A distância entre a fala e a escrita[1]
A distância entre a fala e a escrita[1]
Ram Mandil
“Há uma distância entre falar e escrever (…).
É nesta distância que opera a psicanálise, é
esta diferença que a psicanálise explora.”[2]
(JAM, “Ler um sintoma”).
Vamos considerar a relação entre a fala e a escrita tal como Lacan propõe ao longo de seu ensino, da qual se depreende não apenas a hipótese do inconsciente, mas também por onde se apoia a interpretação.
Podemos dizer que é no Seminário 20: mais, ainda que se consolida a distinção entre a letra e o significante, distinção essa que Lacan põe em marcha desde o Seminário 18: “De um discurso que não fosse semblante”. É na lição sobre a função do escrito, do Seminário 20, que ele propõe considerar o que, num discurso, se produz por efeito de escrita. A abordagem linguística sobre a fala, na medida em que ela distingue significante e significado, não se interessa pelo que nela opera ao nível da escrita e da leitura. Sabemos que a linguística de Saussure, pelo menos aquela que se depreende de seus Cursos, circunscreve seu objeto, a fala, a partir de sua função semântica, colocando à parte, por exemplo, tudo aquilo que da linguagem se conjuga ao escrito. No entanto, para Lacan, tomando como referência o discurso analítico, o significado não pertence ao mesmo campo do significante, ele é efeito de leitura daquilo que se ouve do significante[3]. O significado não está ao nível do que se escuta, do que se ouve – o que se ouve, é o significante – mas decorre de um efeito de leitura do significante. Nesse sentido, haveria uma distância – o termo é de Lacan – entre o significante e o significado, uma distância que só poderá ser transposta a partir um ato de leitura. Lacan confere, pois, à essa distância, o estatuto de um escrito. É aqui que ganha relevância a distinção que ele estabelece entre a leitura como explicação e a leitura como compreensão. A leitura compreensiva – lembremos de nossos dias de escola, quando éramos incentivados a fazer a “leitura e compreensão” de um texto – é aquela que tende a apagar a distância entre o significante e o significado, apreendê-lo num mesmo movimento. Já a leitura pela via da explicação, implica dispor os elementos sobre um plano (é esse seu sentido etimológico, o ex-planare). Trata-se de uma leitura que permite considerar a distância entre o significante e o significado; fundamentalmente, um modo de acesso à sua não relação.
O inconsciente como efeito de leitura do que se fala
Sabemos que, para Freud, o acesso ao inconsciente se dá a partir da consideração do relato do sonho como um texto, como um escrito, cuja interpretação equivale a um ato de leitura. O exemplo mais nítido e conhecido, é a referência ao modo de leitura de um rébus, pelo qual o valor de significante da imagem nada tem a ver com sua significação. É o que Lacan ressalta em Função e campo: “Então, que retomemos a obra de Freud na Traumdeutung, para ali nos relembrarmos que o sonho tem a estrutura de uma frase, ou melhor, atendo-nos à sua letra, de um rébus, isto é, de uma escrita (…)” (LACAN, 1953/1998, p.268). Mas essa escrita não deve ser considerada apenas ao nível da interpretação. Ela também se faz presente na elaboração do texto do sonho, tanto em sua retórica quanto em seus processos de cifração, seja através de “deslocamentos sintáticos”, seja por meio das “condensações semânticas”, por meio das quais “Freud nos ensina a ler as intenções ostentatórias ou demonstrativas, dissimuladoras ou persuasivas, retaliadoras ou sedutoras com que o sujeito modula seu discurso onírico” (LACAN, 1953/1998, p.268-69).
Mais adiante, em “Radiofonia”, Lacan fará nova referência à interpretação freudiana como produto de uma leitura. Aqui ele inscreve Freud numa tradição que cultiva um modo de leitura associado à tradição talmúdica, um “saber ler” entendido como saber reconhecer a distância entre a letra e sua fala, “encontrando ali o intervalo preciso para aí se jogar com uma interpretação. (LACAN, 1970/ 2003, p.427)”. Nessa passagem, Lacan faz uma referência direta ao Midrash, uma das formas de interpretação do texto bíblico ao nível da letra, um modo de leitura que visa “extrair (…) um dizer outro, ou até implicar nele o que ele negligencia (como referência) (LACAN, 1970/ 2003, p.428)”. Trata-se de uma leitura que não descuida em considerar uma palavra ou uma letra que pode ser aparentemente supérflua, que examina as narrativas paralelas ou as relações de vizinhança entre os trechos, ou que se interessa pelo modo de presença de cada desinência (de número ou gênero) de modo a extrair daí ensinamentos ou orientações para o convívio social.
A leitura e o aprender a ler. Legibilidade e ilegibilidade.
Entramos aqui num terreno pouco explorado, que diz respeito à experiência de leitura. Se é possível discernir uma problematização do escrito a partir da psicanálise, temos algumas indicações pontuais, mas precisas, de Lacan, a respeito da prática da leitura. Podemos dizer que essas indicações apontam para dois aspectos fundamentais: uma crítica aos procedimentos habituais de alfabetização (“alfabestização”) ou àquilo que Roland Barthes se refere como sendo “a ilusão alfabética”, a saber, considerar a escrita como mera representação, como pura transcrição do oral, ou como procedimento de fixação da linguagem articulada. Para Lacan, a crítica à alfabetização incide sobre a correspondência que se procura estabelecer entre uma letra e um fonema, como unidade mínima de sentido. Nesse aspecto, quando se ensina que a letra G corresponde a um determinado fonema (gê), vemos que o que se escreve pode designar fonemas distintos, como em GATO e em GIRAFA. Um segundo aspecto diz respeito à própria concepção de legibilidade. Nosso hábito de leitura toma como ponto de partida a noção de que o significado de um texto decorre do puro encadeamento dos significantes e, podemos acrescentar, associado à transmissão de uma “realidade” compartilhada entre escritor e leitor. Haveria aqui uma leitura pela via da “simpatia” (sym-pathos), de um compartilhamento imaginário de pathos, que tem como exemplo mais radical a leitura de suspense, aquela que nos faz querer passar a página para saber o que irá acontecer. Considerar o inconsciente a partir dessa perspectiva, é conceber uma versão do inconsciente como “simpático”. Seria essa uma versão do inconsciente transferencial? No entanto, essa versão não se coaduna, por exemplo, com a escrita de Joyce, que convoca um regime de leitura “antipática” – daí, inclusive, o fundamento para Lacan poder considerá-lo como um “desabonado do inconsciente”. Aqui somos convidados a exercitar um outro regime de leitura de um escrito que se mostra referido a uma significação vazia, produzida justamente por um artifício de opacificação do sentido.
No Seminário 20 , Lacan faz menção ao modo de leitura do lapso, uma leitura que se faz a partir da desestabilização do sentido ou seja, “ao que se enuncia do significante, vocês dão sempre uma leitura outra que não o que ele significa.” (LACAN, 1972-73/1985, p.52). Trata-se de uma leitura que permite aferir outra coisa que a significação, permitindo acesso, inclusive, ao que se escreve a partir do sem sentido.
O Posfácio ao Seminário 11
Mas é no “Posfácio” ao Seminário 11 – escrito na semana anterior à lição sobre a função do escrito do Seminário 20 – que Lacan acentua a problematização de uma correspondência imediata entre a escrita e a leitura ao reconhecer que seus Escritos, tanto quanto Finnegans Wake, de Joyce, serem da ordem de “um escrito para não ser lido”. No entanto, nesse “Posfácio” Lacan introduz um outro componente da leitura ao associar as condições de legibilidade de um escrito com o que aí se deposita de gozo.
Vamos acompanhar o modo como ele apresenta essa perspectiva. Lacan retoma o conhecido witz mencionado por Freud em diversas passagens:
Dois judeus encontram-se em um vagão de trem numa estação da Galícia. ‘Onde vais’?, diz um. ‘À Cracóvia’, diz o outro. ‘Que mentiroso tu és!’, exclama então o outro., ‘Dizes que vai à Cracóvia para que eu acredite que vais a Lemberg, mas sei muito bem que vais mesmo é à Cracóvia. Então, por que mentir para mim?’ (FREUD, 1905/2017, p.165).
Em seu comentário, Lacan associa, num primeiro momento, a função do escrito à demanda a interpretar. O que o primeiro judeu responde, “vou à Cracóvia” é interpretada pelo segundo judeu como abrigando um desejo de enganar (“por que me mentes, dizendo a verdade?). A leitura de um desejo de enganar sugere a presença de um gozo naquilo que o primeiro judeu diz.
Nessa leitura de Lacan, o destino final do primeiro judeu não se esclarece a partir do que possa estar escrito no catálogo das estradas de ferro da estação, muito menos pela verificação do que está escrito no bilhete. Para Lacan, o escrito que verdadeiramente interessa é aquele que se materializa na própria linha férrea e na fixação dos seus trilhos: “a função do escrito não constitui então o catálogo, mas a via mesma da estrada de ferro. E o objeto (a), tal como o escrevo, ele é o trilho por onde chega ao mais-gozar o de que se habita, mesmo se abriga a demanda a interpretar” ( LACAN, 1964/ 1988, p. 265).
Vemos aqui anunciado um outro aspecto da legibilidade de um escrito: uma legibilidade que não deriva da relação entre significantes, que não se depreende de uma decodificação do texto, mas que provém da leitura da presença de um gozo que ali se inscreveu. Em uma passagem de “Joyce, o sintoma”, Lacan explicita essa correlação entre gozo e escrita: “Leiam as páginas de Finnegans Wake, sem procurar compreender. Isso se lê. Se isso se lê, como me fazia notar alguém que me é próximo, é porque sentimos presente o gozo daquele que escreveu isso. Mas o que indagamos, pelo menos a pessoa em questão, é por que Joyce o publicou.” (LACAN, 1975-76/2007, p.161.)
Reitera-se aqui a conexão entre o gozo que se deposita na letra e a demanda a interpretar, demanda essa que, no caso de Joyce, se realiza com a sua decisão de publicar Finnegans Wake. Antevendo que essa obra iria dar 300 anos de trabalho aos universitários, Joyce procura assegurar a conexão de seu sinthoma com o campo do Outro.
O caráter de sinthoma da obra de Joyce – de um gozo que se cifra e que, ao mesmo tempo, se constitui como enigma para o Outro – indica um deslocamento da relação entre escrita e leitura quando examinada a partir do discurso analítico. Não haveria aqui uma contraposição entre o delírio, próprio à dimensão de semblante do significante, e o caráter singular da escrita do sinthoma? Lacan, ao sugerir que a noção de real, tal como ele a concebe, poderia muito bem ser sua resposta sinthomática à elucubração freudiana do inconsciente, não estaria indicando a via do sinthoma como aquilo que, por seu caráter único, permite contrapor-se à deriva universal do sentido?
