativa do próprio significante. Aí reside o deslocamento. É, de fato, uma questão de poder, mas esse poder não é aquele do outro com quem falamos, mas aquele da palavra dentro de nós. A presença do analista, então, não se relaciona a uma tomada de poder, mas à possibilidade de descobrir a dimensão imperativa do verbo naquele que fala. Ao contrário de uma tomada de poder, trata-se de abrir o caminho para um desapego. Renunciar a todo controle e sugestão tem como efeito deixar a palavra ser, tomá-la para, simultaneamente, fazer cair sua dimensão imperativa. Como intervir, estar presente, cortar, interpretar, de forma a produzir esse efeito de desapego?

É isto que está em jogo na presença do analista. Ela se correlaciona, portanto, com uma experiência do inconsciente. É essa presença que possibilita ou faz obstáculo à experiência. Avançando cada vez mais na direção de uma interpretação visando não mais o sentido inconsciente, mas a perda de gozo, Lacan pôde afirmar, em 1964, que “a presença do psicanalista é irredutível, como testemunha dessa perda”[6]. Precisamos, portanto, de uma testemunha, e a testemunha não é aquela que toma o poder, mas aquela que atesta o real. A perda não ocorre à luz do dia, mas “numa zona de sombra”[7]. Ela nos confronta com um ponto opaco em nossa própria palavra. A presença do analista tem valor de uma iluminação. Ela lança luz sobre o que se perde. Somente o corte pode revelar onde a perda ocorre.  Interpretar, ascender ao mal-entendidoMas,  que a interpretação carregue a palavra também significa que ela abre caminho para a opacidade do dito. “O obscurantismo inerente à palavra”[8], segundo o termo escolhido por Lacan em 1980, é também o que torna a presença do analista necessária ainda. Em 1973, Lacan definiu a interpretação como uma tradução-articulação que sempre implica uma perda. De fato, “há sempre uma perda na tradução. Bem, o que está em jogo é, na verdade, que se perde”. Tocamos, não é mesmo, no fato de que essa perda é o próprio real do inconsciente, o real em si, pura e simplesmente. Para o ser falante, o real é que ele se perde em algum lugar, e onde? É aqui que Freud coloca a ênfase: ele se perde na relação sexual”[9].A interpretação, por fim, revela que “o verbo é inconsciente — isto é, mal-entendido”[10].É acessando esse mal-entendido de onde eu venho, ao que se perde na relação sexual, que posso me aproximar do núcleo de gozo que rege minha relação com as significações. A questão, então, na palavra, deixa de ser a da significação e passa a ser a da ressonância, e é a função poética que “destaca a matéria que, no som, excede o sentido[11]“, como afirma Éric Laurent. Essa matéria que excede o sentido está no nível da literalidade do dizer que faz o gozo ressoar. Contrariamente a qualquer tentativa de tomada de poder, coloca-se em questão, portanto, até o fim, para o analista, manejar com “a função poética da linguagem”[i], ocupando esse lugar de interpretante que permite abrir um caminho em direção ao indizível do núcleo de gozo.

 

Tradução: Cristina Drummond (EBP/AMP)

 


[1] Texto preparatório para 53º Jornadas da Escola da Causa Freudiana. “Interpretar, escandir, pontuar, cortar”, sob a direção de Agnès Aflalo, 18/19 de novembro de 2023.
[2] Lacan J. “Conferência em Genebra sobre o sintoma”. Opção Lacaniana n. 23, São Paulo: Edições Eolia, 1998, p. 15.
[3] Lacan J. O Seminário, livro 2, O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985, p. 310.
[4] Lacan J. “Variantes do tratamento-padrão”. Em: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, p.361.
[5] Miller J-A. Comment finissent les analyses. Paris: Navarin, 2022, p.215.
[6] Lacan J. O Seminário, livro 11, Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985, p.122.
[7] Ibid.
[8] Lacan J., “Dissolution”, Aux confins du Séminaire, texte établi par J.-A. Miller, Paris, Navarin, coll. La Divina, 2021, p. 67.
[9] Lacan J., “Dissolution”, op.cit., p. 74.
[10] Laurent É., « L’interprétation : de l’écoute à l’écrit », La Cause du désir, n. 108, juillet 2021, p. 59.Lacan J., “Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise”, Escritos, op.cit., p. 323.
[11] Lacan J., “Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise”, Escritos, op.cit., p. 323.