Por outro lado, é a própria prática da interpretação que se reformula, quando se desloca da escuta do sentido para a leitura do fora de sentido. É o que permite renovar a força de sua incidência na atualidade, sobretudo diante do novo cogito que se desenha – “eu sou aquilo que eu digo que sou” – pedra angular do movimento de “despatologização” generalizada que hoje assistimos. Isso implica considerar a interpretação analítica como o que leva em conta a presença de um furo que habita o ser falante. Em outras palavras, considerar o modo de emergência do simbólico a partir do real que é modo como Deus anuncia seu nome a Moisés – “eu sou o que sou” -, essa vociferação que se projeta do fundo da sarça ardente, muito antes que o profeta pudesse sonhar com os dez mandamentos de suas leis.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Freud, Sigmund . Obras completas, volume 7 : o chiste e sua relação com o inconsciente (1905); tradução Fernando Costa Mattos e Paulo César de Souza. São Paulo : Companhia das Letras, 2017.
Lacan, Jacques. O seminário: livro 20: mais, ainda (1972-1973). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.
LACAN, J. “Função e campo da fala e da linguagem” (1953) . In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, p.238-324.
LACAN, J. (1970). Radiofonia. In:______. Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.
Lacan, J. Posfácio. In: O seminário livro11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964) . Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988, p.263-266.
Lacan, Jacques. Joyce, o sintoma. In: O Seminário, livro 23: o sinthoma (1975-1976). Rio de Janeiro: Zahar, 2007, p.157-165.
Miller, Jacques- Alain. Ler um sintoma. In: Opção Lacaniana. São Paulo: Eolia, n.70, junho de 2015.
[1] Este texto foi publicado originalmente na Revista Curinga, n. 55, Letra, escrito e interpretação, da EBP-MG em julho de 2023.
[2] Miller, J-A. Ler um sintoma. In: Opção Lacaniana. São Paulo: Eolia, n.70, junho de 2015, p.14.
[3]“Se há alguma coisa que possa nos introduzir a dimensão da escrita como tal, é nos apercebermos de que o significado não tem nada a ver com os ouvidos, mas somente com a leitura, com a leitura do que se ouve de significante. O significado não é aquilo que se ouve. O que se ouve é o significante”. (LACAN, 1972-73/1985, p.47).
Qual interpretação?[1]
Qual interpretação?[1]
Mauricio Tarrab[2]
- Qual interpretação?
Perguntar-se “qual interpretação?” é já supor que não há somente a “interpretação analítica”. A psicanálise tem continuado uma tradição interpretativa na cultura. Há a interpretação analítica e as outras.
Se nos centramos na interpretação analítica, a qual interpretação nos referimos?
Certamente à interpretação que utilizamos como instrumento na cura analítica. Mas, qual? A interpretação do inconsciente que temos aprendido a preservar? Ou a interpretação que Lacan homologa ao desejo mesmo? Ou aquela interpretação que o sujeito faz desse enigma que é o desejo do Outro? A que fiz ou a que deixei de fazer a um analisante? A interpretação que deixei passar? A interpretação verdadeira? A inexata? A que inaugurou a história da psicanálise e se formalizou como a interpretação que aponta a fazer consciente o inconsciente?
Ou mais adiante, a que tinha em sua mira as resistências do eu, ou também àquela que se apoia na contratransferência? Ou, para mencionar um capítulo forte da história psicanalítica, aquela interpretação que recai sobre a transferência. E, para ir ao tempo lacaniano: qual interpretação? A que aponta a preencher um ponto morto na dialética da cura, como nos indica Lacan em “Intervenções sobre a transferência” em seu momento mais kleiniano? Ou será a interpretação que está orientada à falta a ser, ao -j?
Ou se trata daquela que aponta a destacar um significante mestre? Ou, para dar um salto em Lacan mesmo, aquela interpretação que aponta ao indizível? Ao real? A um osso de não sentido? Ou será a interpretação que isola um significante irredutível? Ou a interpretação que aponta ao objeto a, o qual deve cair “ao lado” do significante? Asseguro-lhes que poderíamos continuar ampliando esta enumeração e estou seguro de que vocês me seguiriam aportando possibilidades que derivam das diversas maneiras em que se aborda e se tem abordado a questão inatingível na história da psicanálise, e que cada um de nós como praticantes enfrenta diariamente em sua prática.
Verão que procuro justificar o “Qual?” de meu título, introduzindo por sua vez a noção – que não é uma novidade para nenhum de vocês – de que a interpretação é tão onipresente na psicanálise como diversa e difícil de capturar em seu conceito e em sua aplicação, entrando em jogo variáveis diversas e difíceis de definir. Se admitimos que a psicanálise é um saber que não se pode transmitir em sua totalidade, há que se aceitar também que não há forma de transmitir um savoir-faire da interpretação analítica. Nisso, a prática que fazemos da interpretação é como a psicanálise mesma.
Isso poderia desiludir aos que buscam respostas concretas sobre “como se faz”. E isso não só é um desejo dos que começam, mas também de cada um dos que levamos anos na prática. Mas com a interpretação, assim como no encontro sexual, no corpo a corpo, não há manual de instruções que valha. E, como nesse livro exemplar de Carver[3], na interpretação, como no amor, somos todos principiantes.
Quão mais fácil seria um manual de instruções!
- As ficções, o real e a máquina de interpretar
Começarei referindo-me ao cartaz que elegeram para situar meu primeiro ponto sobre a interpretação. É uma bela foto, e aprecio a boa fotografia. De imediato, essa figura simples e enigmática, caminhando de costas pela rua, me fez perguntar-me: o que quiseram dizer? É Pessoa caminhando por Lisboa, e isso leva à relação da poesia e a interpretação? Ou é meu amigo Sinatra, que esteve com vocês há alguns dias e cujos chapéus, como os do personagem da foto, são já bem conhecidos entre nós?
De qualquer maneira, o efeito estético e o sem sentido da imagem pareciam perder-se entre a elucubração poética e o chiste.
Não vou me estender em minhas associações automáticas acerca das intenções do cartaz, tão belo como enigmático. Contudo, com este simples exemplo, quero destacar como existe uma predisposição a interpretar, disposta a colocar-se em movimento para preencher qualquer furo com algum sentido. Há uma interpretação disposta a saltar sobre o desconhecido, e é a que vou me referir de imediato.
Talvez seja exagerado referir-me a isso como já o fiz, como uma ‘máquina de interpretar’[4]. Mas, a grande maioria do que chamamos ‘ficções’, desde o fantasma até o que designamos como estruturas clínicas e, ainda sendo mais radicais, o que chamamos a realidade, possuem essa estrutura de ficção, e são de alguma maneira interpretações.
J.-A. Miller faz uma afirmação que me basta para justificar meu primeiro ponto: “A debilidade [mental] consagra o corpo falante como tal ao delírio”.[5] Interpretemos… A debilidade mental consagra o corpo falante ao delírio, porque, para dizê-lo com o ultimíssimo Lacan, o falante é débil frente ao real. Necessita ficções para suportar o real; por isso e para isso delira.
Neste contexto, uma “máquina de interpretar” produz, entre outras coisas, delírios. Delírios interpretativos que, se falamos da paranoia, se fazem mais evidentes, porque há uma relação estreita entre interpretação e paranoia, o que faz Miller dizer, citando Lacan, que na análise há uma dinâmica paranoide, todo ato ou palavra se submete à intepretação. O que se diz e o que se faz, por parte de ambos partenaires, está sujeito à interpretação. Não somente o analista interpreta; de fato, o paciente não faz mais que interpretar, interpretar tudo, o que diz, o que se diz a ele, o que não se diz, o silêncio, os barulhos do analista, seus gestos… e esse “clima paranoide” deve ser administrado, ter um limite, uma borda, administração que fica por conta do analista, que é quem deve moderá-lo. Por isso, Lacan se refere à analise como uma “paranoia dirigida”.
Que sentido tem isso que me diz? Que quis me dizer com o que disse? Por que esse gesto, esse comentário, esse barulho atrás do divã? E, dando um passo além no clima paranoide interpretativo da análise, se poderia perguntar: “Me disse isso, mas o que quer?” O “o que quer?” atrás do “me disse” sugere que não sei; quer dizer, não tenho a certeza paranoide sobre a interpretação do Outro. E, não obstante, ainda que não possua essa certeza, deliro um pouco ao redor não somente de seu enunciado, o do analista, mas também de sua enunciação, quer dizer, acerca do que deseja aí.
Atrás desse clima interpretativo, através da bruma, desponta o desejo do Outro. E então, a análise como tal, estará encaminhada de boa maneira, com a máquina interpretativa a toda marcha, quer dizer, com a transferência instalada.
Se bem que nesta época ultramoderna da psicanálise lacaniana, muitos praticantes não têm tanto em conta que algo que se chama transferência deveria instalar-se… estão mais focados no sinthome, no escabelo, no parlêtre e demais conceitos. Entretanto, entre interpretação e transferência se joga quase tudo desde o mesmo começo de uma psicanálise. E deter-se na controvérsia entre Freud e Lacan a respeito, nunca é inútil. Interpretamos hoje – como sugeria Freud – uma vez instalada a transferência? Ou como indicava Lacan, interpretamos para que se instale a transferência?
Nada ilustra melhor essa maquinaria interpretativa que a resposta que se dá aos fenômenos intuitivos nas psicoses, sejam ordinárias ou extraordinárias. A maquinaria interpretativa se desdobra com brutalidade ou com elegância, mas sempre com eficácia frente ao abrupto da emergência de um real, por exemplo, de um fenômeno elementar, acompanhado de um estado de estupor e desconcerto. Tanto a psiquiatria clássica, a boa psiquiatria certamente, como a leitura freudiana, coloca essa resposta, o delírio interpretativo por exemplo, do lado da cura e não da enfermidade. Se entende muito bem que, por mais louca e delirante que seja essa interpretação, está s serviço de evitar algo pior.
“A debilidade [mental] consagra o corpo falante ao delírio”. A debilidade do mental, então, está na causa do delírio. O que chamamos “debilidade mental” excede a partição estrutural: neurose, psicose, perversão, e reúne um “para-todos” os falantes.
Se seguimos radicalmente esta indicação, então o termo “interpretação” ganha uma complexidade considerável. Não somente se aplica à prática do analista e do paciente, mas também tem uma utilidade, um uso comum – não ordinário, mas comum – quer dizer, está no registro de um “para todos”, como resposta ao abrupto do real. Frente a isso, o mental, segundo Lacan, é débil.