Os barulhos da língua - entre silêncio e som 

Os barulhos da língua - entre silêncio e som

Valéria Beatriz Araujo

Conforme lemos no argumento do XXVI Encontro Brasileiro do Campo Freudiano[1], a interpretação “faz escutar, e aí é barulhenta”. É da ordem do burburinho, “produz ondas na clínica e na cidade”. E nesse ressoar, encontramos a interpretação, ali, entre a fala e a escuta. Ali, onde “a linguagem não é apenas informação ou comunicação, mas laço e ressonância”[2], pois, “às vezes não se encontram as palavras que se está sentindo dentro de si mesmo” [3]. Ali, onde corpo e palavra têm pontos de contato e pontos de atrito, e o intraduzível vem operar uma nova escrita pelo equívoco, uma leitura de lalíngua no corpo. Toca algo de Borges, para quem toda leitura é uma tradução, uma maneira singular de ler o que está escrito.

Se a interpretação está entre a fala e a escuta, o que se interpreta no que se escuta, a partir do que se escreve, naquilo que se lê? Afinal, como aponta Oswald de Andrade, “a gente escreve o que ouve, não o que houve”. De modo semelhante, Guimarães Rosa é o “escritor por excelência do ‘mundo escutado’. Em um dos prefácios do seu romance Tutaméia, de 1967, ele anuncia: ‘A estória não quer ser história. A estória, em rigor, deve ser contra a história. A estória, às vezes, quer-se um pouco parecida à anedota’”[4].

E, pela via lacaniana, esclarece Laurent[5]: “No segundo [ensino], Lacan se livra dessa referência à história para manter apenas a referência ao ‘estava escrito’”.  Apreendida pelo equívoco, a interpretação supõe um reenvio ao está escrito, o que leva Lacan, no seminário 23, a desenvolver a escrita como apoio da fala.  A interpretação como forçamento poético, segue Laurent[6], convoca Lacan a explorar “os recursos do que pode permitir ao analista fazer ressoar outra coisa que não o sentido, algo que convoque o gozo na língua comum. Primeiro, há a poesia”.

Então, qual interpretação? Mauricio Tarrab nos diz: “Perguntar-se ‘qual interpretação?’ é já supor que não há somente a ‘interpretação analítica’. A psicanálise tem continuado uma tradição interpretativa na cultura”. Segue Tarrab: “Mas com a interpretação, assim como no encontro sexual, no corpo a corpo, não há manual de instruções que valha. E, como nesse livro exemplar de Carver[7], na interpretação, como no amor, somos todos principiantes”[8].

Tarrab nos lembra que se perfila um “todos” intérpretes frente ao real[9]: “Não somente se aplica à prática do analista e do paciente, mas [a interpretação] também tem uma utilidade, um uso comum – não ordinário, mas comum – quer dizer, está no registro de um ‘para todos’, como resposta ao abrupto do real”. Tal como Zhuang Tzu, que se pergunta se era ele que sonhou que era uma mariposa, ou se era uma mariposa sonhando que era Zhuang Tzu. Ou, como quem toca um instrumento musical interpreta uma obra, por outra via. Ou, ainda, um ator ou uma atriz interpretam um papel que está escrito em alguma parte.

Podemos então considerar, que “fazer escutar o que está escrito” é uma boa fórmula para a interpretação analítica. No entanto, é essencial acrescentar que, em ambos os casos [de interpretação], o corpo está concernido mais além das palavras”[10]. Ou seja, um acontecimento que afeta o corpo do sujeito da linguagem, para além do organismo.

Nestes barulhos da língua, podemos localizar uma perspectiva clínica e, ao mesmo tempo, política, no bem dizer de Tarrab: “A interpretação, ao menos a interpretação analítica, inclui a aspiração de introduzir um movimento no mundo subjetivo. Por isso, pode-se dizer que a interpretação é política”[11]. “E o que essa interpretação analítica faz é reduzir, devastar, enfraquecer, desinflar, reduzir ao essencial, o delírio ou a ficção”[12].

“Não se trata de oposição entre silencio, escrito e oralidade, entre texto e fala, ou entre silencio e som; ao contrário, trata-se da conjugação desses dois momentos – de sua fricção. É um escrever de ouvido; isto é, o texto se forma com a escuta dos sons que restam na escrita, como silêncio”[13].

 


[1] Disponível em: encontrobrasileiroebp2026.com.br
[2] Op. cit.
[3] Rosa, Joao Guimarães. Ficção completa. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1995, vol. I, p. 58.
[4] Librandi, Marilia. Escrever de ouvido: Clarice Lispector e os romances da escuta. Belo Horizonte. MG: Relicário, 2020, p. 86.
[5] Laurent, Éric. A interpretação: da escuta ao escrito. Correio, Revista da Escola Brasileira de Psicanálise, número 87, p. 66.
[6] Laurent, Éric. Op. cit., p. 70.
[7] Carver, Raymond. Iniciantes. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
[8] Tarrab, Mauricio. Op. cit,
[9] Tarrab, Mauricio. Op cit.
[10] Tarrab, Mauricio. Op. cit.
[11] Tarrab, Mauricio. Op. cit.
[12] Tarrab. Mauricio. Op. cit.
[13] Librandi, Marilia. Op. cit., p. 33.

O barulho da língua em Freud

O barulho da língua em Freud

Randra Gondouin

A atividade proposta de encontro com o texto, linha a linha, realizada no ateliê de Leitura[1] colocou-me a trabalho. Ao deter-me na passagem de Construções na análise (1937) em que Freud afirma que “a confirmação [da interpretação] se infiltra na oposição direta por meio de um ato falho”, chamou-me atenção o exemplo escolhido: o lapso entre Jauner, Gauner e jewagt. A curiosidade levou-me à origem dessa vinheta, localizada no capítulo V de Psicopatologia da vida cotidiana (1901), dedicado aos lapsos da fala. Retomar essa vinheta clínica a partir da perspectiva do argumento do XXVI EBCF sustentou minha questão: essa intervenção de Freud se inscreve no campo do efeito de verdade, do inconsciente intérprete ou já deixa entrever algo da interpretação que opera pela materialidade da língua?

Em Psicopatologia da vida cotidiana (1901), o episódio é apresentado para demonstrar o funcionamento do lapso. Ele escreve:

"Certa vez tive de interpretar o sonho de um paciente em que ocorria o nome “Jauner”. O sonhador conhecia uma pessoa com esse nome, mas era impossível descobrir porque ela havia aparecido no contexto do sonho; assim, arrisquei a conjectura de que talvez fosse apenas por causa do nome, que soa parecido com o insulto “Gauner” [malandro, trapaceiro]. Meu paciente contestou isso com rapidez e energia, mas, ao fazê-lo, cometeu um lapso da fala que confirmou minha suposição, pois tornou a confundir as mesmas letras. Sua resposta foi: “isso me aprece jewagt [gousado] demais [em vez de “gewagt (ousado)]”. Quando chamei sua atenção para esse lapso, ele aceitou minha interpretação.” (p.54)

Diante da interpretação de Freud, o paciente recusa de imediato a hipótese de que Jauner remetesse a Gauner. Entretanto, ao dizer que a interpretação lhe parecia“demasiado ousada” (gewagt), produz um lapso (jewagt) que repete a troca de letras em jogo na própria intervenção. O lapso insiste, assim, como uma confirmação da hipótese formulada por Freud.