De fato, toda uma clínica pode se estruturar em função da presença ou ausência deste aparato interpretativo. A falta deste aparato é bem conhecida na clínica das psicoses. E não é necessário recorrer a casos extraordinários para compreender o padecimento insuportável que sucede por não contar com esse aparato interpretativo para afrontar a emergência do fora de sentido mais contundente do real.
No entanto, estas construções ficcionais não são privativas das psicoses. Desta perspectiva, inclusive nas neuroses – em última instância, a crença neurótica no pai que chamamos “neurose” – podem ser consideradas ficções desta índole.
J.-A. Miller estende ao extremo, mas com justiça, este argumento que lhes apresento, e que por certo não é desconhecido para vocês. Em Sutilezas analíticas, e no contexto de uma aula na qual explora e reformula as modalidades de análise, faz uma leitura provocativa do texto de Lacan “Prefácio à edição inglesa do Seminário 11”, que podem encontrar em Outros escritos. Diz, na página 119 de Sutilezas analíticas: “[…] o psíquico para Lacan é uma ficção, e o lógico é o real”, e agrega: “[…] uma psicanálise tem estrutura de ficção”.[6] Como desconhecer a estrutura de ficção de uma psicanálise? De entrada, Lacan sublinhou que o analista, em seu ato, era mestre da verdade. Indicou em “Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise” que, devido à pontuação que aportava – e aí a interpretação – e, sobretudo, pelo corte final da sessão – que somente responde a sua decisão e que é simplesmente outra versão extrema da interpretação mesma -, o analista faz variar a verdade.
Como poderão ver, desta frase se desprendem múltiplas consequências para a concepção que temos da interpretação. Lacan não compartilhava a ideia freudiana de que o analista é um buscador da verdade; melhor, acreditava que se encontrava com ela. O interessante, o essencial, é que, segundo uma definição contundente, com a interpretação se trata de “fazer variar a verdade”. Com esta perspectiva, toda nossa concepção do inconsciente e do ponto de mira, do alvo da interpretação e seus efeitos, muda com essa “variação”.
Retomemos: a psicanálise tem estrutura de ficção. Isso ressoa com a ideia de que a psicanálise é uma paranoia… dirigida. Também conecta com o que quero assinalar sobre a máquina de interpretar na qual estamos imersos, não só como analistas e analisantes, mas também como seres falantes. Débeis frente ao real, requerem-se ficções para suportá-lo, ficções estas que nos consagra essa debilidade.
J.-A. Miller o assinala no mesmo parágrafo, ainda que de uma maneira distinta e com uma formulação contundente. Após assinalar que a psicanálise tem uma estrutura de ficção, afirma: “Se o real é o gozo, o inconsciente é uma defesa contra o gozo […]”.[7]
Se o real fosse o gozo, então o inconsciente seria uma defesa contra o gozo… o inconsciente mesmo como uma defesa do real. E como pode o inconsciente defender do real? Interpretando! Porque o inconsciente não faz mais que interpretar. Claro que, com essa interpretação, também goza; mas essa é outra perspectiva que abordarei mais adiante.
Tampouco é minha intenção adentrarmos hoje nos labirintos do conceito de defesa. Não desejo levá-los por esse caminho. Contudo, o inconsciente é esse saber articulado que funciona como defesa contra o real. De que maneira? Cifrando, cifrando aquilo que, do real, apresenta-se como fora de sentido e, claro, como gozo fora do sentido. Esse cifrado é o esforço de poesia do inconsciente. Assim, a interpretação se encontra tanto do lado do deciframento como do ciframento…, mas então, qual interpretação?
O inconsciente se constrói como saber, como uma elucubração de saber. O inconsciente mesmo se constrói com interpretações. Interpretações de que? De que, senão do fora de sentido, da opacidade do real?
Pensem no trauma: o trauma como irrupção de uma quantidade de libido que, segundo Freud, “o aparato psíquico” não pode processar. Essa quantidade se processa por sua ligação com as representações. Ditas representações são as que devem outorgar sentido ao sem sentido provocado pela irrupção e pela efração que produz o trauma. A elucubração significante, a que chamamos “elaboração”, permite ligar essa efração a novas representações quando os sentidos tenham caducado. Desde Freud, o trabalho de elaboração tem sido o meio decisivo de atravessar, ou melhor dizendo, de elaborar um trauma.
O que quero destacar destas breves passagens de Sutilezas analíticas, são as consequências que tem para nós localizar que, na prática, estamos entre real e ficção. E, frente ao real, não fazemos outra coisa que interpretar! Talvez esteja exagerando, mas analistas, analisantes e até o vizinho da esquina, para mencionar o homem comum, interpretamos. Seguramente percebem que se perfila um “para todos”. Um “todos” intérpretes frente ao real.
Em Vincennes, Lacan toma Freud como guia mais uma vez para deixar-nos uma indicação inquietante e chave para o tema da interpretação: “Freud […] considerou que nada é apenas sonho, e que todo mundo (se tal expressão pode ser dita), todo mundo, é louco, ou seja, delirante”.[8]
Desde Calderón de la Barca e sua La vida es sueño, expõe-se como aquele prisioneiro isolado desde sempre constrói todo um mundo. Finaliza-se com aquela frase que tem feito seu curso na cultura hispânica, e que culmina com uma conclusão inquietante: “Toda a vida é sonho e os sonhos, sonhos são”.
Ou, para citar o outro extremo em termos de épocas e geografias culturais, tomemos a Zhuang Tzu. Lacan refere-se a ele em seu Seminário para mencionar aquele paradoxo que se apresenta ao imperador chinês. Depois de despertar-se desconcertado após uma noite na qual sonhou que era uma borboleta revoando com despreocupada facilidade, pergunta-se, devido ao vívido desse sonho, se era Zhuang Tzu quem sonhou que era uma borboleta, ou se era uma borboleta sonhando que era Zhuang Tzu.
Todo mundo é louco, quer dizer, delirante. Quer dizer, já que falamos da interpretação, que todo mundo interpreta.
Consideremos, por exemplo, a relação entre a experiência de perplexidade e o delírio. Há a experiência de perplexidade frente a um signo do real e há a interpretação. Quer dizer que há um movimento, uma articulação entre o que faz signo, e deixa perplexo, e o S2, significante do delírio.
Essa articulação é a máquina interpretativa a que me referi figurativamente. E, em contraposição a isso, temos a interpretação analítica. E o que essa interpretação analítica faz é reduzir, devastar, enfraquecer, desinflar, reduzir ao essencial, o delírio ou a ficção.
Não se trata de alimentar o delírio, nem de fomentar a ficção da interpretação neurótica. Tanto para esta última como para o delírio psicótico, o objetivo é o mesmo: reduzir, devastar, debilitar, reduzir ao essencial e desinflar a ficção. Busca-se fazer variar a verdade até chegar a um ponto de significação vazia, com o qual podemos nos arranjar de uma forma diferente.
Ainda que com a interpretação analítica seguimos o que Freud ensinou, ao vincular a opacidade do sintoma neurótico ao sentido edípico, não é menos certo que podemos colocar o ato do analista, sua interpretação, do lado completamente oposto; quer dizer, do lado do “signo”, do que produz perplexidade, justamente para perturbar a ficção que sustenta o discurso do analisante. Um gesto enigmático, um som, uma interjeição, uma frase que não se entende bem, enigmática, ou inclusive um corte da sessão em meio a uma frase; são todas ações que levamos a cabo quando interpretamos. E somos plenamente conscientes que estas ações colocam em movimento, do lado do analisante, sua própria interpretação e, posteriormente, a do inconsciente, seguindo o esquema previamente mencionado.
Então, qual interpretação? De que lado a colocamos: do lado do signo ou do lado da ficção? Vou dizer que fazemos um e outro, segundo a decisão e prudência de cada um. “Intérprete do que me é apresentado, eu decido sobre meu oráculo”, diz Lacan; e posso então interpretar de uma maneira ou de outra, segundo o que exija o momento.
Vê-se em nossa prática atual que, embora a interpretação se encontre do lado do analista, que interpreta, quem interpreta, também consideramos fundamental que a interpretação fique do lado do analisante… portanto, quero enfatizar que o termo “interpretação” já não engloba todos os significados e os usos que lhe damos. Não somente a interpretação não está aberta a todos os sentidos, mas também que a interpretação, a analítica, vai contra essa produção interpretativa. Isso se aplica tanto à inicial, aquela que faz acontecimento de corpo, como àquela que se mantém de maneira constante e que chamamos “fantasma”.
3.Interpretar / Analisar “o inconsciente é a política”
Poderia ter intitulado esta intervenção simplesmente “A interpretação analítica”, e evitaria todo este primeiro desenvolvimento. No entanto, ao fazê-lo, teria omitido um aspecto que creio fundamental. Por outro lado, seria um problema – e é agora que o abordo – tentar definir qual seria a particularidade da interpretação que consideramos “analítica”. E um dos problemas é como transmitir aquilo com que cada um de nós se enfrenta cada dia em sua prática, sem ter a pretensão de oferecer hoje um manual de instruções. Uma vez descartada essa pretensão, como se aproximar ao que seria a interpretação analítica?
Talvez um ponto de partida resida na advertência de que a interpretação não se pode ensinar, nem transmitir, e muito menos copiar das que temos recebido. Ainda que a imitação do analista que tivemos ou temos, ou daqueles com quem supervisionamos, sejam obstáculos compreensíveis do laço transferencial que, como praticantes, mantemos, e na qual supostamente se encontra um apoio para a incerteza do ato.
Começo então por perguntar-me e perguntar-lhes se pensam que interpretar é o mesmo que analisar. Poderia ser uma resposta óbvia à primeira vista, mas há algo nessa diferença que não é tão óbvio. Creio que, na diferença entre analisar e interpretar, nessa articulação que as diferencia, reside toda a subversão freudiana. E isso começa com a Traumadeutung, quer dizer, com a interpretação dos sonhos que, em um certo sentido, e seguindo a visão com a que o próprio Freud sonhava, mudou o mundo.
No Exórdio, uma espécie de epígrafe que se encontra logo antes de começar “A interpretação dos sonhos”, Freud cita Dante dando, assim, intencionalidade e orientação a seu descobrimento, invenção e prática incipiente: extraído por Dante de La Eneida, escreve ali em latim “Flectere si nequeo superos, Acheronte movebo” (“Já que não posso mover as potências superiores, vou mover as potências de baixo, vou mover as potências infernais”). Já para esse Freud inicial, tratava-se de movebo, de mover algo “do mundo subterrâneo”.
E numa carta na qual responde um comentarista, explica porque essa epígrafe: “O desejo rejeitado pelas instâncias mentais superiores (o desejo onírico reprimido) remove o mundo mental subterrâneo (o inconsciente) para ser escutado”. Não se trata somente de analisar, mas sim de “mover”, deslocar, e, seguindo o final da frase, “fazer escutar”.
A interpretação, ao menos a interpretação analítica, inclui a aspiração de introduzir um movimento no mundo subjetivo. Por isso, pode-se dizer que a interpretação é política.
Enquanto “analisar” não é necessariamente uma política, ainda que possa servir a alguma, “interpretar” é claramente uma ação política. É interessante ler, desta maneira, a indicação lacaniana de que o inconsciente é a política, à condição de se dar conta de que o inconsciente é a política porque o inconsciente interpreta.
Podemos examinar isso por duas perspectivas: por um lado, temos a direção da cura, que supõe uma tática, uma estratégia e uma política. Por outro, a estrutura mesma da interpretação e o que consideremos sua eficácia. Deve haver eficácia, por que, se não houvesse, para que interpretar? Sua eficácia será correlativa a sua capacidade de tocar algo do real, a menos que consideremos a psicanálise como uma literatura. Assim é como se a considera atualmente: como uma literatura antiga… enfim.
O escrito de Lacan “A direção da cura e os princípios de seu poder” tem um título eminentemente político: a direção da cura, mas também: os princípios de seu poder. Vocês sabem que, nesse escrito que não perdeu atualidade, a interpretação é da ordem da tática. É a ordem dos movimentos rápidos, das intervenções conjunturais em tempo presente com um objetivo próximo. É da ordem da caça, de capturar a presa, de mover as peças na direção de um objetivo que, quase sempre, tanto para o analista como para o analisante, desconhece-se de antemão. Ainda assim, contamos com o que gostamos de chamar, com algo de poesia e muito de ingenuidade, um horizonte ético ao qual nos dirigimos, ou uma orientação. Com isso enchemos a boca e nos tranquilizamos, ainda que não saibamos muitas vezes o que isso quer dizer.
Em todo caso, não é uma tática ao vento, é uma tática porque existe a estratégia da transferência e isso se marca numa política da cura. A interpretação é o presente; é agora, é já! E se nos descuidamos, a oportunidade passa. Como estamos seguros de que não meteremos os pés pelas mãos? Não podemos estar seguros, como tampouco podemos “preparar” uma interpretação (como se dissesse: “então, na próxima sessão vou lhe dizer que…”). Isso sempre tem um efeito de forçamento e com resultados questionáveis. Na prática da psicanálise, o cálculo da interpretação é inexato e se está sempre com os pés enfiados na lama. Estamos sempre em risco de nos equivocar-nos, de dizer o que não era apropriado, de não dizer o que justo era o que havia que dizer… de querer compreender demasiado rápido. Lacan adverte aos jovens psiquiatras e psicanalistas que o escutavam em seu inicial Seminário 3: “Comecem por não crer que vocês compreendem. Partam da ideia do mal-entendido fundamental. Aí está um disposição primeira, na falta da qual não há verdadeiramente nenhuma razão para que vocês não compreenda tudo e não importa o quê.”[9] E será o momento em que terão deixado passar a interpretação que havia que se fazer.
Mas, então não temos nenhuma referência para nos orientarmos? Fazemos o que fazemos e dizemos o que dizemos assim, ao acaso? A experiência analítica não tem um marco que a regule e que permita situar nossa interpretação ali? Pois sim, tem. Em um extremo da experiência analítica temos a interpretação e, no outro extremo, temos o sintoma. Recordo-lhes a frase do Seminário 11: “O recalcado primordial é um significante, e o que se edifica por cima para constituir o sintoma, podemos considerá-lo como um andaime de significantes. […] Na outra extremidade, há a interpretação […] A interpretação aponta o desejo, ao qual, em outro sentido, ela é idêntica. […] No intervalo, a sexualidade”.[10] A interpretação, o sintoma, o desejo, o andaime significante, a sexualidade, disso está feita a experiência analítica, e nossa interpretação ocupa um dos extremos.
Sabemos, desde Freud, e cada um espera poder reproduzir em algum momento de sua prática essa operação, que a interpretação tem a oportunidade de produzir que um sentido se desvie, que uma fixação mortificante se dilua, que um véu se levante, que se desarticule um nó de gozo e sentido, e que algo se escreva novamente; enfim, que algo do corpo seja tocado. Isso demonstra seu valor de instrumento político, já que é o meio pelo qual um discurso incide nos corpos. E vocês sabem que este enfoque tem uma atualidade incontestável. Se estamos imersos nesta ordem política, que é a direção da cura mesma, não podemos falar da interpretação sem situar “os princípios de seu poder”. Lacan o fez energicamente para questionar a psicanálise de seu tempo. Pensava que devia questionar a intrusão, não só do discurso universitário, mas também em especial do discurso do mestre na psicanálise de sua época, devido às consequências que isso teria na experiência da psicanálise, na posição dos analistas e, certamente, na prática da interpretação que se encarnava no analista como mestre.
Mencionei como o discurso do mestre se infiltrava na prática e na experiência da psicanálise…, no entanto, parece que isso não afeta a nós, lacanianos hipermodernos. Estamos advertidos de tantas coisas e damos muitas por resolvidas, confiando que Lacan e Miller já tenham situado o problema. Mas, às vezes, esquecemos que isso pode se infiltrar em nossa prática e nem sequer consideramos formular-nos perguntas como: quem é o mestre? Quem é o mestre desta psicanálise que supostamente eu conduzo? E, quando se fala da direção da cura, da transferência e, claro, da interpretação, como evitar a pergunta de quem é o mestre? E se se evita a resposta, o mestre do jogo aparecerá em algum momento de maneira inesperada… e então, pediremos uma supervisão de urgência.
Como mencionei em outra oportunidade, isso aparece no diálogo que Miller cita em seu curso.[11]
“A questão é – disse Alice ao famoso ovo Humpty-Dumpty -, se você pode fazer que as palavras signifiquem tantas coisas distintas.
A questão é – responde Humpty-Dumpty – saber quem é o mestre aqui. Isso é tudo.”
Qual é, então, a questão para o analista? Ser capaz de que as palavras signifiquem tantas coisas distintas, como quer Alice, ou a questão é saber quem é o mestre?
Humpty-Dumpty é um maestro da arbitrariedade: “Quando eu emprego uma palavra, essa palavra significa exatamente o que eu decidi que significa… nem mais, nem menos”.
O que Humpty-Dumpty diz à Alice, e que às vezes uma análise nos permite localizar, é que a questão não é saber que as palavras signifiquem muitas coisas distintas; o que lhe aponta é que há um significante mestre que decide sobre as palavras, as coisas e o corpo na vida daquele que nos fala, e que decide sobre suas significações múltiplas e intermináveis. E sabemos a importância que tem numa análise encontrar um significante que seja uma chave de leitura e os efeitos que isso tem para o analisante.
Então, qual interpretação? O problema se desloca do “qual” à palavra mesma, “interpretação”, porque a usamos para nossos fins e não podemos prescindir dela. No entanto, devemos reconhecer que é uma palavra que abarca campos extensos e distantes da psicanálise mesma: quem toca um instrumento musical “interpreta” uma obra, por exemplo. Um ator ou uma atriz “interpretam” um papel que está escrito em alguma parte. Um compositor e diretor de orquestra muito próximo, meu irmão, para nomeá-lo, explicava-me a importância que tinha justamente “interpretar” o que o compositor esperava que fosse lido em sua partitura, quer dizer, no que havia alguma vez escrito. Essa interpretação, embora queira ser fiel a isso, tem sempre algo daquilo que a interpreta. Está a obra, por assim dizer, e está a interpretação que lhe agrega algo a cada vez que se a executa.
Está o fato e está a interpretação. J.-A. Miller faz valer este argumento para a psicanálise mesma. Está a psicanálise e estão suas interpretações.
Há uns anos, dei um seminário sobre a interpretação em São Paulo. Na noite anterior, levaram-me a escutar música clássica num charmoso teatro, a Sala São Paulo. Enquanto escutava um concerto de Rajmáninov, seguia pensando no que teria que dizer no dia seguinte. E, como o contexto me sugeria, ao escutar o primeiro violino num solo espetacular, perguntei-me: por que usamos a mesma palavra para dizer coisas tão distintas como o que fazemos numa análise e o que, com arte, esse violinista fazia ao fazer soar essas cordas da maneira que eu o escutava nesse momento?
Pensei que esse momento poderia encontrar uma vinculação que fosse além da maestria, do savoir-faire com um e outro instrumento. Finalmente, encontrei uma forma de dizê-lo que me satisfez.
Em poucas palavras, o executante de um instrumento musical, com maior ou menor maestria, faz o mesmo que o analista: faz escutar o que está escrito. Considero que “fazer escutar o que está escrito” é uma boa fórmula para a interpretação analítica. No entanto, é essencial acrescentar que, em ambos os casos, o corpo está concernido mais além das palavras.
4 . Então… não só palavras
Há muitos anos, uma famosa canção italiana, uma melodia de amor muito popular, dizia: “Paroles, paroles, paroles…”, “palavras, palavras, palavras, palavras tão só palavras há entre os dois”.
Poder-se-ia dizer que isso é o que ocorre entre o analisante e o analista: tão só palavras. E, embora seguindo esta linha que exploro com vocês ao falar da interpretação, é preciso enfatizar, conforme a firme indicação de Humpty-Dumpty, que analisar, analisar-se e interpretar não são meros jogos de palavras. O “primeiro lacanismo”, se se pode chamar assim a esse enfoque que prosperou, ao menos na Argentina, fez do jogo de palavras o alfa e o ômega da interpretação e da análise, fruto de sua própria desorientação. Esta perspectiva prevaleceu até que J.-A. Miller desembarcou com “o outro Lacan” em meados dos anos 80, o que permitiu abrir um campo novo para a análise, para os analistas que estávamos nos formando e, com certeza, para a interpretação, que vai mais além do jogo de palavras.
Ao largo de seu ensino, Lacan formula diferentes maneiras de pensar a estrutura básica da interpretação e, ainda que não o faça de maneira explícita, isso se pode ler em múltiplos desenvolvimentos. E, em todos estes desenvolvimentos, pode-se perceber o esforço de redução. Isso não é um ponto de chegada na concepção lacaniana da interpretação. Estava já em “Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise”, quando diz: “[…]até o suspiro de um silencio [tomado] por todo o desenvolvimento lírico que ele vem suprir.”[12]
Ao final, tão ao final como numa de suas “conversas” do ano de 1971 no Hospital Sainte-Anne, a qual está publicada num pequeno livro que conhecemos como Estou falando com as paredes, a primeira dessas “conversas” chama-se “Saber, ignorância, verdade e gozo”.