Ao retomar esse mesmo fragmento clínico em Construções em análise, Freud já não está interessado em demonstrar a lógica do ato falho, como em Psicopatologia da vida cotidiana, mas em sustentar sua elaboração sobre a construção em análise. O exemplo passa a demonstrar que uma construção pode produzir efeitos mesmo quando encontra, de início, a resistência do sujeito.

Essa releitura permite situar, em um primeiro momento, a vinheta no eixo Efeito de verdade, proposto pelo argumento do XXVI EBCF. Como ali se afirma, as formações do inconsciente “revelam uma verdade que contraria o saber estabelecido”, manifestando-se como “tropeço, desfalecimento, rachadura”. O lapso comparece justamente como essa irrupção pela qual o inconsciente responde à intervenção do analista. O inconsciente, por assim dizer, toma a palavra e basta o analista escutar.

No entanto, meu interesse por esse exemplo não se esgota aí. O que me soa particular nesse recorte é que a intervenção de Freud não parece apoiar-se apenas em um conteúdo recalcado, mas também em um jogo de linguagem. Há uma materialidade sonora que orienta sua escuta — Jauner, Gauner, jewagt. E antes de atestar uma verdade, é o tropeço da língua que interessa.

Retomo, então, o argumento do XXVI EBCF, quando propõe pensar uma interpretação que faz ressoar lalíngua, sendo esta “um forçamento por onde um psicanalista pode fazer soar outra coisa que não o sentido, para que os sons emitidos possam ser escritos diferentemente do sentido”. A intervenção freudiana apoia-se justamente na proximidade sonora entre os significantes, fazendo aparecer um arranjo singular da língua. E, ainda que Freud não formule essa operação, seria possível perguntar se esse jogo paronomástico não faz comparecer, já nesse momento, uma interpretação que se vale da materialidade da língua para produzir seus efeitos?

O argumento do XXVI EBCF afirma que "é em lalíngua que a interpretação opera", deslocando seu alvo do efeito de sentido para a materialidade da língua, seus equívocos e suas ressonâncias. Nessa perspectiva, a interpretação não se orienta apenas pelo que as palavras querem dizer, mas pelo modo como elas soam. Não teria Freud, nesse exemplo, se deixado orientar por esse barulho da língua? Mesmo que para ele essa empreitada vise, ainda, o sentido.

Referências:

FREUD, Sigmund. Construções em análise (1937). In: ______. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 23, p. 271–287.

FREUD, Sigmund. Psicopatologia da vida cotidiana (1901). In: ______. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 6.

XXVI ENCONTRO BRASILEIRO DO CAMPO FREUDIANO. Argumento. Florianópolis, 2026. Disponível em: https://encontrobrasileiroebp2026.com.br/argumento/. Acesso em: 31 jul. 2026.

[1] Atividade coordenada por Virgínia Carvalho (EBP/AMP), na Unidade de Vitória da Seção Leste-Oeste, dedicada à leitura dos textos "Construções na análise", de Sigmund Freud, e "O osso de uma análise", de Jacques-Alain Miller.


A interpretação “fora do sentido”.

A interpretação “fora do sentido”.

Rachel Amin[i]

Para Rosine e Robert Lefort, a interpretação no autismo não visa à produção de sentido. Trata-se de uma intervenção que incide sobre o real do significante, sobre lalíngua como acontecimento de corpo, e não sobre uma mensagem a ser decifrada.

A partir do caso de Marie-Françoise[ii], os Lefort mostram que, no autismo, não há um sujeito sustentado pela articulação S1-S2; por isso, uma interpretação que busque revelar um significado oculto pode ser inoperante ou invasiva.

Rosine Lefort, diante da clínica com crianças muito pequenas e que apresentavam uma importante precariedade do simbólico, coloca seu próprio corpo em jogo no lugar de analista, ensinando-nos que a interpretação analítica é, sobretudo nesses casos, um entrelaçamento entre lalíngua e o corpo. O corpo do analista deve estar “encarnar o núcleo do trauma”[iii].

Além disso, ela propõe, nessa clínica, a interpretação “fora de sentido”, que consiste em isolar um significante, uma sonoridade, uma iteração ou um ato de linguagem sem lhe atribuir um significado. Trata-se de um isolamento de S1, um significante no real trazido pelo sujeito, que é preciso redobrá-lo na tentativa de introduzir uma escansão ou um corte em sua iteração. É uma intervenção que visa à localização do gozo, e não à produção de sentido.

Em Nonette, Jean-Robert Rabanel[iv] retoma essa orientação da interpretação fora do sentido. Rabanel nos diz, parceiro se torne um leitor da lalíngua do sujeito, deixando-se orientar por ela.

Trata-se de uma manobra que busca tocar o gozo, a letra ou a iteração significante por meio de intervenções mínimas — uma retomada literal, uma pontuação, um equívoco sonoro ou uma repetição —, evitando recobrir a invenção autística com significações vindas do Outro. É uma intervenção que visa ao S1, à letra ou ao acontecimento de corpo. Seu efeito esperado é uma modificação da posição do sujeito diante do gozo e uma possível abertura ao laço com o Outro.

 


BIBLIOGRAFIA 
LEFORT, Rosine; LEFORT, Robert. A distinção do autismo. Marie-Françoise: o autismo infantil precoce. Belo Horizonte: Relicário, 2017. p. 13-40.
MILLER, Jacques-Alain. L’inconscient et le sinthome. La Cause Freudienne, Paris, n. 71, p. 76, jul. 2009.
RABANEL, Jean-Robert. Une clinique de l’objet a en institution. La Cause Freudienne, Paris, n. 78, Pag. 64-76, 2011.

 


[i] Membro da Associação Mundial d Psicanálise, Membro da Escola Brasileira de Psicanálise do Campo Freudiano, Maître em Psicopatologia Université René Descartes- Paris |V – Sorbonne, Especialista em Teoria Psicanalítica UNESA. Membro do Conselho Consultivo da Associação PIPA (e rabiola).
[ii] LEFORT, Rosine; LEFORT, Robert. A distinção do autismo. Marie-Françoise: o autismo infantil precoce. Belo Horizonte: Relicário, 2017. p. 13-40.
[iii] MILLER, Jacques-Alain. L’inconscient et le sinthome. La Cause Freudienne, Paris, n. 71, p. 76, jul. 2009.
[iv] RABANEL, Jean-Robert. Une clinique de l’objet a en institution. La Cause Freudienne, Paris, n. 78,p. 64-76, 2011.

A interpretação como leitura do sintoma

A interpretação como leitura do sintoma

Maria Josefina Sota Fuentes 

A interpretação como saber ler visa a reduzir o sintoma à sua fórmula inicial, isto é, ao encontro material de um significante com o corpo, quer dizer, ao choque puro da linguagem sobre o corpo. Então, certamente, para tratar o sintoma, é preciso passar pela dialética móvel do desejo, mas é preciso também se desprender das miragens da verdade que esse deciframento lhes traz e visar, ‘para além’ da fixidez do gozo, a opacidade do real.

(Miller, J.-A. Ler um sintoma. Opção Lacaniana, n. 70. São Paulo: Eolia, junho de 2015, p. 21.)

Nesta citação, Miller define a interpretação analítica de forma muito precisa, servindo-se das mudanças de paradigmas operadas na década de 70 no ensino de Lacan, tendo já advertido que há tempos a psicanálise se encontra na era “pós-interpretativa” [1]. E que, caso queiramos manter o termo “interpretação” para situar a prática do analista, será necessário tomar “a interpretação pelo avesso”.