Pensando na interpretação analítica, tomemos o primeiro termo: o saber. “O saber não-sabido de que se trata na psicanálise é um saber que efetivamente se articula, que é estruturado como uma linguagem […]”.[13]
Um saber que não se sabe para si mesmo e que se chama o inconsciente. E já se sabe que quando se trata da articulação do inconsciente, sabe-se que não se trata ali de um mero jogo de palavras. A “primazia do saber em psicanálise” é um primeiro ponto para situar essa “estrutura da interpretação”, a qual quero apresentar-lhes tomando o Lacan de Estou falando com as paredes.
No segundo ponto, Lacan já vai de cheio ao nosso tema: “O segundo, vocês não esperaram por mim para sabê-lo – dirijo-me aos psicanalistas pois ele é o próprio princípio do que vocês fazem, a partir do momento em que interpretam”.[14] Não se entusiasmem, não vai nos dizer como interpretar! Mas sim, vai apontar o “princípio” que guia a interpretação que se queira analítica.
“Não há uma só interpretação que não diga respeito – no que vocês escutam – ao laço que se manifesta entre a palavra e o gozo. Pode ser que vocês o façam de maneira inocente, sem que nunca tenham se dado conta de que nunca uma interpretação quer dizer outra coisa, mas enfim, uma interpretação analítica é sempre isso. O benefício, seja primário ou secundário, é um benefício do gozo”.[15]
Podemos ser inocentes, como Alice, e pensar que se trata de um jogo de palavras, ou que a transferência que sustenta o laço analítico refere-se somente a palavras, como a canção que alude à decepção amorosa. Todavia, o que encontrarão é que o que dizem refere-se ao laço que há entre as palavras e o gozo. Algumas coisas, tanto no amor como na análise, melhor sabê-las logo.
Então, para retomar Humpty-Dumpty, e contradizer sua arbitrariedade, o mestre a que ele se refere é o gozo.
Lacan diz que o laço entre palavras e gozo não apareceu em Freud de imediato, porque diz que houve em Freud uma época do princípio do prazer e, então, o que imperava era o prazer do sentido. Podemos explicar o caminho mais classicamente freudiano de uma psicanálise dizendo que vai: da ignorância de um saber que não se sabe e faz sintoma, à verdade que a interpretação revela e que é a chave ética e curativa freudiana, e um saber como saldo. A interpretação desvelava a verdade do conflito edípico ou o fato traumático ignorado à causa da repetição (sou muito clássico, mas só sigo ao modo em que Lacan o expõe em Estou falando com as paredes), e obtinha-se um saber como saldo que permitia uma restituição das relações do sujeito com a “realidade”.
Claro, continua Lacan, um dia Freud mesmo foi surpreendido, mais além do sentido deste programa, por outra coisa: a repetição. A insistência de um benefício de gozo, que comanda a repetição.
O laço entre as palavras e o gozo que diz respeito à interpretação manifesta-se na repetição. E podemos nos perguntar – inocentemente se assim desejam: se não houvesse repetição, como interpretar? Às vezes, ainda que o analista possa captar um nó de gozo sentido no discurso analisante, só a repetição permite interpretá-lo. Insistência da repetição, mas também instante, oportunidade da interpretação. Freud descobre na repetição o mais além do princípio do prazer, quer dizer, o gozo.
E ali Lacan formula seu terceiro ponto para esta “estrutura da interpretação”, que formulo para nossos fins. “Se nossa interpretação nunca tem senão o sentido de fazer notar o que o sujeito encontra aí, o que é que ele encontra? Nada que não deva ser catalogado no registro do gozo.”[16]
Então, já que temos localizado que a interpretação analítica diz respeito ao laço entre a palavra e o gozo, extraio agora da primeira parte deste parágrafo uma indicação maior de Lacan a respeito da interpretação analítica. Leiamos com cuidado: “Se nossa interpretação nunca tem senão o sentido de fazer notar o que o sujeito encontra”. Não veem ali o princípio reduzido do que Lacan pensa da interpretação analítica? Refiro-me a seu sentido, não a seu significado. O sentido implica direção: é fazer notar o que o sujeito encontra.
Ah! É fantástico como é capaz quase de dizer tudo em uma pequena frase, como de passagem.
Fazer notar. Interpretar é fazer notar. Que simplicidade! E para isso, tanta teoria! E sim, tanta teoria. Mas também tanta prática.
Passo, então, à segunda parte da frase: “[…] fazer notar o que o sujeito encontra”. (Mas, o que encontra? Repetição). Essa é a outra indicação maior para o praticante, em especial, é uma indicação contra a ferocidade do praticante, à qual muitas vezes vem a substituir a ferocidade curativa. Quero dizer que, quando na prática se passa da ferocidade curativa, seja porque tenham tropeçado com o impossível nas curas que conduzem, ou porque em sua própria análise tenham se encontrado com o impossível de curar, muitas vezes se escuta nas supervisões essa nova ferocidade de converter-se em buscadores da verdade, detetives do mistério do sofrimento sintomático. E Lacan nos indica que se trata de que o sujeito analisante encontre, e que vocês “façam notar”. Façam notar o quê? Que nesse nó de palavras e atos há uma repetição de gozo. Isso implica já uma certa destituição do analista mestre do saber e da verdade, não é certo?
Fica ainda o quarto ponto de Lacan em Estou falando com as paredes, referido à interpretação, ao menos nestas três pequenas páginas que comento. Qual é o quarto ponto? Já que apontou que se trata do gozo, pergunta-se à continuação: “Onde é que isso habita, o gozo? Do que ele precisa? De um corpo.”
Busca situar o ground, o solo, o real onde se amarram, onde se encarnam os discursos; neste caso, a interpretação deve tocar o corpo. Fica claro, então, porque mencionei há pouco que nem a análise, nem a interpretação são somente um jogo de palavras. Em relação à interpretação, ao falar de ressonâncias, indica-se esta borda onde se entrelaçam um saber não sabido, mas articulado – o inconsciente – as palavras, os gozos e os corpos.
Quando alguém se analisa, não fala às paredes; isso é o que alguém supõe quando associa livremente para cumprir a regra enunciada pelo analista, em cuja presença fala. Supõe-se que fala ao Outro, esse Outro que vocês, analistas, supõem que são na transferência. E é sobre esse dizer, feito de palavras e atos, que vocês interpretam.
No entanto, uma análise levada até o final circunscreve o discurso de tal maneira que, como Lacan disse em Saint-Anne, falar com as paredes é seguir, não suas palavras, mas sim o circuito da reflexão de sua voz. Ao final, o analista bem poderia ser esse muro, essas paredes que contém o espaço onde o mais singular do analisante tem a oportunidade de ressoar.
Para terminar
Para concluir, recordemos que “todo mundo é louco, ou seja, é delirante”. “Delirar”, quer dizer, “interpretar”, qualifica o termo “loucura”. Poderíamos afirmar que a loucura é sua interpretação. Para todos há “a loucura”, mas essa loucura é singular, quer dizer, de cada um. Que a faz singular? A singularidade da loucura de cada um radica, em princípio, no efeito único do encontro inaugural do qual emerge o sinthome, e sua interpretação. Isso redefine certas perspectivas e afeta a interpretação analítica, porque é claro que na análise se trata de alcançar com a interpretação aquilo que responde do sintoma (que é como Lacan chama o inconsciente no seminário “RSI”).[17] Mas há também o que não responde do sintoma. Isso que assimilamos ao conceito de “acontecimento de corpo”, ou, para ser mais conceitual: ao Um sozinho, como analisá-lo?
Essa loucura de cada um, além do acontecimento de corpo, está feita do que cada um leu do encontro com o real que lhe tocou, e do sentido e do gozo que há extraído disso.
Tradução: Valéria Beatriz Araujo
[1] Conferência pronunciada em La Plata, em 2019, a propósito do encerramento do curso SCF.
[2] Tarrab, Mauricio. “Qué interpretación”. In: El decir y lo real. Hacer escuchar lo que esta escrito. 1ª ed. – Olivos: Grama ediciones, 2024.
[3] Carver, R. Principiantes. Barcelona: Anagrama, 2010.
[4] Tarrab, Mauricio. Las psicoses y la máquina de interpretar. Em: El decir y lo real, op. cit.
[5] Miller, J.-A. El inconsciente y el cuerpo hablante, in: Lo real puesto al día, en el siglo XXI. Buenos Aires: Grama ediciones, 2014, p. 330.
[6] Miller, J.-A., Sutilezas analíticas. Buenos Aires: Paidós, 2011, p. 119.
[7] Miller, op.cit., p. 119.
[8] Lacan, J. Tranferência para Saint Denis? Lacan a favor de Vincennes. Correio. Revista da Escola Brasileira de Psicanálise, nº 65. São Paulo: EBP, 2010, p. 31.
[9] Lacan, J. O seminário, livro 3, as psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008, p. 31.
[10] Lacan, J. O Seminário, livro 11, os quatro conceitos fundamentais de psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996, p.167.
[11] Miller, J.-A. Los usos del lapso. Buenos Aires: Paidós, 2007.
[12] Lacan, J. Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, p. 253.
[13] Lacan, J. Estou falando com as paredes, p. 23.
[14] Lacan, J. Ibid., p. 26.
[15] Ibid., p. 31.
[16] Lacan, J. Ibid., p. 28. NT.: em francês lê-se faire remarquer. Na versão em português usada aqui está traduzido como assinalar. Como no texto o autor dá destaque ao termo fazer notar, decidimos alterar ligeiramente a tradução para dar mais coerência ao texto.
[17] Lacan, J. Seminário 21, RSI, classe de 10/12/74. Inédito.
Fala a partir do silêncio
Fala a partir do silêncio
Angelina Harari
“É isto que faz o analista: falar do silêncio. Quando ele fala, fala ou deveria falar a partir do silêncio. E, guardar o silêncio, mesmo quando fala. É o segredo da interpretação. Preservar o lugar do que não se diz, ou do que não pode se dizer. Atribuir menos sua fala à fala do outro do que com o que ela cala. Pois o sujeito do verbo silet poderia também ser a fala. A fala guarda o silêncio. E falha diante do gozo.”
Miller, J.-A. Silet: os paradoxos da pulsão, de Freud a Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005, p.11.
O contexto da citação acima são as preparatórias de eventos cujas temáticas foram: “Você não diz nada” (Escola da Causa Freudiana) e “Os Poderes da Palavra” (Campo Freudiano).