O próprio fundador da psicanálise, Freud que a inaugura como a ciência da intepretação dos sonhos por excelência, estendendo a ação interpretativa do analista ao sintoma, adentrou na era “pós-interpretativa”. Passados os anos dourados dos primórdios da psicanálise, quando a abertura de um inconsciente dócil às interpretações triunfantes do analista incidia sobre sintomas que desapareciam milagrosamente em meses ou em uma caminhada nas montanhas, a prática analítica encontrou suas resistências. Se em 1917 Freud afirma que os sintomas têm um sentido de verdade e carregam uma mensagem cifrada pelo trabalho do inconsciente, passível de ser decifrada pela intepretação, em 1919 terá de acrescentar que o sintoma não se resume ao Sinn, ao sentido. Nos “Caminhos da formação do sintoma”, Freud procura a Bedeutung, a referência, os vestígios de uma satisfação enigmática e substitutiva da pulsão genital (inexistente), ligada às primeiras experiências traumáticas da “realidade sexual”. E em 1920 será preciso admitir, com o postulado da pulsão de morte, que a necessária e paradoxal satisfação do sintoma não se dissipa. Haverá sempre restos sintomáticos e o risco de a reação terapêutica negativa erguer-se como defesa frente ao furor sanandi do analista.

Portanto, convém destacar que interpretar “corretamente”[2] um sintoma não significa eliminá-lo (como pretendem as psicoterapias ou outras práticas normativas), mas localizar sua Bedeutung, as marcas primordiais que incidiram sobre o corpo do ser falante. É o que Lacan indica na Conferência em Genebra sobre o sintoma proferida em 1975, na porta de entrada do Seminário sobre o sinthoma. Nela, Lacan está menos interessado no aspecto simbólico do sintoma – já definido como um sentido aprisionado, ou uma metáfora determinada pelo discurso do Outro, ligada ao significante enigmático do trauma sexual e o termo que a ele vem substituir na cadeia significante. “O sintoma só é interpretado na ordem significante”[3], afirmava Lacan.

Porém Lacan nunca fez da interpretação um conceito fundamental na psicanálise por uma razão simples – explica Miller[4]. Pois a interpretação é o próprio inconsciente. Em outras palavras, o inconsciente estruturado como uma linguagem já é uma interpretação sobre o real opaco do sintoma. O inconsciente intérprete cifra e decifra, interpreta e paradoxalmente quer ser interpretado, pois a característica enigmática do significante apela à interpretação, convoca um S2 que responda pelo sentido ausente. É o que dá fundamento à regra da associação livre e à instalação da transferência como Sujeito suposto Saber. E quando o analista interpreta agregando sentido, fazendo alusão, pontuando, não faz outra coisa senão redobrar o trabalho do grande mestre da interpretação que é o próprio inconsciente. Não será necessário chegar à psicose para notar o caráter delirante que advém de tal modelo de intepretação, que agrega ao real do sintoma fora do sentido, o estatuto de uma verdade a ser decifrada na talking cure.

Para consolidar a prática analítica em outras bases, contrária à paixão interpretativa e com a qual os analistas se defenderam sistematicamente contra o real da experiência analítica, foi necessário a Lacan orientar-se precisamente pelo Oriente. De sua viagem ao Japão, um litoral se delineou no divórcio entre o significante, articulável à cadeia significante e passível de engendrar sentido, e a letra em sua opacidade real, que apenas traduz em sua materialidade a mudez da Coisa.

Com essa nova orientação, Lacan define então o sintoma não mais como uma formação determinada pelo discurso do Outro, mas advindo do real da letra[5] que fixa um modo de satisfação por onde o gozo se infiltra. E, a fim de especificar a maneira como o corpo se deixa agarrar pelo discurso, como se dá o choque inaugural e traumático entre as palavras e os corpos, na sequência, Lacan define o sintoma como um moterialisme[6], a matéria da palavra desprovida de sentido com letra que se inscreve no corpo. É onde reside a “tomada do inconsciente”, então reformulado em novas bases.