Usaremos o aforismo de Lacan “Não há relação sexual”, recentemente trabalhado em um Congresso da AMP (abril/2026), à guisa de introdução, para abordar o corte lacaniano como prática interpretativa do analista para fazer falar o silêncio, conforme nos orienta J-A Miller ao assinalar que o analista guarda o silêncio, ou seja, quando o analista interpreta com o corte da sessão, está preservando a fala, a partir do silêncio.
O estatuto do Um
Há-Um [Yad’lun] Lacan o profere (o lança) como uma jaculação e o repete: “(…) repito o que isto quer dizer, porque não é algo de uma sonoridade muito habitual. Há-Um [Yad’lun] tem jeito de vir não sei de onde, do Um, não é?”[1]. Esta jaculação do Seminário 19, é isso que articularei, qual o vínculo entre a jaculação Há-Um e o aforismo Não há relação sexual.
Em que os dois se completam?
Para J. Lacan o Um articula-se ao fato de que “ele não se pensa, nem mesmo sozinho (…). Quando o Um se articula destaca-se exatamente isto: não há dois. Eu lhes disse, isso é um dizer…o que se interpreta imediatamente por nós – não há relação sexual.”[2]
A interpretação é a palavra usada para falar de como se completam, como se articulam, os dois aforismos. E ao “não há dois” virá se acrescentar “há o corpo”[3]. Logo, o Um supõe uma articulação com o corpo. E segundo a orientação lacaniana, o corpo aparece como o Outro do significante, ou seja, o corpo se apresenta no título Encore [Mais, Ainda, livro 20] como en corps e o Outro (com maiúscula) é o corpo, entende-se como “já se dirigir em direção ao registro do real”[4].
E J. Lacan, em seu último livro do Seminário (lição de 17 de janeiro de 1978) nos propõe um neologismo “Os trumains” para nos falar do ser humano, do ser humano perfurado, mostrando o simbólico em sua inadequação: “o significante é responsável pela não-relação sexual nos seres humanos”. Podemos aí identificar que: “o modelo do ato analítico no ultimíssimo ensino e na prática derradeira de Lacan é o corte”[5].
Seguindo esse fio, temos que a interpretação é ler de outra maneira: “o sujeito suposto saber ler de outra maneira, com a condição de ligar a outra maneira à sigla S(Ⱥ)”[6]
O Um e as entrevistas preliminares
O ato analítico, o corte, o ler de outro modo, os trumains, ou como se joga o jogo nos começos de uma análise? Quando alguém vem nos ver pela primeira vez, para Lacan, isto se compensará (no discurso do mestre) “(…) no dia em que isso for, o discurso analítico”[7]. E ele continua com o que ressalta no assunto das entrevistas preliminares: “É o confronto de corpos. É justamente porque isso parte desse encontro de corpos que não será mais questão disso a partir do momento em que se entra no discurso analítico”[8].
Terminarei a leitura com uma vinheta ocorrida em um controle/supervisão: deixar o analisante falar muito, não fazendo o corte da sessão, é um jeito de o analista falar muito, mesmo que ele fique em silêncio absoluto. Portanto, a meu ver, somente a prática interpretativa do corte implica a fala do analista que fala a partir do silêncio.
[1] Lacan, J. (2012[1971-72]). O Seminário, livro 19: …ou pior. RJ: Jorge Zahar, p.132.
[2] Idem, ibidem, p.177.
[3] Miller, J.-A. [2010-2011]. Curso de Orientação Lacaniana: “O Um sozinho” [ou “O ser e o Um”). lição de 18/05/2011.
[4] Idem, ibidem.
[5] Miller, J-A. Curso de Orientação Lacaniana: “O ultimíssimo Lacan”, lição de 2 de maio de 2007. Versão estabelecida por Pascale Fari, publicado no site do XIIº Congresso AMP. Disponível online. URL: O tema | Textos de orientação | Congreso AMP 2020
[6] Idem, ibidem.
[7] Lacan, J. (2012[1971-72]). Op.cit., p.228.
[8] Idem, ibidem.
Jaculatória, palavra que fere …
Jaculatória, palavra que fere …
Jésus Santiago
O discurso em questão não faz cadeia […] Desde então, trata-se de saber se o efeito de sentido em seu real tem a ver com o emprego das palavras ou com sua jaculação […] Acreditava-se que eram as palavras que tinham peso. Mas à medida que tivemos o trabalho de isolar a categoria do significante, acabamos vendo que a jaculação comporta um sentido isolável .
Lacan, J. Seminário XXII, RSI (1974-1975). Séance du 11 février 1975. Ornicar? Paris, n. 4, p. 97.
Retomar a jaculatória como horizonte para renovar a prática interpretativa implica uma reinvenção que se pretenda à altura do sintoma como acontecimento de corpo. Tal como reinventada no ensino de Lacan, a jaculação constitui — como sugere Éric Laurent — um filão fecundo para pensar a interpretação enquanto acontecimento[1]. Elevar o ato interpretativo a essa dignidade exige, primordialmente, distinguir a fala do dizer. Em Les non-dupes errent, Lacan adverte: nem toda fala é um dizer; do contrário, qualquer locução seria um acontecimento e as falas vãs não seria faladas. O dizer, diversamente, é da ordem do acontecimento[2]. Se a interpretação permanece como pilar da psicanálise, é porque sua operatividade reside no alcance das palavras. Neste momento do ensino, a interpretação postula-se como um instrumento que rompe com o vazio do falatório para atingir o dizer capaz de confrontar o insuportável do sintoma — única maneira de abrir uma porta ao real.
Portanto, a jaculação, enquanto dizer da ordem do acontecimento, emerge como meio apto a enlaçar a interpretação ao sintoma, este concebido como a reiteração do gozo do Um sobre o corpo. Para que a interpretação se sustente como jaculação, torna-se necessário transcender a função da fala, comumente voltada a gerar efeitos de sentido. Ir além dos efeitos de sentido — situados na junção do imaginário com o simbólico — implica reconhecer a jaculação como incompatível com um dizer esclarecedor ou com a tradução obtida pelo acréscimo de um significante-dois a um significante-um[3]. Assim, um ano após formular a interpretação como acontecimento, Lacan, no Seminário RSI, explicita a interpretação como jaculação: ‘O que apresentamos como o nó borromeano já vai contra a imagem de concatenação. O discurso em questão não faz cadeia […]. Desde então, trata-se de saber se o efeito de sentido em seu real tem a ver com o emprego de palavras ou com sua jaculação […]. Acreditava-se que eram palavras que tinham peso. Mas, à medida que tivemos o trabalho de isolar a categoria do significante, acabamos vendo que a jaculação comporta um sentido isolável[4].
Depreende-se que o caráter a-semântico da jaculação não se reduz à mera erradicação do sentido, mas à urgência de isolá-lo em seu efeito de real. Construir a interpretação como o que faz nó entre o dizer e o acontecimento de corpo é contrapor-se ao discurso que faz cadeia, o qual se sustenta sob o imaginário da concatenação. Tal perspectiva borromeana, reiterada nesta lição do R.S.I., posiciona a jaculação como a via privilegiada para extrair o real do efeito de sentido, operando, assim, um tratamento efetivo sobre as disrupções do gozo.
Laurent propõe que o enodamento entre o dizer e o acontecimento de corpo — próprio à jaculação — converge para a noção de vociferação, articulada por Miller na lição final de seu curso Todo mundo é louco[5]. O cerne dessa conceituação reside na ruptura com a equivalência entre a vociferação e o enunciado proposicional, este último tradicionalmente submetido à binaridade do verdadeiro ou falso. Diferente do fato proposicional, que se esgota em sua validade lógica, a vociferação e o enunciado poético operam para além desse critério. Embora ambas se fundamentem no par enunciado/enunciação, Miller define a vociferação pela suspensão dessa distinção, fazendo com que o enunciado e a enunciação se tornem indivisíveis no corpo falante.
É precisamente nesse ponto que a jaculação se equivale à vociferação: em ambas opera a suspensão da diferença entre enunciado e enunciação. A essa indivisibilidade soma-se o imperativo do corpo; vociferar exige um corpo em sua condição de falasser. Isso implica que tanto a vociferação quanto a jaculação convocam a voz como objeto (a) — aquele que mais tangencia a consistência lógica do real do gozo. Dentre as cinco formas episódicas do objeto, a voz é a que menos se deixa capturar pelo semblante do aparelho significante. Por situar-se na vertente do real, a voz na jaculação abre caminho à escritura e, consequentemente, à impressão, à rasura e à cunhagem da letra sobre o corpo.
A vociferação constitui a face renovada da jaculação, deslocando a interpretação para a vertente da ressonância do significante e franqueando a via do equívoco. Para a jaculação, o significante atua menos pela produção de sentido e mais pela sua ressonância como real, fazendo vibrar a voz além da significação. Através do objeto voz, a interpretação joga com a equivocidade dos significantes que agenciam o gozo, aproximando-se, assim, do estatuto da escritura. Apenas a escrita é capaz de circunscrever e isolar o real do efeito de sentido. Consequentemente, o inconsciente deixa de ser confundido com a revelação dos capítulos censurados da história do sujeito, transmutando-se em um texto que se lê e no qual a leitura equivoca, esvaziando o sentido ao dar ouvido aos ruídos de lalíngua. De fato, esse texto escrito do inconsciente, no que tange à linguagem, pode autonomizar-se[6] — a exemplo do rigor matemático — o escrito do inconsciente faz suplência ao sentido pelo rastro do som.
Para transmutar o inconsciente em um texto legível, é imperativo abdicar da premissa de que interpretar equivale a escutar significações preestabelecidas. A interpretação convoca, fundamentalmente, o ato da leitura em detrimento da escuta. Enquanto esta última se detém nas significações que despertam a compreensão — mantendo o gozo subjacente[7] —, a leitura opera em outra dimensão: nela, o significante ascende à condição de letra, desvinculado da tirania do sentido. Diferente da escuta, que busca isolar o significante a partir do significado, a leitura parte da materialidade do significante para, só então, dar lugar a possíveis significações. Essa defasagem evidencia que a passagem da escuta à leitura exige, necessariamente, o atravessamento pela escrita.