Nenhum determinismo fatal atribuído ao Outro como causa do sintoma que não seja delirante. Pois não há uma comunicação entre o que os pais transmitem e aquilo que chega à criança, senão o abismo de uma relação impossível entre um dizer que ficou esquecido nos ditos parentais e aquilo que a criança escuta, e o que dessas palavras, como um meteorito, ravina as terras do real do seu corpo e se sedimenta como letra. Assim, a matéria do que Lacan chamou de lalíngua, esse mar de equívocos próprio da linguagem, marca casualmente o corpo onde se fixa a letra e um modo de gozo, a partir do qual cada um fabrica seu sintoma, tece suas ficções e ergue seu mundo.

Portanto, quando importam menos as razões da miséria do sintoma, é possível conceber o alcance de uma intepretação analítica tomada pelo seu avesso, contrária à elucubração do inconsciente estruturado como uma linguagem. Trata-se, como afirma Miller, da interpretação como um “saber ler que visa reduzir o sintoma à sua fórmula inicial”. Isto é, um “saber ler” que implica não somente o sintoma como um resto da operação analítica do qual falava Freud, mas como um real primordial produzido no choque da lalíngua com o corpo, o sinthoma que finalmente é concebido como uma escritura ilegível separada do campo da fala e da linguagem, que não se deixa absorver pela trama do discurso nem pelo sentido comum.

A paradoxal leitura do ilegível implicaria ler o que foi definitivamente escrito nas profundezas do inconsciente?

Em se tratando da escrita, tal como Lacan a desenvolve nos anos 70’, é preciso considerar que a letra que se materializa no sinthoma jamais poderá ser lida integralmente. Não se trata de uma letra morta eternizada no mármore de uma lápide. Laurent[7] indica que a letra é mais um furo por onde o gozo se infiltra, um fragmento da língua incomunicável que se deposita sem jamais ser inscrita na língua comum, do que qualquer impressão que transmita sua mensagem.

Deste modo, ler um sintoma implica sobretudo afinar o ato de leitura à ética do bem-dizer, a arte que o analista ensina ao analisante ao longo da análise[8], que consiste em dizer o indizível de forma cada vez mais justa, cada vez melhor, até ficar satisfeito com isso!

Assim, reconduzir o sujeito aos significantes elementares com os quais ele delirou em sua neurose, incluindo a neurose de transferência, permite que o trabalho de leitura do sintoma se entrelace ao trabalho de escrita do próprio inconsciente que, no puro equívoco da lalíngua, esfolia continuamente as miragens da verdade.

Se podemos afrouxar os nós cegos e fazer outros arranjos, ampliar um vazio fértil para fazer reverberar outras leituras, outras palavras, e bem-dizer o real do sinthoma sempre em causa, é porque ler já é escrever uma vida, sempre em aberto.

 


[1] Miller, J.-A. “A interpretação pelo avesso”. Opção lacaniana, n.15, São Paulo, Eólia, 1966, pp. 96-99.
[2] Lacan, J. “Conferência em Genebra sobre o sintoma”. Opção lacaniana, n. 23, São Paulo, Eólia, 1998, pág. 10.
[3] Lacan, J. “Do sujeito enfim em questão”. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, pág. 235.
[4] Miller, J.-A. “A interpretação pelo avesso”. Op. cit., pág. 97.
[5] Lacan, J. O Seminário, livro 22: RSI. Inédito. Aula de 21/01/1975.
[6] Lacan, J. “Conferência em Genebra sobre o sintoma”. Op. cit., pág. 11.
[7]Laurent, É. “Lecturas del síntoma”. http://www.psicoanalisisinedito.com.
[8] Miller, J.-A. “Ler um sintoma”. Opção lacaniana, n.70, São Paulo, Eólia, 2015, pág.12.


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