Em última instância, o uso da palavra só se efetiva como interpretação sob a égide da leitura. A própria condição de existência do inconsciente é o ler; nisso, ele guarda homogeneidade com o ato interpretativo, visto que ambos subsistem enquanto grafias da fala. Assim como a letra se oferece à leitura, o inconsciente — para o psicanalista — é o que se supõe ler. A jaculação, portanto, é a letra extraída da leitura que emana do inconsciente, da qual, rigorosamente, muito pouco se escuta. Não há escuta apartada da interpretação, de modo que a palavra, na experiência analítica, jamais é sacralizada[8]. Ao visar o real do efeito de sentido, a jaculação impõe-se como letra apofântica: fere o falasser para além da dicotomia entre verdadeiro e falso, prescindindo de qualquer demanda — sobretudo a de reconhecimento.
[1]Laurent, E. A interpretação: da verdade ao acontecimento. Curinga, Belo Horizonte: EBP-MG, nº 50, p. 182.
[2]Lacan, J. Les non-dupes errent (1973-1974), séance du 18 décembre 1973, Paris, inédit. (Grifo nosso)
[3]Idem.
[4]Lacan, J. R.S.I. (1974-1975), séance du 11 février 1975, Ornicar?, Paris, 1975, nº 4, p. 97. (Grifo nosso)
[5]Laurent, E. A interpretação: da verdade ao acontecimento., op. cit., p. 182.
[6]Miller, J.-A. “L’un est lettre”. La Cause du désir, mars 2021, nº 107, p. 29.
[7]Idem.
[8]Miller, J.-A. “Conversation d’actualité avec l’École espagnole du Champ freudien. La Cause du désir, août 2021, nº 108, p. 51.
O sino da interpretação
O sino da interpretação
Romildo do Rêgo Barros
Porque donde no hay significante no podemos estar seguros de que haya goce. De modo que hay que suponer que el significante no tiene simplemente efectos de significado, sino de goce. ¿Qué serían asimilables a qué? Podemos verlo con las campanas, cuando se produce una fisura. Cada vez que toquen el carillón, seguirán escuchando la fisura de la campana. Pues bien, el goce es la fisura de la campana. Si la interpretación se mide con el goce, entonces no se la solicita por sus efectos de sentido, sino de goce.
Miller, J.-A. Sutilezas analíticas. Los cursos psicoanalíticos de Jacques-Alain Miller. Buenos Aires: Paidós, 2011, p. 267
Freud utiliza a própria resistência do sujeito para fazer ressoar outra coisa. Ele não se perde nos meandros do gozo, mas tenta fazer vibrar as ressonâncias da fala. É a isso que Lacan chama sua técnica renovada da interpretação.
Miller, J.-A. Silet: os paradoxos da pulsão de Freud a Lacan. Rio de Janeiro: Zahar, 2005, p. 26.
Pode-se usar o termo resistência em muitos setores do saber e das práticas. Por exemplo, em engenharia, a resistência dos materiais é uma coisa importante.
O principal erro, me parece, nosso, de psicanalistas, é pensar que a resistência é um erro. Como se sujeito estivesse errado em resistir.
É o primeiro passo para não se entender nada do que ocorre.
Lacan propõe uma inversão decisiva. Ele diz que a resistência está do lado do analista. Mesmo nesse caso, podemos também cometer um erro em pensar que a resistência – que está sempre do lado do analista -, seja um erro, agora do analista.
É um defeito de raciocínio. Mais ou menos paralelo a pensar que a resistência do sujeito é um pecado, um defeito.
Então, se não é um pecado ou um defeito, o que será?
Podemos partir da ideia dos engenheiros e pensar que a resistência é um ponto preciso da fala. Existe sempre na fala, e até no discurso, um ponto que se manifesta como resistência.
Não há fala sem resistência. Então, creio que aí sim, se torna interessante pensar a resistência do lado do analista, porque é com relação ao ponto onde a resistência se manifesta no discurso analisante que cabe ao analista intervir. Alguma coisa que aparece na história, na fala do sujeito, e que chama à intervenção por parte do analista. Então aparece a resistência como alguma coisa que mostra. Nisso, embora não seja a mesma coisa, fica claro um certo paralelo com a noção lacaniana do acting out. A resistência seria a falta de reação do analista com relação a esse ponto, chamemos de um ponto de gozo, que pode levar a acting out, em que o sujeito atua este ponto de gozo.
No caso da resistência, estamos em um plano mais estrutural. Não há fala sem resistência. E cada vez que se manifesta resistência, é esse o lugar do analista como real, como interlocutor desse gozo.
Este ponto de real encarna um ponto de esgotamento do sentido.
Cabe então outro comentário. Há outro, digamos, defeito psicanalítico que é o de pensar que a intervenção do analista deve se articular ao momento em que o sentido começa a fraquejar. Ele viria, então, dar um reforço ao sentido.
Ao contrário, a função do analista é de apontar. Apontar aquilo que acontece como consequência no discurso quando o sentido fraqueja. É, digamos, uma função ligada ao real, ao gozo, ao esgotamento não só do sentido, como do desejo.
É que só existiria, se não fosse assim, só existiria interpretação como mais uma frase proposta pelo analista à frase que já foi dita pelo seu paciente, ou seja, seria uma análise sem fim.
Nesta passagem, Miller está propondo outro tipo de intervenção, em vez de apontar para o gozo, o ponto do gozo, ou o objeto condensador de gozo, tal como O São João de Leonardo da Vinci que Lacan indica, seria o caso, em algumas situações, de fazer vibrar.
Vale lembrar o que Freud faz quando vê seu analisante o vendo como Capitão Cruel, agente da tortura dos ratos. Freud não intervém pelo sentido, mesmo que ele possa dizer “Eu não tenho nenhuma vocação para tortura”, no sentido de “Eu não sou o Capitão Cruel”. Sabemos que ele parte para uma aparente doutrinação. Dá umas aulas de psicanálise. E Freud foi bastante criticado por isso.
Mas o que destaca Miller é que ele atua o capitão cruel quando dá aula. É diferente de dizer que é um engano. O que Miller está dizendo é que Freud está antecipando a Interpretação Lacaniana. Qual é a Interpretação Lacaniana?
Não é responder de lado, mas a partir do lugar em que está posto na transferência. Só que em vez de dizer que a transferência é um erro, você age do lugar do gozo. No lugar do gozo, você destitui a sequência fraseológica por fazer vibrar sua relação com o gozo. Aí desloca o Capitão Cruel. Não acredito que fosse a intenção de Freud, mas é uma interpretação excelente. Então, isso equivale a dizer que Freud dá corpo à ideia de que a resistência está sempre do lado do analista.
Miller compara a intervenção do analista ao badalo de um sino. Sino, no plano das ressonâncias, como manobra interpretativa, é só para fazer vibrar a fala. Não é para trazer os fiéis, que a missa vai começar. É para favorecer a experiência do gozo em ruptura com o sentido.
É uma metáfora fazer vibrar, mas eu acho que ele quer dizer com isso que você não pode fazer e pensar que é um corte, para rachar o simbólico, que já está estruturalmente.
Entendo que a ressonância exige um primeiro momento, que é o puro choque que no sino se dá pelo encontro do badalo com o corpo do sino. A ressonância é o que vai vir em consequência dessa aplicação de força na parede do sino com a vibração. A vibração vai existir até que a força do badalo desapareça, chegue a zero, aí termina.
O badalo é o encontro com esse ponto de gozo. O badalo é a presença do analista dando corpo a este ponto. Talvez isso tenha a ver com o acontecimento de corpo, como outra maneira de falar desse ponto do real da resistência.
Então, o que interessa é que as ressonâncias produzam uma mudança, uma certa mudança de posição da fantasia, ou outra possibilidade, que é quando já gastou tanto a fantasia que esse badalo, as ressonâncias, é o que você pode fazer.
Interpretação e construção
Interpretação e construção
Elisa Alvarenga
En tiempos de Freud no se establecía una diferencia tan hermética entre la interpretación y la construcción. Freud concebía muy bien la interpretación como comunicación de una construcción al paciente, una construcción, es decir, una elaboración de saber hecha por el analista. Freud explicaba esta elaboración de saber al paciente. No tenía dificultad en establecer de este modo una continuidad entre interpretación y construcción, entre la elaboración de saber y su comunicación a los fines de un efecto de verdad. Podemos decir que en su tiempo, y en todo caso para él -es la referencia, tal vez mítica, que tenemos-, el saber tenía en sí mismo efectos de verdad.
Miller, J.-A. La fuga del sentido. Buenos Aires, Paidós, 2012, p. 227.
Esta afirmação de Miller, no seu curso de 28 de fevereiro de 1996, em Paris, pode ser esclarecida por um Seminário realizado em Milão dois anos antes, publicado sob o título “Marginália de ‘Construções em análise’”[1]. Miller começa propondo que a construção é uma espécie de ser intermediário entre interpretação e teoria, para chegar à constatação surpreendente de que, em “Construções em análise”, Freud está diante da evidência de que há sempre um resto que fica fora da construção e que Lacan escreve S(Ⱥ). Algo fica sempre defasado entre o todo e os pedaços e é isso que torna necessária a construção.
Em Freud, a interpretação teria o ar de um fragmento de construção, um tijolo da construção, uma pequena pílula de saber, enquanto a construção seria o todo do saber. Interpretação e construção seriam homogêneas. Miller considera que a interpretação em Freud abre, toca um elemento, faz ressoar, enquanto a construção liga diversos elementos, fecha.
Já para Lacan, interpretação e construção são dois modos bem diferentes. Elas se opõem como saber e verdade: a construção é uma elaboração de saber, enquanto a interpretação tem alguma coisa do oráculo. A construção da qual Lacan fala é aquela do fantasma que se realiza pelo efeito da operação analítica.
Para Freud, o analisante deve se lembrar do que foi recalcado, enquanto o analista deve construir ali onde o analisante não se lembra. Ou seja, Freud faz da construção uma atividade do analista. Já Lacan reparte as coisas de outra maneira: ele põe do lado do analisante não apenas a rememoração, mas também a construção, e o que cabe ao analista é o ato, a autorização simbólica de proceder à tarefa analisante.
Freud examina também a verdade e a falsidade de uma construção. Não é um grande problema fazer uma construção errada, pois, pode-se fisgar “a carpa da verdade justamente com a isca da mentira”[2]. O que garante a verdade de uma construção não é o sim ou o não do paciente, mas o material inconsciente que surge após uma construção. A denegação vale como certificado de autenticidade, assim como a resposta “Eu nunca pensei isso”, sinal de que se tocou o inconsciente. Aqui, diz Miller, o inconsciente não mente, ele fala ao lado e não podemos sugestioná-lo. O significante mente, é semblante, mas o gozo não mente, porque está do lado do real.
Se há um declínio da interpretação, propõe Miller, não é simplesmente por um déficit do saber constituído na psicanálise, mas por uma impotência da verdade em relação ao gozo[3]. É aí que se torna necessária uma outra modalidade de interpretação que é a leitura, que neste momento do seu Curso, Miller chama de legibilidade do sexo, ou das pulsões parciais, que vai além da interpretação do desejo e coloca em cena o corpo vivo com seu gozo[4].
[1] Miller, J.-A. Marginália de “Construções em análise”. Opção Lacaniana n. 17. São Paulo, nov. 1996, p. 92-107.
[2] Freud, S. Construções em análise. Fundamentos da clínica psicanalítica. Belo Horizonte, Autêntica, 2016, p. 371. Freud se refere à fala de Polônio, personagem do Hamlet de Shakespeare, ato II, cena I.
[3] Miller, J.-A. La fuga del sentido, Buenos Aires, Paidós, 2012, p. 234.
[4] Ibidem, p. 241-242.
ECOS DA I PREPARATÓRIA DO XXVI EBCF
ECOS DA I PREPARATÓRIA DO XXVI EBCF
Glória Maron
“O sonho é em si mesmo, uma interpretação, selvagem, é claro, mas interpretação?”[1], citação de Lacan que aponta para a o inconsciente intérprete assim como nos conduz a problematizar o fazer e a posição do analista. A interpretação do analista não visa uma suposta complementação do que falta ao texto do inconsciente e nem se confunde com sua tradução. Retomo e compartilho a pergunta de Cristina Drumond: como dar lugar ao inconsciente intérprete sem alimentar o sentido e tendo a chance de tocar o real.
Os ecos da I Preparatória do XXVI EBCF contribuíram com muitos elementos para turbinar essas questões e nos impulsionar nessa trilha de pesquisa. A começar, foi se estabelecendo uma separação rigorosa entre uma interpretação que seja pela decifração ou pelo silêncio pode se colocar a serviço da infinitização do sentido daquela intervenção do analista que vai além do plano do dito do analisante, podendo assumir valor de corte.
Testemunhamos que as intervenções dos fragmentos clínicos não se orientaram no que quer dizer isso, nem tampouco o que o analisante quer para dizer isso e sim o que é que, ao dizer isso quer[2]. Essa torção que se volta para localizar o dizer naquilo que não foi dito na fala do analisante coloca no horizonte da interpretação lacaniana o deslocamento do isso quer dizer para o isso goza, abrindo a possibilidade de uma outra escrita do inconsciente e uma modificação da relação do analisante com uma dimensão real do gozo que lhe é inapreensível, opaco.
Sigamos essa trilha, ap
reendendo nas sutilezas dos fragmentos clínicos, o que não está contado em uma história, o não se torna uma mensagem, não produz sentido, mas está ali.
[1] LACAN, J. O SEMINÁRIO, livro XVI DE um Outro ao outro. Rio de Janeiro:Zahar. 2008. P.193
[2] _______________p. 195
Algumas reflexões sobre o tema da interpretação
Algumas reflexões sobre o tema da interpretação
Mônica Hage (EBP/AMP)
No texto “O inconsciente intérprete: o lugar do sonho”, Cristina Drummond traz a questão sobre “Como dar lugar ao inconsciente intérprete sem alimentar o sentido e tendo a chance de tocar o real”[1].
Se os sonhos precisam do dispositivo analítico para ganhar “estatuto de sonhos que interpretam o inconsciente”[2], é porque, fora dele, se resumiria a um “traço fora do sentido no corpo vivo”[3]. Talvez isso já nos permita vislumbrar que, para além do sentido, há algo mais no sonho: um corpo que vibra.
Quantas vezes escutamos dos analisantes: “ainda não sei o que esse sonho quer dizer, ou o que significa, mas o que sei é que produziu algo forte no corpo...” Esse algo no corpo, para além do seu significado, nos aponta que o sentido e a decifração não são capazes de recobrir tudo em um sonho.
O exemplo de Clotilde Leguil, trazido por Laurent Dupont nos mostra com clareza esse para além, que Freud denominou o umbigo do sonho. A analisante leva o sonho para a sessão e o interpreta dando-lhe um sentido. “Eu tinha acabado de ser nomeada passadora e sonhei que o analista estava olhando na minha boca e cortando pedaços de língua. Eu me encontrei com os pedaços de língua na mão e me perguntei como eu ainda seria capaz de beijar e falar. Finalmente, percebi que ainda podia falar. Quando saí, joguei os pedaços de língua que mantinha na mão no lixo». Fim do sonho. No momento, percebi esse sonho como se referindo a algo da ordem de uma separação com uma certa relação com a fala. Mas o analista apontou que ter a língua cortada também era abordar o que eu não podia dizer”[4]. Ela acrescenta: “esse sonho foi um choque elétrico”[5], já apontando o efeito do sonho no corpo. O que lhe permitiu ir além da decifração foi que o analista não se conformou, não se deixou “enganar pelo brilho da significação”[6].
Um dos fios de leitura proposto para o XXVI EBCF aponta para o que ressoa na interpretação. O que ressoa? Poderíamos dizer que no caso de Clotilde Leguil a fala do analista “o que eu não podia dizer”[7], ao abrir para o indizível, produziu ressonâncias além do sentido lhe permitindo abordar a sua “relação com a feminilidade na vertente do gozo”[8].
Esse pequeno fragmento clínico deixa claro que o sonho tem um duplo estatuto, já que além de ser tomado como a via régia de decifração do inconsciente, ele também marca o corpo e permite ler “o que isso satisfaz”?
Lacan, lido por Miller, no decorrer do seu ensino propõe revirar a interpretação ao avesso. Da ideia de decifração, tradução, significação, ele propõe uma interpretação a-semântica. Não se trata mais de pontuação, mas de corte que, ao separar S1 e S2, “reconduz o sujeito à opacidade de seu gozo”[9]. Para produzir esse efeito o analista é livre em sua tática. Serão palavras, sons, barulhos, gestos, enfim, algo que possa ressoar no corpo e afetar o gozo.
Nessas idas e vindas, viradas e reviradas, entre o direito e o avesso, quem interpreta? Se o inconsciente é o intérprete, e o fazer do analista? Estaríamos diante de contradições? Paradoxos?
O fragmento clínico trazido nos mostrou que talvez seja possível tocar o real, sem necessariamente deixar de dar lugar ao inconsciente intérprete, desde que estejamos advertidos dos limites da significação.
[1] Drummond, C. O inconsciente intérprete: o lugar do sonho. Texto publicado no Site do XXVI EBCF.
[2] Dupont, L. Da decifração à letra, o caminho do sonho na análise. In: Papers 4. Sonho, real, verdade. Comitê de Ação da Escola Uma. XII Congresso da AMP. O sonho: sua interpretação e seu uso no tratamento lacaniano.
[3] Idem.
[4] Leguil, C. Rêve, rivage, dénouement. Quarto, n.123, apud Dupont, L. Da decifração à letra, o caminho do sonho na análise. In: Papers 4. Sonho, real, verdade. Comitê de Ação da Escola Uma. XII Congresso da AMP. O sonho: sua interpretação e seu uso no tratamento lacaniano.
[5] Idem.
[6] Idem.
[7] Idem.
[8] Idem.
[9] Miller. J.A. A interpretação pelo avesso. Opção Lacaniana, n.15. São Paulo: Eolia, abril de 1996.
SINTRAUMATIZAR O BARULHO DA LÍNGUA
SINTRAUMATIZAR O BARULHO DA LÍNGUA
Blanca Musachi
Graciliano Ramos: Infância. Trevas e farrapos de imagens para um destino de escrita.
Trata-se de um importante escritor brasileiro que escreveu páginas memoráveis na literatura. Seu livro Infância é uma obra que tece uma ficção a partir de lembranças referidas à sua infância, onde nos interessa particularmente como ele atravessa o capítulo da infância chamado Cegueira, no livro.
Escreve sobre a doença nos olhos que o perseguiu na meninice. Padecia de pálpebras inflamadas. Um sintoma doloroso em excesso. Vivia na treva. Descreve seu aspecto desagradável, que inspirava repugnância e despertava a viva antipatia da mãe que o apelidou de bezerro encourado (um intruso) e cobra cega, motivo de deboche e zombaria. Escreve: Devo o apelido ao meu desarranjo, à minha feiura; ao desengonço. Não havia roupa que me assentasse no corpo. Depois do tempo de se revoltar contra essa injúria familiar que o comparava a um bicho infeliz, conclui que ninguém tinha culpa de seu organismo achacado e mofino. A leitura deu lugar à escrita como sinthome, e para dar consistência à sua imagem corporal.
Essa doença nos olhos, como ele mesmo diz, o afastou da escola e o tornou solitário, sem amigos. Mas um dia revela-se para ele algo que vai mudar a sua vida: “Na escuridão percebi o valor enorme das palavras”, escreve. Ou seja, do “mergulho da sombra, com migalhas de sons, farrapos de imagens dolorosos” encontra uma saída quando percebe o “valor enorme das palavras”. Aprenderá a ler aos 9 anos e se tornará um leitor voraz, aos 11 se tornará editor do jornal da escola e, no caminho das letras, construirá um destino de escritor, que explora o trauma – cuja essência é o trauma da língua –, o “sintraumatiza”, como diz Miller com Lacan, referindo-se a outro escritor célebre, Joyce. Cito: “Ele explora o trauma, o “sintraumatiza”… É a essência de todo sintoma. Eles têm o hábito de se esconder sob fantasias, mas com Joyce nós temos a sua essência. É o núcleo da clínica”. (Miller citado por Ram Mandil, em Lacan, leitor de Joyce, capítulo O artífice e sua arte. p. 271, verso).
Infância, de Graciliano Ramos, se é uma biografia, como toda biografia, está esburacada, tem um ponto de impossível estrutural, de fracasso para dizer o real, e onde os fatos são, como ensina Lacan, fatos de discurso. O que importa é a arte com a qual ele “sintraumatiza” a incidência da língua sobre o ser que fala, que constitui o infantil indelével.
Temos outros exemplos. Em Manoel de Barros vemos como ele fez do infantil, matéria de poesia. Em seu poema Fontes, ele diz que tem três parceiros para suas memórias inventadas: Os pássaros, os andarilhos e a criança: “parceiro desde sempre é a criança que me escreve”.
Assim como Graciliano, mas sem o dramatismo da cegueira, Manoel de Barros diz: “A criança me deu a semente da palavra”. “Uso a palavra para compor meus silêncios”. Isso diz do tratamento que “sintraumatiza” o barulho da língua, fazendo “delirar o verbo”, tecendo o que Lacan chamou de um gai savoir, um saber alegre.






































